Capítulo 3

Matteo Mancini

O uísque desce devagar, queimando como deve.

Velho. Forte. Caro.

Nada aqui é escolhido por acaso.

Giro a cadeira de couro lentamente, observando o teto alto do meu escritório como se ele pudesse cair a qualquer momento. Às vezes, torço para que caia. Seria mais simples do que conviver com o peso que nunca se dissipa.

O copo pesa na minha mão. Sempre pesa.

Cada gole me leva de volta ao mesmo ponto.

A mesma memória.

O mesmo erro.

Quel giorno maledetto.

Fecho os olhos por um instante, mas o castigo vem imediato. Vejo o branco excessivo do quarto de hospital. O som mecânico das máquinas. O silêncio que antecede o fim. O corpo dela imóvel demais para alguém que sempre foi fogo.

Luccia.

Minha esposa.

A única mulher que ousou me amar sem tentar me mudar. A única que entendeu o preço de caminhar ao lado de um homem como eu.

O copo encontra a mesa com força controlada. O líquido treme, mas não transborda. Nunca transborda. Controle não é opção — é sobrevivência.

Sou Matteo Mancini.

Dom da Camorra.

O homem que governa Nápoles sem precisar aparecer.

Meu nome fecha portas. Cala vozes. Faz homens armados baixarem os olhos. Sou o medo que se aprende cedo demais neste mundo.

E, ainda assim, nada me apavora tanto quanto aquela lembrança.

Levanto-me e caminho até a janela. A cidade se estende abaixo, viva, desorganizada, indomável. Nápoles não pede permissão para existir. Ela apenas existe. Como eu.

— Basta — murmuro.

Mentira.

Ela morreu me dando o sétimo filho. Lutou até o fim, mesmo sabendo que o corpo já não obedecia. Câncer. Dor. Silêncio. E, ainda assim, insistiu em viver o suficiente para colocar Sophia Victoria em meus braços.

Sete filhos.

Sete razões para eu nunca fraquejar.

Um novo amor?

Jamais.

Homens como eu não sobrevivem a isso duas vezes. Amor não é virtude — é brecha. E brechas matam.

No meu mundo, sentimentos custam caro demais.

Na mia famiglia, fraqueza não é tolerada.

Eles precisam aprender cedo. Ser fortes. Alertas. Preparados para um mundo que não perdoa. O amor é uma história bonita contada para quem nunca teve que enterrar alguém antes da hora.

E então, contra a minha vontade, um nome se impõe.

Giulia Moretti.

Cerco os olhos, irritado comigo mesmo. Bebo mais um gole, agora sem saborear. Ela não deveria ocupar espaço algum na minha mente. Não passou de uma entrevista. Uma necessidade funcional.

Ainda assim, permanece.

Doce demais para esta casa.

Orgulhosa demais para abaixar a cabeça.

Inteligente demais para fingir ignorância.

Ela não desviou o olhar. Não quando testei. Não quando pressionei. Não quando deixei claro quem manda sob este teto.

Non è sottomessa.

Isso deveria ter sido motivo suficiente para dispensá-la. Sempre foi. Pessoas que não se curvam acabam quebrando.

Mas ela não se quebrou.

Falou das crianças como se fossem… crianças. Não herdeiros. Não fardos. Não extensões do meu nome.

Pessoas.

A ideia me irritou mais do que qualquer afronta direta.

Abro a gaveta e pego um cigarro. Acendo sem pensar, ignorando a promessa antiga de não fumar ali. A fumaça sobe lenta, preenchendo o espaço como um véu.

Sete filhos.

Marco, que carrega responsabilidade demais para alguém tão jovem.

Isabella, silenciosa, observando tudo como se o mundo fosse uma equação mal resolvida.

Dante, desafio contido no olhar — igual a mim.

Francesca, ainda acreditando em bondade.

Leonardo, introspectivo demais para sua idade.

Tommaso, inquieto, curioso, perigoso.

E Sophia… pequena demais para entender por que nunca mais sentirá o cheiro da mãe.

Eles não precisam de carinho.

Precisam de estrutura.

E, ainda assim, a voz de Giulia insiste na minha mente:

— Crianças refletem o ambiente em que vivem.

Solto uma risada baixa, amarga.

— Sciocchezze.

Mentira.

Eles refletem quem eu sou.

E isso me incomoda mais do que qualquer inimigo.

Apago o cigarro com força excessiva e passo a mão pelo rosto. O cansaço pesa. Um cansaço antigo, que não vem do corpo.

Ela mostrou a foto da mãe.

Frágil. Doente. Dependente.

Não foi a doença que me atingiu — já vi morte demais para isso —, mas a forma como ela se expôs sem implorar. Sem se curvar.

— Qualquer coisa honesta para mantê-la viva.

Honra.

Algo raro demais para ser ignorado.

Volto a olhar a cidade pela janela.

Eu deveria afastá-la.

Deveria protegê-la do meu mundo.

Mas não faço.

Porque controle não é apenas afastar o perigo.

É decidir exatamente onde ele fica.

E Giulia Moretti…

eu quero sob meus olhos.

Amanhã ela conhecerá meus filhos.

E eu estarei observando.

Porque tudo o que entra no meu mundo…

ou se curva.

Ou quebra.

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