Capítulo 4

Corri até meus pulmões queimarem e o gosto de sangue inundar a minha boca.

Deixei a floresta para trás, ignorando os galhos que rasgavam minhas roupas e a neve que congelava meus ossos. Cruzei a fronteira invisível que separava o território da Matilha Vento do Norte do mundo dos humanos. O chão de terra batida deu lugar ao asfalto rachado. As árvores imensas foram substituídas por postes de luz amarelada que piscavam de forma intermitente.

Parei em um beco escuro, apoiando as mãos nos joelhos enquanto tentava recuperar o fôlego.

A confusão nublava minha mente. Eu ofegava, tateando meu próprio peito em busca da ferida mortal. As histórias com as quais crescemos eram claras: quebrar um vínculo predestinado era uma sentença de dor física enlouquecedora. Os anciões juravam que era como ter os órgãos arrancados com as próprias mãos.

Mas meu corpo estava intacto.

Não havia dor física. Onde estava a agonia que deveria rasgar minhas veias? Onde estava a febre letal? Tudo o que eu sentia era um peso esmagador no espírito. Uma culpa ácida que corroía a minha sanidade ao lembrar do grito de Elise. Do jeito como ela despencou na varanda. Eu a havia estilhaçado.

“O que eu fiz?” O pensamento ecoou na minha mente turbulenta. “Por que não estou morrendo?”

Forcei minhas pernas a continuarem se movendo. Atravessei algumas ruas adormecidas da pequena cidade humana até chegar a uma casa modesta de tijolos à vista, no final de uma rua sem saída. A luz da varanda estava acesa.

Bati na porta de madeira com urgência.

Poucos segundos depois, a fechadura estalou. Uma mulher de cabelos escuros e mechas grisalhas, usando um roupão de lã grosso, me encarou. Os olhos dela, tão parecidos com os meus, se arregalaram em choque.

— Henry? — A voz da minha mãe falhou. — O que você está fazendo aqui? Aconteceu alguma coisa com o Alpha?

— Eu fugi, mãe — minha voz saiu como um sussurro áspero.

Ela me puxou para dentro de casa num solavanco rápido, trancando a porta logo em seguida. O ambiente cheirava a chá de camomila e poeira antiga. Era um refúgio solitário, o lugar para onde ela havia sido banida há quase vinte anos, logo após o Alpha descobrir que sua verdadeira companheira não era ela. Ela conhecia a crueldade da matilha melhor do que ninguém.

— Fugiu? — Ela me guiou até o sofá surrado da sala e me forçou a sentar. — Hoje era a véspera da consagração. Você deveria estar nas rondas. O que você fez?

— Eu a encontrei. A minha companheira.

Minha mãe paralisou, os olhos analisando cada milímetro do meu rosto pálido e suado.

— Isso é algo bom, Henry. Maravilhoso. Por que você parece que viu um fantasma?

Engoli em seco, puxando o ar com força. De novo, a imagem de Elise caída na porta de casa, gritando de dor invadiu a minha mente.

— Eu não... eu não podia. Não com ela.

Minha mãe se inclinou em minha direção, nossos rostos ficando na mesma altura.

— O que houve, Henry? Quem é a sua predestinada?

Minha voz saiu engasgada:

— Elise. A filha do Beta. Aquela que seria a Luna de Harry.

O silêncio caiu entre nós, cheio de confusão e terror. Quando minha mãe voltou a falar, sua voz estava urgente.

— E você a deixou? Henry, isso é suicídio. A rejeição mata!

— É exatamente isso que eu não entendo — eu murmurei, cravando os dedos no cabelo. — Eu proferi as palavras. Eu a rejeitei na frente da porta do Beta. O fio se rompeu, eu vi a luz se apagar nos olhos dela. Mas... olhe para mim. Eu não estou sentindo a dor física!

Ela se ajoelhou na minha frente, colocando as mãos quentes e trêmulas sobre o meu peito, bem onde meu coração batia em um ritmo humano e constante.

— Nada? Nenhuma queimação? Nenhuma febre? — ela perguntou, a voz carregada de uma cautela estranha.

— Apenas a culpa. Eu a destruí, mãe. Ela era a luz daquela matilha, a noiva do meu irmão, e eu tirei tudo dela por egoísmo. Por querer ser livre.

Minha mãe suspirou profundamente, retirando as mãos do meu peito. Ela desviou o olhar para o chão, como se estivesse montando um quebra-cabeça perigoso na própria mente.

— As palavras da rejeição vieram de onde, Henry?

— Como assim?

— Vieram da sua boca, não foi? Do seu raciocínio lógico? O seu lado humano tomou a decisão de fugir para se proteger do desprezo que sofremos lá.

— Mas o vínculo estilhaçou.

— E o seu lobo? — Ela levantou os olhos para mim, afiados e intensos. — Onde a fera está agora?

Fechei os olhos, tateando o interior da minha consciência. O espaço onde meu lobo costumava rosnar e arranhar estava envolto em uma escuridão espessa. Não havia fúria. Não havia presença.

— Silencioso — respondi, abrindo os olhos. — Trancado no fundo da minha mente. Como se estivesse em torpor.

Ela assentiu devagar.

— Então me escute bem. Fique aqui. Fique no mundo dos humanos. E, em hipótese alguma, retorne à sua forma lupina tão cedo.

— Por quê?

— Porque as leis da Deusa não falham, filho. Se a sua mente humana fez a escolha, o corpo humano suportou a quebra. Mas se você deixar a fera acordar e assumir o controle... o lobo vai cobrar a conta do vínculo que perdeu. E a dor que você não está sentindo agora vai te encontrar.

O aviso dela desceu como chumbo pelo meu estômago. Eu estava vivendo um tempo emprestado. Um erro nas engrenagens do destino.

A exaustão final me atingiu. Deitei a cabeça no encosto do sofá, observando os primeiros raios de sol invadirem a janela da sala através das frestas da cortina. O mundo começava a acordar, mas o meu parecia ter acabado para sempre.

Juntei as mãos sobre o colo e fechei os olhos.

“Deusa da Lua,” orei em silêncio, sentindo uma lágrima solitária traçar um caminho quente pela minha bochecha. “Tenha piedade da garota que eu amaldiçoei.”

Eu só podia torcer. Torcer com todas as minhas forças para que a morte de Elise não recaísse sobre as minhas mãos.

Foi então que um som cortou a calmaria da manhã. Não veio da rua, nem do rádio antigo da minha mãe. Veio de dentro da minha própria cabeça. Um choro baixo, animalesco e contínuo, que me fez prender a respiração, indicando que as correntes que prendiam o meu lado lobo estavam começando a ceder.

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