Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV JADE:
Chegamos à loja e, como esperado, a presença de Gustavo altera completamente o ambiente. As funcionárias se aproximam quase de imediato, como se gravitassem ao redor dele, atraídas não apenas pelo cargo que ocupa, mas pela segurança que carrega no corpo, no olhar, na forma como simplesmente existe no espaço.
– Em que posso ajudá-lo, senhor Miller? – uma delas pergunta, solícita.
– Traga os vestidos mais bonitos que tiver.
– Qual o tamanho?
Sinto o peso do olhar dele antes mesmo de levantar os olhos. É lento, calculado, quase clínico – percorre meu corpo como se estivesse analisando um projeto, uma peça em construção, cada detalhe sendo avaliado com precisão irritante.
– Eu diria PP por seu tamanho e pela cintura... – ele inclina levemente a cabeça – mas duvido que caiba em seu quadril ou seios.
O sorriso que acompanha a frase é provocativo, seguro demais de si.
O calor sobe pelo meu rosto instantaneamente.
– O P está ótimo – o interrompo, antes que ele continue, tentando recuperar o mínimo de dignidade que ainda me resta.
As funcionárias se apressam, trazendo opções que jamais estariam ao meu alcance em qualquer outro cenário. Tecidos impecáveis, cortes perfeitos, peças que parecem ter sido feitas para serem admiradas, não apenas usadas.
Observo cada uma com cuidado, mas é impossível não ser puxada pelo vestido branco.
Ele não é chamativo, e talvez seja exatamente por isso que me prende. Elegante, estruturado, delicado na medida certa. O tipo de peça que não grita, mas domina o ambiente ainda assim.
Quando saio do provador, sinto o olhar dele antes mesmo de vê-lo.
– Está bonita – Gustavo diz.
Direto. Mas não neutro.
– Falta apenas um sapato, para combinar.
Ele se afasta por um instante, caminhando até as prateleiras com a segurança de quem não precisa pensar muito para acertar. Retorna com um par de scarpins brancos e, ao me entregar, seus dedos roçam os meus por um segundo a mais do que o necessário.
– Agora sim... perfeita.
A palavra paira entre nós, carregada de um significado que vai além da roupa.
– Os sapatos são seu número?
– Sim – respondo em um quase sussurro, ainda surpresa com a facilidade com que ele parece me ler.
– Ótimo.
Tudo nele soa definitivo. Sem margem para erro. Sem espaço para dúvida.
– Obrigado pelo atendimento – ele diz à funcionária. – Não esqueça de registrar em minha conta para ganhar a comissão.
– Sim, senhor Miller.
– Vamos?
Assinto, ainda tentando entender por que tudo aquilo parece mais intenso do que deveria.
O restaurante para onde ele me leva não é apenas bonito, é de outro mundo. O tipo de lugar que não foi feito para pessoas como eu, e isso é evidente em cada detalhe: na iluminação suave, nos arranjos perfeitamente posicionados, no silêncio elegante que paira entre as mesas.
A varanda, coberta por vidro, lembra uma estufa. Flores por todos os lados, como se a natureza tivesse sido domesticada para servir de cenário.
– É impressionante como você se destaca em qualquer ambiente... – ele diz, me observando com atenção demais – está deslumbrante, Jade.
Há algo na forma como ele fala meu nome.
Algo que prende.
– Obrigada por me trazer aqui, é lindo.
E é. Mas não é o que mais me desestabiliza.
– Boa noite, sejam bem-vindos ao Clair de Lune. Gostariam de fazer o pedido?
O menu em minhas mãos parece um idioma estrangeiro.
– Não sei o que pedir – admito, sem tentar esconder.
– Se me permite sugerir, o prato da noite é filé au poivre.
Filé eu entendo. O resto... não importa.
– Parece ótimo. Seguirei a sugestão.
Quando ergo o olhar, encontro o sorriso dele. Aquele sorriso. Como se soubesse exatamente o que acabei de fazer.
– E para o senhor?
– O bisque de camarão. Quanto aos vinhos, peça a sugestão do chefe.
A garçonete se retira, e o silêncio que fica não é desconfortável. É... carregado.
– O que foi? – pergunto, incomodada com o olhar dele.
– Nada.
Mas claramente não é nada.
E quando o prato chega, entendo.
– Você sabia, não é?
– O quê?
– Que meu prato era um bife com batata frita.
Ele não se contém. O riso vem baixo, controlado.
– Não estou zombando de você – diz, embora esteja claramente se divertindo. – Mas não acha engraçado? Veio a um lugar como este e se deixou enganar pela pronúncia francesa.
Inclino levemente a cabeça.
– Poderia ter me avisado.
– Poderia ter pedido ajuda – ele rebate, sem perder o tom leve. – Esse é o preço por ser orgulhosa.
Reviro os olhos, mas não discuto.
– Tenho certeza de que o sabor está divino.
E está. Mais do que eu esperava. Mais do que qualquer coisa que já provei. Tão bom que deixo escapar um som de satisfação. Mas não dura, porque ele continua ali. Atento demais.
– Nunca comeu filé mignon?
A pergunta é simples.
– Não.
E isso diz mais sobre mim do que eu gostaria.
A cada momento que penso que ele voltará a falar, dou um gole em minha taça, buscando evitá-lo.
Algumas taças de vinho depois, tudo fica mais leve. Mais perigoso.
– Sabe... – começo, sem pensar muito – minha mãe ficaria feliz se eu contasse sobre hoje. Ela estaria orgulhosa.
O silêncio que se segue é diferente.
Mais suave.
– Sinto muito – ele diz, e dessa vez não há jogo em sua voz. – Você merece uma vida melhor.
Meu peito aperta.
– Sabe que pode contar comigo, não é?
Levanto os olhos devagar.
– Posso?
A pergunta sai menor do que eu gostaria, vulnerável. Verdadeira.
– Pode.
Como se fosse fácil.
Como se não houvesse consequências.
– Posso oferecer proteção, Jade. Você não precisa continuar naquele lugar.
Meu coração dispara. Ele não está falando apenas de um convite, está falando de uma saída. E saídas sempre cobram algo em troca.
– Não posso – respondo, quase no automático. – Sinto muito por enchê-lo com meus problemas.
– Não me deve desculpas.
A mão dele encontra a minha novamente e dessa vez, eu não recuo. O toque não é invasivo. Não é exigente. Mas é firme... confortável.







