4: Nada ali é fácil

Ayana Brooks

O emprego que parecia simples demais, na realidade, era mais complicado do que eu poderia imaginar. O anúncio dizia apenas o essencial, e a minha alegria acabou no exato momento em que meus olhos se cruzaram com o de Malik Anderson, o causador de grande parte da situação catastrófica que minha avó e eu estávamos passando. Por culpa dele, a minha momma não recebeu os seus devidos direitos trabalhistas, e em razão disso, a nossa situação financeira declinou completamente.

A proposta de emprego que eu recebi era rasa demais para a profundidade, que significa trabalhar para esse homem.

"Uma vaga disponível de babá em Manhattan. O horário e salário a combinar. Caso tenha interesse, responda a esta mensagem para mais informações."

Eu deveria ter desconfiado que tudo isso era bom demais para ser verdade. Mas a realidade é que, quando a necessidade aperta, a desconfiança aprende a cochilar. E eu precisava daquele emprego. Precisava mais do que estava disposta a admitir.

A mansão ficava em Manhattan, imponente demais para ser ignorada e silenciosa demais para ser acolhedora. Vidros espelhados refletiam a cidade que nunca dorme, mas ali dentro… tudo parecia suspenso no tempo. Como se alguém tivesse apertado pause na vida.

O segurança pronunciou meu nome no interfone com respeito excessivo quando confirmou minha identidade. Entrei sozinha pelo gigantesco portão que dava uma visão privilegiada da entrada da casa, segurando a bolsa contra o corpo, sentindo aquele frio estranho no estômago — o mesmo que sempre aparece quando algo importante está prestes a mudar.

Quando as portas se abriram, o silêncio me atingiu primeiro. Não era um silêncio comum ou ausência de som. Era um silêncio pesado. Denso. O tipo que ocupa espaço, que se infiltra na pele e faz o coração bater mais devagar, como se estivesse com medo de incomodar.

A porta já estava destrancada.

— Olá? — chamei, com a voz mais baixa do que pretendia.

Nada. Nenhuma resposta.

Entrei devagar. A mansão era absurdamente grande. Luxuosa, sim, mas fria. Tons escuros. Cinza, preto e madeira profunda preenchiam as paredes. Tudo era  impecável. Mas, tudo… sem vida.

Olhando ao redor não vi nenhum porta-retrato, nada fora do lugar e nenhum sinal de riso. Até parecia que ali não havia uma criança.

Foi então que ouvi.

Um som pequeno. Frágil. Um chorinho contido, como se quem chorasse já tivesse aprendido que não adiantava fazer barulho demais. Por instinto, segui o som com o coração apertado. O bebê estava no colo de uma senhora, possivelmente a governanta ou responsável por manter todo aquele 'castelo sombrio' em ordem. Os olhos grandes e escuros me encararam assim que me aproximei. Estavam molhados, atentos e cansados.

— Ei pequeno… Tudo bem?  — disse, quase instintivamente — Parece que você teve um dia difícil, hein?

Imediatamente ele parou de chorar.

Meu corpo relaxou antes que minha mente tivesse tempo de acompanhar. Havia algo naquele olhar. Algo que me atravessou sem pedir permissão. Não era só um bebê. Era solidão em forma de gente pequena.

— Oi, meu amor — falei baixinho, como se já o conhecesse.

Ele estendeu a mão minúscula, mas que tinha uma determinação de gente grande... E quando seus dedos se fecharam em torno dos meus, eu soube... Aquele emprego não era simples... Nunca foi.

Automaticamente, ele se jogou em meus braços, posicionamento seu rosto em meu ombro. Algo novo surgiu dentro de mim. Sempre fui muito apegada as minhas raízes, e talvez eu estivesse projetando nesta criança o lado fraternal que por ser filha única, eu nunca pude ter.

— Ele gosta quando alguém conversa com ele — disse uma voz atrás de mim.

Virei rápido demais, o coração disparando.

Ele estava parado na porta. Um homem alto, imponente e bonito de um jeito que não pedia aprovação. Ele não sorria e também não parecia confortável ali. Usava uma camisa social escura, mangas dobradas até os antebraços, como se estivesse sempre a meio passo de ir embora.

Mas os olhos… Os olhos dele carregavam algo quebrado.

— Desculpe — falei, soltando o dedo do bebê com cuidado. — Eu ouvi ele chorando.

— Ele quase nunca chora alto — respondeu. A voz era grave, controlada. — Aprendeu cedo a não chamar atenção.

Aquilo me doeu mais do que deveria.

— Sou Ayana Brooks. A babá que a agência enviou.

Ele assentiu.

— Malik Anderson.

O sobrenome caiu em mim como uma bomba atômica. Senti o estômago gelar, a garganta secou e o meu coração parou de bater por alguns instantes. Eu estava diante do homem que tornou a vida da minha família em pesadelo. Demorei apenas alguns segundos para encaixar o rosto ao império. O nome que dominava a tecnologia, investimentos, revistas e uma fortuna bilionária estampada em manchetes. Mas ali, diante de mim, ele não parecia um homem poderoso e desumano. Parecia um homem cansado.

— Este é o Noah — disse ele, olhando para o filho. — Ele tem um ano.

Noah voltou a segurar meu dedo, como se tivesse medo de que eu desaparecesse.

Malik observou a cena com algo que não consegui decifrar. Não era ciúme ou raiva. Era… surpresa. Talvez até um resquício de esperança — embora ele parecesse o tipo de homem que não se permite sentir isso.

— Ele se acostuma fácil com você — murmurou.

— Bebês sentem quando alguém está presente de verdade — respondi, sem pensar.

O silêncio voltou a se espalhar entre nós.

— O trabalho é simples — a senhora que se apresentou com o nome Lily disse, finalmente. — Cuidar de Noah. Controlar a alimentação, horário e o sono dele. Tudo está anotado...

Lily dizia, até aquela voz forte surgir novamente.

— Não espero envolvimento emocional com o meu filho — Malik disse.

A frase soou ensaiada, dura e definitiva.

— Claro — respondi. — Profissionalismo é importante, senhor Anderson.

Mas Noah apertou meu dedo com mais força, como se discordasse.

Malik desviou o olhar primeiro.

— Você ficará hospedada no quarto de hóspedes. Há regras claras. Não recebo visitas. Não gosto de barulho. Discrição é essencial.

— Entendido, senhor.

Ele assentiu novamente.

— Qual é a sua idade senhorita Brooks?

— Vinte e cinco.

Ele ouve a resposta. Fica em silêncio por alguns segundos parecendo analisar a situação. Eu já aguardava pelo pior, mas o que eu ouço é um simples:

— Pode começar hoje.

Simples assim.

Ele não fez mais nenhuma pergunta sobre mim, nenhuma curiosidade e muito menos uma tentativa de simpatia. Era como se eu fosse apenas mais uma peça substituível. E talvez eu fosse.

"Ele deve agir assim com todas as pessoas, assim como fez com a minha avó."

Penso enquanto observo Malik se afastar com passos firmes, controlados e sozinhos.

Eu fiquei ali, com Noah nos braços, sentindo o peso de uma casa grande demais para duas pessoas tão pequenas emocionalmente.

— Não se assuste. Faça bem o seu trabalho e não terá problemas — Lily disse.

Eu assenti. E permaneci pensativa tentando absorver tudo o que o todo poderoso Malik Anderson tinha acabado de dizer mesmo sem palavras.

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