Capítulo 5

O cheiro de asfalto molhado e poluição já não me causava náuseas. Quatro anos vivendo na cidade grande haviam anestesiado meus sentidos lupinos o suficiente para que eu me misturasse à multidão. Segurei as alças da mochila com mais força e apressei o passo em direção ao apartamento da minha tia, repassando mentalmente a matéria da aula de economia.

O vazio no meu peito ainda estava lá. Uma cratera invisível e fria, onde outrora a corda dourada do vínculo de companheiros havia brilhado.

Na maior parte dos dias, eu conseguia ignorar o buraco. O tempo não curou a ferida, mas me ensinou a conviver com a dor. Dentro da minha mente, meu lobo se aninhava no escuro. Ela era uma criatura traumatizada, que raramente tomava o controle, mas que roçava a cabeça na minha consciência de vez em quando, oferecendo uma companhia quase fraternal. Nós éramos duas sobreviventes.

Abri a porta do apartamento e o silêncio pesado me atingiu antes mesmo que eu tirasse os sapatos.

Minha tia estava parada no centro da sala miúda. O telefone sem fio pendia frouxo em sua mão esquerda. O rosto dela estava pálido como cera, os olhos arregalados, fixos em mim.

— O que aconteceu? — perguntei, deixando a mochila escorregar para o chão.

— Era o seu pai — a voz dela tremia. — A matilha sofreu uma emboscada perto da fronteira norte. Uma invasão de um grupo inimigo.

O ar sumiu dos meus pulmões. O instinto de proteção rugiu fraco dentro de mim.

— Meu pai está bem? E a minha mãe?

— Eles estão bem. Mas... o Alpha foi morto na batalha. Ele e o filho.

"O filho."

As duas palavras bateram em mim com a força de um caminhão. Uma dor lancinante cortou meu estômago. Minhas pernas vacilaram, e precisei me apoiar na borda do sofá.

"Henry está morto", meu cérebro gritou, o pânico me cegando por um milésimo de segundo.

Mas a lógica interveio, fria e implacável. Henry não lutava mais na linha de frente. Henry não morava mais lá. O filho que cavalgava ao lado do pai para defender o território, o filho leal e herdeiro legítimo da Matilha Vento do Norte, era outro.

— Harry — sussurrei, levando a mão à boca enquanto a primeira lágrima escorria. — Harry está morto.

A viagem de volta às terras da matilha foi um borrão letárgico. A cada quilômetro que o ônibus avançava em direção às montanhas, o frio do norte parecia se infiltrar mais fundo nos meus ossos. As notícias, no entanto, haviam chegado tarde demais. A tradição exigia que os líderes tombados fossem devolvidos à terra na primeira luz do amanhecer. Eu havia perdido o enterro.

Quando a tarde cinzenta começou a cair, eu finalmente alcancei o cemitério da matilha, no topo da colina. O local estava vazio, marcado apenas pelas coroas de flores frescas e pelo cheiro de terra remexida.

Ajoelhei-me na neve rala diante da lápide de granito que carregava o nome dele.

— Você prometeu que viria me visitar na cidade nas suas próximas férias — murmurei, a voz embargada, passando os dedos trêmulos sobre as letras cravadas na pedra.

O vento sibilou por entre os pinheiros, parecendo carregar a ausência dele.

— Eu senti tanto a sua falta, Harry. — Puxei o ar com dificuldade, tentando conter os soluços. — Aquelas mensagens que você me mandava de madrugada, quando o dever de futuro Alpha não te deixava dormir... elas foram a única coisa que me manteve inteira no começo do meu exílio. Saber que você estava do outro lado, torcendo por mim... como eu vou continuar agora?

Chorei até meus olhos queimarem, despejando quatro anos de saudade contida sobre a terra fria. Despedir-me do garoto que eu considerava um irmão era como perder mais um pedaço da minha alma.

Limpei o rosto nas costas das mãos e respirei fundo, absorvendo a realidade daquela perda. Apoiei as mãos nos joelhos e me levantei devagar. O som de passos esmagando a neve soou logo atrás de mim.

Virei-me rapidamente. Meu pai estava parado a poucos metros de distância, vestido com roupas escuras de luto, o rosto envelhecido pela tragédia.

— Eu sabia que você viria direto para cá — ele disse, a voz cansada, mas os olhos carregavam um alerta elétrico.

— Eu precisava me despedir, pai.

Ele encurtou a distância entre nós e segurou meus braços com força, olhando ao redor como se esperasse que fôssemos atacados a qualquer instante.

— A sua despedida acabou, Elise. Você precisa dar meia-volta e deixar as terras da matilha agora mesmo.

— O quê? Por quê? Eu acabei de chegar! — Meus olhos marejaram de novo, diante da perspectiva de que meu pai, meu tão amado pai estava me mandando embora mais uma vez. — Quero ver a minha mãe. A matilha está em guerra, vocês precisam de ajuda!

— Você não entende — meu pai cortou, o tom de voz perigosamente baixo. — O sangue do Alpha chamou o último herdeiro vivo de volta para a linha de sucessão.

Um arrepio subiu pela minha espinha. A ficha caiu.

— Ele está chegando, Elise. Estávamos esperando ele na divisa — meu pai apertou meu braço, me puxando na direção da saída. — Henry está voltando para assumir o posto de Alpha. E ele não pode te encontrar aqui.

O som de um motor potente rugindo pelas estradas de terra na base da colina ecoou pelo vale, calando os pássaros e anunciando que o nosso tempo havia acabado.

E meu pai tinha razão. Se a matilha seria, mais uma vez, a casa de Henry... Então ela não poderia ser a minha casa.

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