MAYAO sol da tarde derramava-se sobre o pequeno parque do bairro, tingindo as folhas das árvores escassas de um verde mais vibrante. Do meu lugar na varanda minúscula – uma sacada de concreto com espaço para duas pessoas se espremerem –, eu observava as crianças brincando. Seus gritos chegavam abafados, um ruído de vida normal, mundano, que tentava, sem sucesso, afogar o turbilhão dentro de mim.Na minha mão, uma taça de vinho tinto barato. Não era pelo gosto, que era ácido e simples, mas pelo ritual. Era meu dia de folga, uma conquista suada no inferno organizado do 'Le Ciel'. Um dia para não pensar em alinhamentos perfeitos, em chefes gritões, em olhares de desdém. Ou pelo menos, era para ser.A semana fora intensa. Os músculos doiam de ficar em pé por horas, os dedos estavam calejados das facas, a mente exausta da concentração constante. Mas o cansaço físico era bem-vindo. Era concreto. Era meu. Diferente do outro cansaço, aquele que vinha da guerra interna, da decisão que tomara
Leer más