Giulia Moretti
A mansão parecia menos hostil pela manhã, embora eu soubesse que aquilo era apenas uma ilusão criada pela luz suave que atravessava as janelas altas. O dia nascia tímido, encoberto por nuvens claras, e eu caminhava pelos corredores tentando organizar pensamentos que insistiam em se atropelar dentro de mim.
Responsabilidade não era novidade. Medo, tampouco.
Mas aquele lugar carregava algo diferente — uma tensão silenciosa que se infiltrava na pele.
Segurei a bolsa com firmeza enquanto seguia atrás de uma funcionária que mal me olhava. O som dos meus passos ecoava demais, denunciando cada insegurança que eu tentava esconder.
— O café da manhã já começou — ela informou, parando diante de uma porta dupla. — Estão todos lá.
Todos.
Sete.
Respirei fundo antes de tocar a maçaneta. Não era nervosismo comum. Era consciência. Eu estava prestes a entrar na vida de sete crianças marcadas por ausência, perda e um pai que governava com distância.
Empurrei a porta.
O ambiente era amplo, iluminado, mas nada acolhedor. Uma mesa longa ocupava o centro da sala, grande demais até para aquela família numerosa. O barulho cessou assim que entrei. Conversas morreram no meio. Talheres pararam no ar.
Sete rostos se voltaram para mim.
Por um instante, ninguém se moveu.
O mais velho estava recostado de forma desafiadora, os braços cruzados como um escudo. Havia dureza em seus olhos — não raiva, mas vigilância. Ao lado dele, uma menina de postura impecável observava cada detalhe com atenção madura demais para a idade.
Outro garoto mantinha o celular na mão, mas seus sentidos estavam todos ali. Ele apenas fingia desinteresse. Uma garota de traços delicados inclinou levemente a cabeça, curiosa. Um menino mais quieto brincava com o prato, evitando contato direto.
O menor não conseguia ficar parado. E a mais nova…
Ela permanecia parcialmente escondida atrás de um brinquedo gasto, como se aquele ursinho fosse sua última defesa contra o mundo.
Antes que eu dissesse qualquer coisa, senti a mudança no ar.
Ele estava ali.
— Crianças — disse a voz grave atrás de mim. — Esta é Giulia Moretti.
Não precisei olhar para saber quem era. Matteo Mancini ocupava espaço sem esforço. Sua presença se impunha como uma muralha invisível.
— Ela ficará responsável por vocês — continuou, sem emoção. — Principalmente pelos menores.
Nenhuma explicação. Nenhuma gentileza.
— Não quero problemas.
E saiu.
A porta se fechou com um peso simbólico, deixando para trás um silêncio constrangedor. Sete olhares voltaram-se novamente para mim, agora com algo a mais: expectativa.
Sorri com cuidado.
— Bom dia — cumprimentei. — Eu sou a Giulia.
A resposta veio rápida, cortante.
— Quanto tempo você acha que vai aguentar? — perguntou o mais velho.
Havia franqueza cruel naquela pergunta. Nenhuma tentativa de disfarçar.
— O tempo necessário — respondi. — E o tempo que vocês deixarem.
Alguns se entreolharam. A menina observadora arqueou a sobrancelha, surpresa.
— Todas falam isso — comentou o garoto do celular. — Depois somem.
— Não prometo eternidade — retruquei com calma. — Só presença enquanto eu estiver aqui.
A garota delicada sorriu de leve, quase escondendo o gesto.
— Você não parece fingir — disse ela.
— Fingir cansa — respondi.
O menino quieto continuava atento, absorvendo tudo em silêncio. O pequeno inquieto se inclinou para frente.
— Você manda comer coisas verdes?
Ri, sem conter.
— Talvez eu tente um acordo justo.
Ele abriu um sorriso largo, quebrando parte da tensão.
Foi então que senti um toque suave nas pernas.
Olhei para baixo.
A menor havia descido da cadeira sem que ninguém percebesse. Caminhou até mim com passos firmes, segurando o ursinho como se fosse parte do próprio corpo. Seus olhos escuros me analisaram, sérios demais para alguém tão pequena.
Sem aviso, ela se aproximou mais.
E me abraçou.
Seu corpo leve se encaixou contra mim, e meus braços reagiram antes da razão. Segurei-a com cuidado, sentindo o cheiro infantil e a fragilidade que ela tentava esconder.
Ela encostou o rosto no meu pescoço.
— Mama…
Meu mundo parou.
O coração perdeu o ritmo. A garganta fechou. Ao redor, ninguém se mexeu.
Aquela única palavra carregava uma dor que não cabia numa criança.
E eu soube, naquele instante, que aquele trabalho jamais seria apenas um emprego.