Mundo de ficçãoIniciar sessãoOs últimos meses não haviam sido uma medida de tempo, mas um borrão contínuo de sangue, neve e o cheiro metálico da morte.
Assumir o manto do Alpha em meio a um conflito direto me arrancou qualquer possibilidade de luto. A guerra não tinha o glamour poético que os anciãos cantavam nas velhas lendas; era feita de noites sem dormir debruçado sobre mapas manchados, táticas de guerrilha nas fronteiras e conselhos de guerra que testavam a minha paciência até o limite. Cada vida perdida pesava sobre a minha marca no peito como uma bigorna em brasa. Eu lutei na linha de frente, deixando que a fúria do Vento do Norte guiasse as minhas garras, usando a violência não por prazer, mas como a única ferramenta capaz de garantir que o nosso povo tivesse um amanhã. E então, finalmente, o silêncio caiu sobre o vale. Eu estava de pé em uma elevação rochosa, respirando de forma pesada enquanto o ar gelado cortava os meus pulmões. Abaixo de nós, o que restava do último exército de invasores recuava em desordem, as bandeiras rasgadas e o espírito quebrado. A batalha havia acabado. Ouvi o som de botas pesadas esmagando a neve atrás de mim. Virei o rosto, os músculos ainda tensionados pela adrenalina, e encontrei o meu Beta. Ele parou a poucos passos de distância. A armadura de couro dele estava coberta de lama e marcas de garras, e um corte superficial sangrava acima do seu olho direito. Ele estava exausto, respirando com a mesma dificuldade que eu, mas a postura continuava inabalável. Durante todos aqueles meses no acampamento e no campo de batalha, nós havíamos trabalhado em uma sincronia militar perfeita, mas a barreira que nos separava como homens ainda estava lá. Mais fina do que antes, quase um véu ao invés de uma parede, mas presente. Sempre que os olhos dele encontravam os meus, eu ainda podia ver o eco da acusação. O lembrete fantasmagórico de que eu era o homem que quebrou a filha dele. O Beta segurava um pergaminho enrolado nas mãos enluvadas. — Um mensageiro inimigo interceptou as nossas patrulhas na fronteira leste — a voz dele saiu grave, carregando a aspereza do cansaço. — O lado opositor está recuando definitivamente. Eles solicitaram os termos para um tratado de rendição. O líder deles aceita se curvar. O impacto daquelas palavras demorou um segundo inteiro para penetrar a espessa camada de instinto predatório que dominava a minha mente. Quando o significado finalmente clareou, fechei os olhos. Os meus ombros, tensionados por meses a fio, cederam de uma só vez. Soltei o ar pela boca em um suspiro longo, trêmulo e esmagador. O peso do mundo escorregou das minhas costas, deixando para trás apenas o latejar das minhas próprias cicatrizes. Pela primeira vez desde o chamado na oficina humana, eu pude respirar aliviado. O banho de sangue havia acabado. Abri os olhos e olhei para o Beta. A expressão dura do velho guerreiro suavizou-se de uma maneira que eu nunca havia presenciado. Ele olhou para o campo de batalha, depois para mim, avaliando o sangue no meu rosto e a devoção absoluta com a qual eu havia liderado a nossa linha de frente. O fantasma de Elise ainda estava nos olhos dele — e eu sabia que sempre estaria —, mas a raiva cedeu espaço a um reconhecimento silencioso e profundo. Muito devagar, o Beta assentiu com a cabeça em minha direção e os seus lábios se curvaram em um sorriso contido, orgulhoso e genuíno. — Você conseguiu, Henry — ele murmurou, quebrando o protocolo militar e chamando-me pelo nome, o tom carregado de um respeito que dinheiro ou linhagem nenhuma poderiam comprar. — Você assumiu o manto que era seu por direito. E você protegeu esta matilha quando ela mais precisou. O dever está cumprido. Ele deu um tapinha pesado e firme no meu ombro, o toque calejado selando o encerramento do nosso luto e da nossa guerra. — Dê a ordem para que os guerreiros voltem para casa, Alpha. Agora, é a hora de celebrar a paz.






