CAPÍTULO 4

Matteo Mancini

A manhã chega sem pedir licença.

O céu de Nápoles clareia lentamente, tingido por um cinza azulado que nunca promete paz. Não durmo. Nunca durmo quando algo foge do meu controle. O relógio na parede marca seis horas quando o som contido de passos ecoa no corredor.

Enzo não b**e. Ele sabe que não precisa.

— Don — diz, entrando com a postura rígida de sempre. — Começamos a levantar tudo sobre Giulia Moretti.

Viro-me devagar, cruzando os braços. Meu reflexo no vidro da janela me devolve um homem que aprendeu a esconder tudo atrás de silêncio e autoridade.

— E? — pergunto, seco.

— Professora substituta por dois anos. Trabalhos temporários. Sem ficha criminal. Sem vínculos com qualquer organização conhecida. — Ele hesita por um segundo, o suficiente para eu notar. — Pai morto há oito anos. Assalto. Mãe doente há três. Dívidas médicas consideráveis, mas nada ilegal.

Nada ilegal.

Isso deveria me tranquilizar. Em vez disso, me irrita.

— Amigos? — pergunto.

— Poucos. Quase nenhum contato frequente. Vive… isolada.

Dispenso Enzo com um gesto. Quando a porta se fecha, o silêncio retorna mais pesado do que antes.

Isolada.

Pessoas isoladas aprendem a sobreviver sozinhas. Aprendem a observar. A se adaptar. A não depender de ninguém.

Perigosas.

Caminho até a mesa e abro outro relatório, mas não leio. Minha mente já está em outro lugar. Imagino Giulia cruzando os corredores da mansão pela primeira vez. Olhando tudo com atenção demais. Avaliando. Calculando.

Ela não entra em ambientes novos como quem pede permissão. Entra como quem estuda rotas de fuga.

Reconheço isso porque faço o mesmo.

Horas depois, estou no andar principal quando ouço vozes vindas do jardim interno. Não me aproximo de imediato. Observar sem ser visto sempre foi meu maior talento.

Giulia está sentada no chão, ao nível das crianças. Não acima. Não distante. Isabella fala — algo raro — enquanto Giulia ouve com atenção genuína. Marco observa de braços cruzados, desconfiado. Dante mantém o maxilar tenso, analisando cada gesto dela como se esperasse uma armadilha.

Ela não força nada.

Não toca sem permissão.

Não exige.

Não ordena.

E, ainda assim, eles gravitam em torno dela.

Sinto algo estranho se contorcer dentro do peito. Não é raiva. Não exatamente.

É perda de controle.

Tommaso ri alto. Um som que quase não reconheço dentro destas paredes. Giulia sorri para ele, mas o sorriso não é amplo — é contido, cuidadoso, como se soubesse que alegria ali precisa ser administrada.

Sophia dorme em seus braços.

Minha filha.

Calma. Segura.

O aperto no meu peito se transforma em algo mais duro. Mais perigoso.

Ela não deveria conseguir isso. Não em poucas horas. Não com meus filhos.

Dou um passo à frente, fazendo minha presença ser sentida. O silêncio cai imediatamente. As crianças me olham. Giulia também.

Mas, diferente deles, ela não se encolhe.

Levanta-se devagar, ajustando Sophia antes de entregá-la a Isabella.

— Senhor Mancini — diz, firme.

— Giulia — respondo.

Nos encaramos por um segundo longo demais. Vejo cansaço nos olhos dela. Determinação. Medo. Tudo misturado. Nada frágil.

— As crianças estão se adaptando — diz ela, como se fosse um relatório. — Mas precisam de previsibilidade. Horários. Rotina.

— Não pedi sua avaliação — corto.

Ela não recua.

— Mas eu vou dar mesmo assim.

Um desafio claro. Direto.

As crianças observam em silêncio absoluto. Não por medo de mim — por expectativa.

E isso… isso é inaceitável.

— Você está aqui para cuidar — digo, baixo. — Não para ensinar como eu conduzo minha casa.

— Cuidar é ensinar — ela responde. — Mesmo que o senhor não goste.

O ar entre nós se torna denso. Perigoso. Um passo errado e algo irreversível acontece.

Por um instante, penso em mandá-la embora. Agora. Imediatamente. Recuperar o controle. Reafirmar quem manda.

Mas então olho para meus filhos.

Calmos. Atentos. Menos quebrados do que ontem.

E entendo a verdade que mais odeio.

Giulia Moretti não ameaça meu poder.

Ela ameaça minha forma de proteger.

— Cumpra o que foi combinado — digo, por fim. — Nada além disso.

— Sempre cumpro acordos — ela responde.

Mas seu olhar diz outra coisa.

Ela não veio para obedecer.

Veio para resistir.

Quando se afasta, sinto o peso da escolha que fiz. Mantê-la aqui não foi estratégia.

Foi instinto.

E instintos, no meu mundo, costumam custar caro.

Observo meus filhos se afastarem com ela, como se fosse natural. Como se sempre tivesse sido assim.

Fecho os punhos.

Giulia Moretti não é apenas uma variável.

Ela é um erro calculado.

E eu já aprendi, da pior forma possível, que alguns erros…

não permitem arrependimento.

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