Capítulo 5

Giulia Moretti

A mansão parecia menos hostil pela manhã, embora eu soubesse que aquilo era apenas uma ilusão criada pela luz suave que atravessava as janelas altas. O dia nascia tímido, encoberto por nuvens claras, e eu caminhava pelos corredores tentando organizar pensamentos que insistiam em se atropelar dentro de mim.

Responsabilidade não era novidade. Medo, tampouco.

Mas aquele lugar carregava algo diferente — uma tensão silenciosa que se infiltrava na pele.

Segurei a bolsa com firmeza enquanto seguia atrás de uma funcionária que mal me olhava. O som dos meus passos ecoava demais, denunciando cada insegurança que eu tentava esconder.

— O café da manhã já começou — ela informou, parando diante de uma porta dupla. — Estão todos lá.

Todos.

Sete.

Respirei fundo antes de tocar a maçaneta. Não era nervosismo comum. Era consciência. Eu estava prestes a entrar na vida de sete crianças marcadas por ausência, perda e um pai que governava com distância.

Empurrei a porta.

O ambiente era amplo, iluminado, mas nada acolhedor. Uma mesa longa ocupava o centro da sala, grande demais até para aquela família numerosa. O barulho cessou assim que entrei. Conversas morreram no meio. Talheres pararam no ar.

Sete rostos se voltaram para mim.

Por um instante, ninguém se moveu.

O mais velho estava recostado de forma desafiadora, os braços cruzados como um escudo. Havia dureza em seus olhos — não raiva, mas vigilância. Ao lado dele, uma menina de postura impecável observava cada detalhe com atenção madura demais para a idade.

Outro garoto mantinha o celular na mão, mas seus sentidos estavam todos ali. Ele apenas fingia desinteresse. Uma garota de traços delicados inclinou levemente a cabeça, curiosa. Um menino mais quieto brincava com o prato, evitando contato direto.

O menor não conseguia ficar parado. E a mais nova…

Ela permanecia parcialmente escondida atrás de um brinquedo gasto, como se aquele ursinho fosse sua última defesa contra o mundo.

Antes que eu dissesse qualquer coisa, senti a mudança no ar.

Ele estava ali.

— Crianças — disse a voz grave atrás de mim. — Esta é Giulia Moretti.

Não precisei olhar para saber quem era. Matteo Mancini ocupava espaço sem esforço. Sua presença se impunha como uma muralha invisível.

— Ela ficará responsável por vocês — continuou, sem emoção. — Principalmente pelos menores.

Nenhuma explicação. Nenhuma gentileza.

— Não quero problemas.

E saiu.

A porta se fechou com um peso simbólico, deixando para trás um silêncio constrangedor. Sete olhares voltaram-se novamente para mim, agora com algo a mais: expectativa.

Sorri com cuidado.

— Bom dia — cumprimentei. — Eu sou a Giulia.

A resposta veio rápida, cortante.

— Quanto tempo você acha que vai aguentar? — perguntou o mais velho.

Havia franqueza cruel naquela pergunta. Nenhuma tentativa de disfarçar.

— O tempo necessário — respondi. — E o tempo que vocês deixarem.

Alguns se entreolharam. A menina observadora arqueou a sobrancelha, surpresa.

— Todas falam isso — comentou o garoto do celular. — Depois somem.

— Não prometo eternidade — retruquei com calma. — Só presença enquanto eu estiver aqui.

A garota delicada sorriu de leve, quase escondendo o gesto.

— Você não parece fingir — disse ela.

— Fingir cansa — respondi.

O menino quieto continuava atento, absorvendo tudo em silêncio. O pequeno inquieto se inclinou para frente.

— Você manda comer coisas verdes?

Ri, sem conter.

— Talvez eu tente um acordo justo.

Ele abriu um sorriso largo, quebrando parte da tensão.

Foi então que senti um toque suave nas pernas.

Olhei para baixo.

A menor havia descido da cadeira sem que ninguém percebesse. Caminhou até mim com passos firmes, segurando o ursinho como se fosse parte do próprio corpo. Seus olhos escuros me analisaram, sérios demais para alguém tão pequena.

Sem aviso, ela se aproximou mais.

E me abraçou.

Seu corpo leve se encaixou contra mim, e meus braços reagiram antes da razão. Segurei-a com cuidado, sentindo o cheiro infantil e a fragilidade que ela tentava esconder.

Ela encostou o rosto no meu pescoço.

— Mama…

Meu mundo parou.

O coração perdeu o ritmo. A garganta fechou. Ao redor, ninguém se mexeu.

Aquela única palavra carregava uma dor que não cabia numa criança.

E eu soube, naquele instante, que aquele trabalho jamais seria apenas um emprego.

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