Mundo de ficçãoIniciar sessãoAyana Brooks
Passei o dia inteiro tentando entender Noah. Não só a rotina escrita em horários, mas o jeito dele existir dentro daquela casa grande demais para um bebê tão pequeno. Aprendi os horários certinhos da mamadeira, os intervalos quase exatos em que ele começava a ficar inquieto, os brinquedos que o acalmavam e aqueles que ele ignorava completamente. Descobri onde Lily guardava as roupas, quais bodies ele aceitava vestir sem reclamar e quais faziam ele se contorcer de irritação. Aprendi o horário do banho, a temperatura da água que o deixava mais tranquilo, o tipo de toalha que ele gostava de agarrar com as mãozinhas. Mas, no meio de tudo isso, algo começou a me incomodar. As sonecas de Noah eram curtas demais. Não eram cochilos profundos, restauradores. Eram pausas rasas, como se ele tivesse medo de dormir por muito tempo. E quando acordava, seus olhos ficavam atentos demais, abertos demais, como se estivessem sempre procurando alguma coisa. Ele observava tudo. O movimento das cortinas com o vento. O som distante dos carros na rua. Meus passos pelo quarto. A minha voz quando eu falava com ele, mesmo sem perceber. Era um olhar que não combinava com o cansaço do corpo pequeno. Aos poucos, entendi. Noah não tinha fome de leite. Nem de comida. Nem de brinquedos caros espalhados pela casa. Ele tinha fome de presença. De colo sem pressa. De alguém que ficasse ali mesmo quando ele já não estivesse chorando. Quando eu o pegava no colo depois de uma soneca curta, ele se agarrava em mim com força, como se quisesse ter certeza de que eu ainda estava ali. E ficava quietinho, absorvendo cada detalhe ao redor, como se o mundo fosse algo frágil demais para perder de vista. Noah não queria dormir para descansar. Ele dormia apenas o suficiente para acordar… e continuar sentindo. A casa continuava amarga de silêncio. Não era um silêncio calmo, daqueles que acolhem. Era um silêncio duro, que ocupava espaço demais. Não havia música tocando em nenhum cômodo, nenhuma televisão ligada ao fundo, nenhum som de vida adulta tentando fingir normalidade. Só passos ocasionais de Malik indo e vindo, sempre apressados, sempre distantes, como se ele estivesse apenas atravessando a própria casa sem realmente pertencer a ela. Aquilo me apertava o peito. Depois que coloquei Noah para dormir, fiquei alguns minutos observando seu rosto relaxar aos poucos. Passei o polegar com cuidado pela bochecha macia, ajeitei o cobertor sobre o corpo pequeno e fiquei ali até ter certeza de que a respiração estava profunda. Não por obrigação. Por instinto. Saí do quarto em silêncio e comecei a andar pela mansão. Não era curiosidade vazia. Era uma necessidade estranha de entender aquele lugar. De descobrir onde a leveza tinha se perdido. Cada corredor parecia longo demais. Cada parede branca parecia guardar algo que nunca foi dito em voz alta. A casa era grande, bonita, impecável… e vazia de calor. Foi então que vi a porta. No corredor mais afastado. Branca, simples, fechada como todas as outras. Mas havia algo diferente nela. O ar ali parecia mais pesado, mais denso, como se o silêncio tivesse se acumulado naquele ponto específico. Eu não toquei. Não cheguei perto o suficiente. Ainda assim, senti. Algo ali doía. — Não entre aí. A voz de Malik surgiu atrás de mim, firme o bastante para me fazer virar com o coração acelerado. — Desculpe — falei rápido, sentindo-me pega em algo errado. — Eu só estava andando… conhecendo a casa. Ele ficou parado por um instante. O maxilar tenso, os olhos escuros fixos na porta, não em mim. — É um quarto que não é usado — disse, seco. Mas o olhar dele dizia outra coisa. Dizia perda. Dizia lembrança. Dizia um tipo de dor que não aceita visitas. — Entendi, senhor Anderson — respondi, baixando levemente a cabeça. Ele me observou por segundos longos demais, como se estivesse tentando decidir algo. Depois apenas assentiu e se afastou, deixando o silêncio voltar — ainda mais pesado. Naquela noite, acordei com o choro de Noah ecoando pela casa. Não pensei. Apenas corri. Quando entrei no quarto, vi Malik sentado no chão, as costas apoiadas no berço. O terno desfeito, a gravata jogada de lado. Noah chorava no colo dele, o rostinho vermelho, o corpinho inquieto. — Ele não dorme — Malik murmurou, sem me encarar. A voz baixa, cansada. — Nunca dorme a noite inteira. Ajoelhei ao lado deles. — Posso tentar? — perguntei com cuidado, estendendo as mãos devagar, para não assustar Noah. Malik hesitou. Vi isso nos dedos que se fecharam um pouco mais ao redor do filho. Depois, com um suspiro pesado, ele o entregou para mim como quem entrega algo precioso demais, frágil demais. Noah choramingou por um segundo, mas assim que o encostei no meu peito, ele foi acalmando. Passei a mão pelas costas dele, em movimentos lentos e constantes. Apoiei a cabecinha no meu ombro e comecei a balançar de leve, quase imperceptível. — Shh… tá tudo bem… eu tô aqui — murmurei, mais para ele do que para mim. A respiração dele foi desacelerando. O corpinho relaxou. As mãozinhas se agarraram ao tecido da minha blusa como se aquele gesto fosse uma âncora. Malik me observava em silêncio. Um olhar confuso, quase incrédulo. — O que você fez? — ele perguntou, baixo, como se tivesse medo de quebrar o momento. — Eu só fiquei, senhor Anderson — respondi. — Às vezes é só isso que eles precisam. Continuei ali por alguns minutos, até ter certeza de que Noah estava dormindo de verdade. Beijei de leve o topo da cabeça dele antes de colocá-lo no berço, ajeitando o cobertor com o mesmo cuidado de antes. Quando me virei, percebi que o silêncio havia mudado. Ainda existia. Mas não machucava tanto..Foi então que entendi: aquela casa não precisava de silêncio. Precisava de alguém que tivesse coragem de quebrá-lo. De ficar. De ocupar os espaços vazios sem medo das memórias. E naquele instante, com um bebê finalmente adormecido, e um viúvo quebrado me observando como se eu fosse uma ameaça invisível ao controle rígido que ele mantinha sobre a própria dor… eu soube... Eu tinha acabado de entrar em uma história que não era minha. Mas que, de alguma forma, já começava a me consumir.






