Mundo ficciónIniciar sesiónAyana
Depois do almoço, ajudo a minha avó a se deitar um pouco. A perna dela ainda dói, os antibióticos estão chegando ao fim, e saber que talvez eu não tenha como compra-los me destrói ainda mais. Observo a moleta encostada na parede que mais se parece com um lembrete cruel da injustiça que sofremos. Não consigo entender o porquê do mundo ser tão injusto. Como uma justiça que deveria servir para ajudar quem necessita, concede privilégios apenas para aqueles que possuem mais condições? Às vezes chego a pensar que ao nascermos em famílias humildes automaticamente nos tornamos invisíveis. Mundo cruel e desumano. Fecho a porta do quarto dela e volto para a sala, sentindo o peso da responsabilidade esmagar meu peito. Enquanto organizo a cozinha lembro do documento que dizia: "Vinte dias." Eu tinha somente vinte dias para resolver uma vida inteira. O medo surge com força dentro de mim. Um sentimento cruel que conheço muito bem. Depois de tudo organizado subo novamente para o meu quarto e pego o celular. A bateria finalmente estava cheia. Abro a tela e verifico as mensagens, as redes sociais, os meus e-mails… e não tinha nenhuma novidade, resposta ou nova oportunidade. Só o silêncio cruel e devastador. Engulo em seco. As lágrimas ressurgem com força. E dessa vez não consigo controlar. — Não agora. A minha avó precisa de mim — murmuro. — Eu não posso desistir agora. Foi então que uma ideia surgiu na minha cabeça. Abro o navegador e digito “Empregos Nova York”. Em poucos segundos uma lista infinita de sites aparece na tela. Com a pouca esperança que me resta escolhi um dos sites mais conhecidos, respiro fundo e começo o cadastro. Coloquei o meu nome completo, a minha idade e o meu endereço no Brooklyn. Examinei a tela e hesito por um segundo antes de confirmar o bairro. Mas não apago. Não vou mentir sobre quem eu sou. Isso está fora de cogitação. Na parte de experiência profissional adiciono o meu trabalho na fábrica de tecidos, que tenho experiência com atendimento ao público, sei alguns cuidados básicos com idosos, que aprendi graças aos anos cuidando da minha avó, e sei lidar com organização doméstica. Digito tudo com atenção, como se cada palavra fosse uma chance real de sobrevivência. Quando chega a parte “outras habilidades”, penso por alguns segundos e escrevo: sou paciente, responsável, dedicada e muito boa em lidar com crianças. Não sei de onde vem essa última coragem de mencionar crianças, mas vem. Finalizo o cadastro, anexo o currículo simples que eu mesma montei no celular e aperto o botão de confirmar. A imagem de cadastro concluído surge na tela. — Pronto! Seja o que Deus quiser — falo, ergo as mãos para o céu. Solto o ar devagar, como se tivesse prendido a respiração por minutos inteiros. Largo o celular na cama e encaro o teto, tentando imaginar como será o amanhã se nada der certo. O medo aperta, e a sensação de está em um beco sem saída tenta me dominar, mas eu lembro da minha momma é o quanto ela lutou para não deixar as coisas desmoronar. Agora chegou a minha vez de retribuir a ela um pouco do que ela já fez por mim. Então, por mais que o mundo tente me colocar para baixo, eu me recuso a ceder. Mais tarde, ajudo minha avó a preparar o jantar. Estava frio, era início do inverno, então um caldo de legumes com algumas torradas combinava e muito. Enquanto minha avó tomava o caldo, coloco um travesseiro extra para apoiar sua perna. — Prometo que tudo ficará bem — falo, e beijo sua testa com carinho. Ela segura a minha mão, sorri mesmo sem ânimo e com a sua voz terna diz: — Eu sei que tudo ficará bem, minha menina. Não existe dor que dure para sempre. Me emociono com suas palavras. Mas disfarço para ela não perceber que eu também temia pelo nosso futuro. A minha avó já tinha problemas demais para se angustiar com mais um. Então ela finge acreditar que tudo ficará bem, e eu finjo ter certeza. Sento na cadeira à sua frente. Sirvo um pouco de caldo, mas não consegui comer, porque parecia que tinha algo atravessando a minha garganta. Eu sabia o que era, só preferi ficar quieta, porque nada que eu dissesse mudaria a nossa realidade. Algum tempo depois ajudo a minha avó a chegar em seu quarto. Ela faz uma breve oração, deita e em poucos segundos adormece. Beijo sua testa e silenciosamente faço uma promessa: — Tudo ficará bem. Eu prometo, momma. Saio do quarto com uma nova sensação dentro de mim, não era nada ruim como dias atrás, mas eu sentia algo bom, como se as coisas fossem tomar um rumo diferente e a paz fosse finalmente chegar. Quando finalmente me deito, o cansaço chega muito rápido. O meu corpo adormece, mas a minha mente continua inquieta. Horas depois, o toque do celular me acorda. Assustada, e com a visão turva, tateio a cama até encontrar o aparelho. A tela ilumina o quarto escuro com uma notificação de mensagem que dizia: "Nova oportunidade de emprego disponível." O meu coração dispara. — Obrigada, meu Deus! — agradeço. Abro a mensagem com pressa. "Olá, Ayana. Vimos seu cadastro em nossa plataforma e acreditamos que seu perfil pode ser compatível com uma vaga disponível de babá em Manhattan. O horário e salário a combinar. Caso tenha interesse, responda a esta mensagem para mais informações." Leio e releio duas, três vezes, com medo de ser algum tipo de engano. — Uma vaga de babá em Manhattan, uma das cidades mais luxuosas de Nova York — eu disse, tentando me convencer que aquilo estava realmente acontecendo. Seguro o celular com força contra o peito, sentindo uma mistura de alívio e esperança que há dias eu não conhecia. — Talvez… só talvez… essa seja a luz no fim do túnel — falo emocionada sem imaginar, nem por um segundo, que aquela simples mensagem estava ligada à mesma empresa responsável pela queda da minha avó — e que esse emprego mudaria completamente o rumo da nossa história. Será que isso vai dar certo?






