Capítulo 6

O sangue sempre cobra o seu preço. Eu estava no meio do meu turno na oficina mecânica, vivendo o meu exílio voluntário e humano, quando o chamado me atingiu.

Não foi um som, mas uma ruptura violenta na trama da minha própria existência. Meus joelhos cederam e eu caí no chão de cimento frio. Uma energia ancestral e esmagadora invadiu minhas veias, queimando como fogo. O Alpha estava morto. A linhagem exigia um sucessor.

“Harry,” pensei, o desespero fechando minha garganta.

Antes mesmo de o celular tocar no meu bolso traseiro para dar a notícia oficial, eu já sabia. Meu pai e meu irmão não existiam mais.

Lutei com todas as minhas forças contra a ideia de voltar. O mundo dos humanos era seguro. Era o único lugar onde o fantasma da minha culpa era suportável. Mas o senso de dever martelava o meu crânio com a força de uma marreta. E, para o meu terror, a fera adormecida no fundo da minha mente despertou do seu usual torpor. Meu lobo uivou. Ele arranhava as paredes da minha consciência com uma urgência e uma expectativa possessiva que eu não conseguia compreender. O poder do Alpha o havia acordado.

Em poucas horas, joguei algumas roupas em uma mochila, dei um abraço apertado e silencioso na minha mãe e peguei a estrada. Eu estava voltando para a Matilha Vento do Norte. Minha casa. Minha prisão.

A cerimônia de sucessão não teve o glamour ou a alegria que o conselho havia planejado anos atrás para Harry. Foi um rito rápido, sombrio e manchado pelo luto, realizado no grande salão militar da Casa do Alpha. Os anciões recitaram os cânticos antigos, e a marca do poder irradiou pela minha pele, pesada e implacável.

Era como uma tatuagem marcada a ferro, no meu peito, acima do coração. A marca de um líder.

— Vida longa ao Alpha Henry — os membros do conselho entoaram em uníssono, curvando as cabeças.

Não havia tempo para o luto. Imediatamente após a consagração, os mapas foram abertos sobre a grande mesa de carvalho. O cheiro de guerra impregnava a sala.

— Os invasores recuaram para o vale da Lua de Sangue — um dos anciões apontou no mapa. — Eles mataram o seu pai e o seu irmão numa emboscada, Alpha. Precisamos de uma retaliação.

— Nós vamos esmagá-los — minha voz saiu fria, carregada com a autoridade absoluta que eu jurara nunca usar. — Reúnam os guerreiros. Quero relatórios a cada hora. Estaremos em guerra antes do amanhecer.

O conselho assentiu, espalhando-se rapidamente para cumprir as ordens. Em poucos minutos, o salão esvaziou, restando apenas duas pessoas.

Eu e o Beta da matilha. O pai de Elise.

A tensão entre nós era espessa o suficiente para ser cortada com uma lâmina de prata. Ele me encarava com a postura rígida de um soldado veterano, mas os olhos carregavam o peso implacável de um pai que teve a filha destruída por mim.

Respirei fundo, tentando encontrar as palavras certas, quando o ar de repente mudou.

Um aroma fraco flutuou pelas correntes de ar do salão. Jasmim e chuva de inverno.

Meu coração deu um salto violento contra as costelas. Meu lobo se agitou, farejando o vazio com desespero. O cheiro dela.

“É apenas a culpa brincando com a sua mente,” eu disse a mim mesmo, cravando as unhas na palma da mão para conter a ilusão e manter a sanidade. Ela não estava ali. Ela estava a quilômetros de distância, no mundo dos humanos.

— Senhor — quebrei o silêncio, minha voz soando um pouco mais rouca que o normal. Dei um passo em direção a ele. — Eu sei que não tenho o direito de pedir nada.

O Beta não se moveu. Apenas continuou me analisando.

— Eu destruí a sua família — continuei, engolindo o orgulho. — A culpa pelo que fiz com Elise vai me assombrar até o meu último dia. E eu peço desculpas formalmente, não como seu Alpha, mas como o homem que causou aquela dor. No entanto, a matilha precisa de nós agora. Eu vou precisar muito do seu apoio e da sua experiência para vencer essa guerra. Não consigo liderar as tropas sozinho.

O silêncio reinou por alguns segundos agonizantes. Ele avaliou cada traço do meu rosto, medindo a minha sinceridade.

— Você tem a minha lealdade, Alpha — o Beta finalmente respondeu, a voz firme e estritamente profissional. — Eu lutarei ao seu lado e o ajudarei a guiar a Matilha Vento do Norte. Minha espada é sua.

Soltei a respiração pesada que nem percebi estar segurando.

— Obrigado.

— Mas — ele interrompeu, o tom caindo para um rosnado letal e furioso —, eu tenho uma única condição inegociável para que esse acordo funcione, Henry.

— Diga.

Os olhos do Beta brilharam com a intensidade de um lobo protegendo o próprio sangue.

— Eu exijo que você nunca mais chegue perto da minha filha.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App