Capítulo 10

A guerra havia acabado. O sangue inimigo finalmente parou de manchar as nossas fronteiras e o tratado de paz foi selado sob a luz da lua.

Quando o Beta retornou da sua viagem à cidade humana no dia seguinte, a primeira coisa que me pediu na sala de reuniões foi um evento.

— Um baile de confraternização, Alpha — ele sugeriu, as mãos calejadas apoiadas na grande mesa de carvalho. — Nosso povo sobreviveu a um ano de trevas. Eles precisam de música. Precisam celebrar a vida para lembrar pelo que estávamos lutando.

Eu o encarei por um longo momento. Durante os últimos doze meses, nas trincheiras de gelo e nas tendas de comando, o pai de Elise havia se tornado a minha âncora. Ele guiou minha fúria recém-descoberta e moldou o líder que a matilha precisava. O respeito que criamos nas linhas de frente forjou um laço de parceria real entre nós. E ele sabia muito bem que eu ouvia cada um de seus conselhos com toda a minha atenção.

— Você tem razão — concordei, suspirando. — Faça os preparativos para amanhã à noite.

Ele assentiu, mas não recuou. O olhar do guerreiro assumiu uma frieza calculista.

— Há outro motivo, Henry. Um baile é a oportunidade perfeita para você circular. Conhecer as mulheres das famílias aliadas.

— Não temos tempo para cortejos. O pós-guerra ainda é muito frágil.

— Exatamente por isso. — Ele cruzou os braços sobre o peito largo. — A estabilidade da nossa matilha deve ser mantida a todo custo. Você precisa escolher uma parceira logo. Alguém para marcar e assumir o posto de Luna. O povo precisa se sentir seguro.

Eu sabia que ele estava certo. Meu dever agora era absoluto e deixava pouca margem para os meus próprios fantasmas.

— Eu vou encontrar alguém — me rendi.

Na noite seguinte, o grande salão da Casa do Alpha estava irreconhecível. As mesas de estratégia deram lugar a banquetes e arranjos de flores. A música preenchia o ar, misturando-se às risadas aliviadas dos membros da matilha.

Eu estava parado em um canto isolado do salão, observando os convidados girando pelo centro. Pela primeira vez em mais de um ano, percebi que estava sorrindo. Eu havia conseguido. A paz era real. Eu estava pronto para descer os degraus, escolher uma mulher de boa família, oferecer um acordo político e fechar o último buraco na nossa defesa. Um plano seguro.

E então, o ar do salão mudou.

Um aroma doce e inebriante flutuou por entre a multidão e atingiu meus pulmões como um soco. Jasmim e chuva de inverno.

Meu corpo inteiro travou. O mundo pareceu girar em câmera lenta. Meu lobo, que passara o último ano em um estado focado apenas na brutalidade da guerra, explodiu dentro da minha mente. Ele se contorcia em puro e absoluto êxtase, arranhando minhas costelas de dentro para fora.

Eu não liguei o cheiro a ela. A lógica não teve tempo de processar a informação. A única coisa que existia era a necessidade irracional, possessiva e enlouquecedora de encontrar a fonte daquele aroma.

Deixei meu posto na escada e avancei em direção à multidão. Minha respiração ficou pesada, descompassada.

— Alpha? — um dos anciões chamou, mas eu não parei.

Meus passos se tornaram urgentes. Comecei a empurrar os convidados para longe do meu caminho, ignorando os esbarrões agressivos e os sussurros de confusão pelo salão. Eu precisava chegar lá. A fera rosnava nas bordas da minha sanidade, frenética.

Parei bruscamente perto das portas do jardim.

Lá estava ela. De costas para mim. O cheiro emanava do seu corpo em ondas densas e perfeitas. Ela conversava baixinho com o Beta.

Dei mais dois passos, a atração me puxando para frente com a força de um ímã letal. O som das minhas botas fez com que ela virasse a cabeça devagar.

Meus pulmões pararam de funcionar. O impacto da revelação me deu um sobressalto físico. Os traços assustados e jovens haviam desaparecido. No lugar deles, havia uma beleza madura, inalcançável e devastadora. Os olhos azuis profundos me encararam sob a luz dos lustres. Era ela. A garota que eu havia quebrado junto com o laço que nos unia e que, agora, parecia mais uma vez intacto.

O rugido do meu lobo soterrou o resto do mundo, ensurdecedor e dominador, e a palavra rasgou a minha garganta como uma sentença definitiva:

— Minha.

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