Capítulo 9

A visita inesperada dos meus pais transformou o pequeno apartamento da minha tia. O cheiro familiar de terra úmida, pinheiros e lareira que eles traziam nas roupas grossas quase me derrubou de nostalgia. Era como ter um pedaço do meu lar dentro da cidade de concreto.

— A guerra está praticamente no fim, querida — minha mãe disse, segurando minha mão sobre a mesa de centro. Seu sorriso era de puro alívio. — O Alpha Henry encurralou as últimas tropas inimigas no vale. Ele está prestes a declarar vitória oficial. A paz finalmente vai reinar de novo.

O nome bateu nos meus ouvidos, mas o baque devastador não veio.

“Henry”, repeti mentalmente, testando a palavra na minha própria consciência.

Nenhuma dor lancinante. Nenhuma falta de ar. Apenas o eco distante de uma história que parecia ter acontecido com outra pessoa, em outra vida.

— Fico feliz que a matilha estará segura — respondi, mantendo a voz nivelada e sincera. — Vocês merecem um pouco de paz depois de tudo.

Minha tia, percebendo a leve tensão no ar, levantou-se rapidamente e chamou minha mãe para a cozinha sob o pretexto de conferir a chaleira, deixando-me a sós com o meu pai. Ele me avaliou em silêncio por um longo minuto.

— Você não piscou quando ela falou o nome dele — ele pontuou, a voz baixa, cruzando os braços.

— E eu deveria? — Encostei as costas no sofá. — Eu não me importo mais, pai. É indiferente.

Ele assentiu devagar, os olhos perscrutadores do Beta buscando qualquer rachadura na minha armadura.

— Você está bem, Elise? Digo, de verdade.

Suspirei, deixando a fachada de garota da cidade cair por um instante.

— Eu sobrevivo. Construí uma rotina aqui. Mas... confesso que sinto falta de casa.

— Do nosso chalé?

— De tudo. — Olhei para as minhas próprias mãos, lembrando da sensação da terra sob os meus pés descalços. — Sinto falta das florestas de inverno, das pessoas da nossa vila. Sinto falta da neve e das histórias dos anciões. — Engoli o nó que se formou na garganta. — Sinto falta do meu lobo, pai. Ela despertou há cinco anos e logo foi trancafiada por causa do trauma. Quase nunca conseguimos correr juntas. Eu devo anos de liberdade a ela.

O olhar endurecido do meu pai suavizou de uma maneira que eu raramente via. Ele descruzou os braços e se inclinou para frente.

— Já se passaram cinco longos anos desde aquela noite, Elise. Nesse momento de reconstrução, a matilha precisa de pessoas dispostas a reerguer tudo o que foi destruído. — Ele hesitou, cauteloso e escolhendo cada palavra com precisão cirúrgica. — Você acha que está pronta para voltar?

Meu coração deu um pulo inesperado no peito.

— Voltar?

— O Alpha passa a maior parte do tempo nas tendas de comando e focado na reestruturação militar e política da matilha. Ele raramente pisa na vila principal, a não ser para reuniões de conselho. Você poderia viver na nossa casa. Ninguém ousaria incomodá-la. Mas eu só aceito isso se o seu espírito estiver verdadeiramente em paz.

— Eu... eu vou pensar no assunto — prometi, a voz saindo um pouco mais fraca do que eu gostaria.

Horas depois, meus pais enfrentaram a longa viagem de volta à matilha. O apartamento da minha tia mergulhou no silêncio típico da madrugada urbana, com o som distante de sirenes cortando a noite. Mas o sono não veio.

Deitada na minha cama estreita, encarei o teto escuro e deixei as memórias inundarem a minha mente. Lembrei das tardes de infância correndo entre as árvores com Harry. Lembrei das risadas e do sentimento absoluto de pertencimento que só o sangue de lobo compreendia. Eu sentia falta do meu lar com uma intensidade dolorosa.

Toquei o centro do meu peito, logo acima do coração. Aquele vazio esmagador, que quase me levou à loucura e à morte no passado, estava selado. Era apenas uma cicatriz antiga. Eu tinha sobrevivido à pior dor que nossa espécie poderia enfrentar. Ouvir o nome do Alpha hoje havia comprovado isso.

Não havia mais paixão clandestina. Não havia dor sufocante. Havia apenas uma sobrevivente.

“Eu não posso deixar que o fantasma de um bastardo rejeitado me mantenha exilada do meu próprio povo para sempre.”

Sentei na cama, a decisão cristalizando-se na minha mente com clareza. Pela primeira vez em meia década, senti meu lobo se mexer de felicidade nas profundezas da minha consciência. Ela soltou um ruído baixo, concordando com a minha decisão. Nós queríamos voltar para casa.

Levantei de supetão, peguei a velha mala no topo do guarda-roupa e comecei a jogar minhas roupas de frio dentro dela. Eu estava voltando.

Eu só não imaginava que, nas sombras da sala do conselho da matilha, o meu pai em breve assinaria um documento com o próprio sangue, selando um destino para mim que seria infinitamente mais perigoso do que a rejeição.

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