Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV JADE:
O vinho, o ambiente, a forma como ele me olha – tudo se mistura de um jeito perigoso, dissolvendo certezas que sempre foram sólidas dentro de mim.
Pensamentos que nunca deveriam existir começam a surgir.
Sentimentos que eu deveria rejeitar... se acomodam.
Não sei dizer se o que sinto é medo, ou vontade de parar de fugir. Porque a conexão entre nós, por mais errada que seja, já deixou de ser apenas um acordo. E isso é exatamente o que mais me assusta.
Gustavo não aperta minha mão, não a prende, não me força a nada – e talvez seja exatamente isso que torna tudo ainda mais perigoso. Ele não invade, ele ocupa. Com calma, com controle, com a certeza de que, cedo ou tarde, estarei onde ele quer que eu esteja.
O vinho aquece minha garganta de forma lenta, quase traiçoeira, como se fosse dissolvendo as barreiras que levei anos construindo para me manter intacta, protegida, distante de qualquer coisa que pudesse me desestabilizar. E ainda assim, ali, sentada diante dele, com sua mão sobre a minha, firme, quente, segura demais para alguém que deveria ser apenas meu chefe, sinto algo ceder dentro de mim.
– Você está pensando demais – ele comenta, a voz baixa, quase distraída, mas seus olhos permanecem fixos nos meus, atentos demais para alguém que finge desinteresse.
Engulo em seco, tentando recuperar algum tipo de controle.
– Eu sempre penso demais.
– Eu percebi – há um leve humor em sua voz, mas não chega a ser uma provocação. É observação. – É assim que você sobrevive, não é?
A pergunta não deveria soar íntima. Não deveria atravessar minhas defesas com tanta facilidade. Mas atravessa.
Desvio o olhar para o prato, já quase intocado, embora eu tivesse gostado tanto da comida. De repente, tudo parece secundário. O restaurante, a vista, o luxo – tudo perde importância diante da forma como ele me enxerga.
– Eu faço o que preciso – respondo, mais firme do que me sinto.
Ele não insiste. Não imediatamente.
Gustavo retira a mão da minha com a mesma naturalidade com que a colocou ali, como se nunca tivesse significado nada, mas o calor permanece, fantasma, queimando minha pele.
– E aceitar ajuda também pode ser necessário – ele diz, apoiando-se levemente na cadeira, analisando minha reação. – Não é fraqueza, Jade.
Minha respiração falha por um segundo.
Sempre existe um preço.
– Depende de quem oferece – retruco, finalmente voltando a encará-lo. – E do que essa pessoa quer em troca.
Um silêncio se instala entre nós, denso, carregado de significados que nenhum dos dois verbaliza completamente.
O canto de sua boca se ergue em um sorriso mínimo, quase imperceptível, mas seus olhos... seus olhos escurecem.
– Eu já fui bastante claro sobre o que quero.
Meu coração dispara.
Claro demais.
Perigoso demais.
O pedido de casamento deixa de ser uma lembrança absurda e distante e volta a se materializar entre nós, ocupando espaço, pressionando, exigindo uma resposta que continuo evitando dar.
– Um casamento – digo, devagar, como se precisasse ouvir em voz alta para acreditar. – Um contrato.
– Um acordo – ele corrige, sem hesitar.
– Um acordo que resolve seus problemas – completo.
– E os seus – sua resposta vem rápida, precisa, calculada.
A segurança em sua voz me irrita mais do que deveria.
– Você não sabe quais são os meus problemas.
– Sei o suficiente.
Meu estômago se contrai. Sim, ele sabe.
Sérgio.
A casa.
O medo constante.
A necessidade de sair antes que seja tarde demais.
– Não fale sobre o que não entende – minha voz sai mais baixa, mais dura.
Gustavo não recua.
Ao contrário, inclina-se levemente sobre a mesa, diminuindo ainda mais a distância entre nós.
– Eu entendo perfeitamente o que é estar preso em uma situação que não pode controlar – diz, em um tom mais sério, mais real do que qualquer coisa que tenha dito até agora. – A diferença é que eu encontrei uma forma de sair.
Minha garganta seca.
– E acha que eu devo aceitar a sua?
– Eu sei que deveria.
A arrogância volta.
O controle.
A certeza irritante de que ele está sempre dois passos à frente.
– Você tem muita certeza de tudo – murmuro.
– Não de tudo – ele responde, finalmente recuando, mas sem desviar o olhar. – Mas de você, eu tenho.
Meu coração falha uma batida. E isso é pior do que qualquer proposta, qualquer pressão, qualquer plano. Porque não soa como estratégia, soa como convicção.
E convicção é muito mais difícil de combater.
Desvio o olhar, buscando qualquer coisa que me ajude a respirar novamente, a recuperar o eixo, a lembrar quem eu sou fora daquela mesa, fora daquele momento, fora dele.
– Eu preciso ir – digo, de repente, mesmo sem saber exatamente se quero.
Mas sei que preciso.
Gustavo me observa por um longo segundo, como se avaliasse não apenas minhas palavras, mas tudo o que ficou por trás delas.
Então, apenas assente.
– Eu te levo.
Acordo com uma dor de cabeça latejante, como se cada pensamento viesse acompanhado de um peso extra, e a primeira coisa que percebo é que aquele não é o meu quarto. O teto é alto demais, claro demais, organizado demais. Não há o cheiro abafado da casa onde moro, nem o ranger familiar da mobília antiga. Há silêncio. Um silêncio limpo, seguro demais para ser o meu.
Meu corpo enrijece lentamente.
Estou vestindo apenas uma camiseta larga – masculina – e minha calcinha.
Meu coração dispara.
Forço a memória, mas tudo o que encontro são fragmentos desconexos: o restaurante, o vinho, o calor, o olhar dele... e então, nada.
Um vazio.
Falando no diabo.
A porta ao fundo do quarto se abre com um som suave, e meu corpo inteiro reage antes mesmo que eu tenha tempo de pensar. Gustavo surge do banheiro, a toalha presa baixa demais em sua cintura, deixando à mostra um corpo musculoso ainda úmido, delineado pelas gotas de água que escorrem lentamente por sua pele. Os cabelos loiros estão molhados, levemente desalinhados, e há um rubor discreto em seu rosto, resquício do banho quente.







