Mundo ficciónIniciar sesión
Andrew
Eu olhava através da parede de vidro do meu novo apartamento. Adorava a vista daquela cidade e entendia porque meu pai se apaixonou por ela. Com vinte e cinco anos, eu podia ser considerado o maior empresário da atualidade. Fiz minha fortuna a partir de um dinheiro maldito, me formei, era um enólogo perfeito e tinha um plano traçado para me vingar do que vivi. Fui criado em Berkeley. Vinha de uma família humilde, mas feliz. Era filho único de Samantha e Joseph Johnson, os dois profissionais de um hotel praieiro de grande porte. Em Berkeley, o turismo gerava a economia da cidade, principalmente para conhecer as praias. Eu fui criado desde muito pequeno, passando de mão em mão pelos funcionários do hotel onde minha mãe era recepcionista noturna e meu pai, maître no restaurante. Vivíamos em um chalé atrás do hotel, fazíamos nossas refeições no restaurante do hotel com os funcionários dos dois turnos. A vida era humilde mas confortável e meu pai deixava minha mãe no serviço e ia para universidade. Ele era muito inteligente e tinha um sonho. Quando se formou, eu já tinha sete anos e uma vasta lembrança de amor e cumplicidade. Meu pai brincava comigo de aviãozinho pelas praias, minha mãe quando estava junto, sorria muito e seus olhos brilhavam. Um ano depois, meu pai teve uma ideia brilhante e trabalhou para desenvolvê-la. Chegou a hora de vender, e precisou viajar em suas férias, para Napa. Ele teria um encontro com um empresário de um vinhedo para apresentar sua ideia. Quando voltou, estava empolgado e alegre. Dizia que deixou o projeto para o Beringer estudar e o novo encontro seria dali a quinze dias. Se conseguisse fechar negócio, queria comprar uma casinha naquela cidade linda. Já tinha pesquisado. O custo de vida ali era bem mais barato e a cidade era muito menor, o que me traria melhor qualidade de vida. A empolgação dele era contagiante, só se falava disso em casa e nos projetos para a mudança, e a vida na nova cidade. Mas quando ele voltou do segundo encontro, estava transtornado. Nada mais foi como antes. Minha mãe não sorria mais, eles brigavam, e meu pai veio dormir comigo em meu quarto. Ninguém falava mais na vida nova e os Beringer viraram assunto proibido em casa. Eu tinha medo de que meus pais se divorciassem. Mas rapidamente, tudo começou a se ajeitar, pois eles se amavam muito e a compreensão vinha. Meu pai voltou a dormir com minha mãe e timidamente, ela voltou a sorrir. Até uns três meses depois um carro muito chique encostar na porta do chalé, e um senhor muito distinto saltar procurando pelo meu pai. Ele entrou e eu achei que a conversa estava demorando e fui espiar. Foi quando vi o homem muito nervoso, jogando um pacote pardo em meu pai, e minha mãe chorando silenciosamente. O homem saiu e eu ouvi minha mãe falando para meu pai: — Suporto tudo, mas um filho não. Eu quero o divórcio. Transtornado, meu pai saiu em direção a praia e eu fui atrás. Sentei ao lado dele na areia e então meu pai começou a falar: — Vou te ensinar duas lições muito importantes com a história que vou contar para você agora. A primeira, é nunca aceitar nada que ninguém te ofereça. A segunda, não transar sem camisinha, porque filho não é algo que você faça e deixe jogado pelo mundo. Eu só ouvia e assentia. Não estava entendendo a metade do que ele estava falando, até ele contar: — Na segunda vez que fui para Napa, o senhor Beringer precisou se ausentar e me deixou aguardando por ele em sua casa. A mulher dele, louca, tentou me seduzir e eu disse que era casado e não traía, e ela deveria fazer o mesmo. Ela me disse que só queria tomar um vinho comigo e se eu pudesse ouvi-la, já ajudava. Aceitei, não tinha para onde correr mesmo. Ela me serviu o vinho e começou a contar que era casada de aparências há quase um ano, que o marido não a tocava porque era apaixonado em um fantasma e ela estava fadada a viver um casamento sem sexo e criar a filha dele. Para mim, aquela era uma conversa de malucos e eu queria ir embora. Mas comecei a sentir minha cabeça pesar e meu corpo esquentar. Sua mãe e eu vimos muito o golpe do “Acorda, Cinderela!” ser usado no hotel. Oportunistas aplicavam no homem para ele ficar doido e fazer sexo com elas, normalmente sem preservativos, e depois ela dar o golpe da barriga. Mas eu nunca pensei que aquela diaba ia me drogar, e por fim, acabou que o marido chegou com a menina pequena nos braços, e me pegou refastelado com a mulher dele. Eu voltei, contei pra sua mãe e foi muito difícil convencê-la de que não foi uma traição, e que eu não tive culpa. Quando a gente estava começando a se entender, acontece isso. Esse homem vem aqui me procurar dizendo que aquela louca está grávida de mim, que ele vai assumir e que eu lhe ensinei que tem uma mulher boa em casa, e pra nunca mais chegar perto deles. Agora, não sei como vou viver sem a sua mãe, com você longe e um filho perdido no mundo. — Tudo vai se ajeitar, pai. Esfria a cabeça e vai conversar com a mamãe. — Está certo. Vou esfriar a cabeça. Volta pra casa e fica com sua mãe. No auge dos meus nove anos, vi meu pai entrar no mar e não obedeci o que ele havia me pedido. Fiquei esperando-o sair para voltarmos juntos. Mas ele não voltou. Ele nadou para o mais fundo que conseguiu e três dias depois, o mar o devolveu em uma praia longe de casa. Fiquei amargurado, mas a minha mãe não me deixou sofrer muito tempo. Disse que me criaria para ser o agente da vingança dela. E o monte de dinheiro que Beringer jogou em meu pai, é que ia pagar por isso. Cresci, com minha mãe me treinando para ser o mais elegante e sofisticado possível, estudei, me empenhei, usei o dinheiro para fazer o projeto do meu pai dar certo e aos vinte e cinco anos, já era um bilionário. Sempre tive muitas mulheres, mas não me apegava a nenhuma. Tinha uma missão: destruir o homem que humilhou meu pai a ponto dele se matar, e a mulher que o drogou e obrigou a transar com ela e engravidar. Minha mãe monitorou a vida dos Beringer desde aquele dia, e eu sabia que tinha uma irmã. Apenas ela escaparia da minha ira. Nem a outra filha, a que financiava o casamento perfeito dele, seria poupada. E era nisso que eu pensava enquanto olhava a bela cidade que meu pai sonhou em morar um dia…






