KAELEN O interior do carro humano exalava um cheiro residual de plástico novo e ar condicionado barato, um odor sintético que ofendia meus sentidos refinados. Era um veículo comum, um sedã elétrico de cor neutra, projetado para passar despercebido. Eu, Kaelen Aurelius, sentado no banco do passageiro de tal máquina, em um bairro qualquer da Baixa Nova Iorque, era a imagem definitiva do absurdo. Jamais imaginei que me sujeitaria a isso. Nosso povo aperfeiçoou a mobilidade urbana, limpamos o ar, e aqui estava eu, voluntariamente confinado em uma casca de metal medíocre, porque era o disfarce necessário.A razão do meu desconforto físico, no entanto, era ofuscada por um turbilhão interno muito mais perturbador. Dois metros à minha frente, erguia-se o prédio de apartamentos. Um bloco de concreto de dez andares, nem feio nem bonito, apenas existente. E dentro dele, no décimo andar, estava a razão pela qual minha lógica estava em frangalhos.Maya Collins.Haviam-se passado duas semanas desd
Ler mais