Capítulo 3

A dor não era apenas física. Era um incêndio invisível que devorava minha alma de dentro para fora. Tudo havia se tornado um borrão distorcido de humilhação e agonia absoluta.

O baque do meu corpo contra o chão de madeira da varanda foi a última coisa real que senti antes que o mundo escurecesse. A partir daquele instante, o tempo perdeu o sentido.

Lembro-me vagamente de braços fortes me erguendo. O cheiro não era o de pinho e chuva. Era de terra molhada e folhas secas. Harry.

— Elise! Aguente firme — a voz dele soava desesperada, abafada pelo zumbido constante nos meus ouvidos.

"Por que ele fez isso? Por que me rejeitou?" Eu tentava gritar e exigir respostas para o céu noturno, mas apenas um soluço engasgado e o gosto de sangue escapavam pelos meus lábios.

— Eu não senti o vínculo à meia-noite... e vim te procurar — Harry sussurrava enquanto corria comigo nos braços. — Eu vi o que o meu irmão fez. O desgraçado fugiu. Eu sinto muito, Elise.

A enfermaria da matilha era um lugar frio. Durante dias, a febre me consumiu por completo. A rejeição do predestinado rasgava as conexões mágicas que ligavam meu lobo recém-desperto ao meu lado humano. Era como se tentassem arrancar uma parte do meu coração sem qualquer anestesia.

Nas raras vezes em que a neblina da dor cedia um pouco, eu escutava as vozes ao redor da minha cama.

— Os curandeiros disseram que a febre não baixa — a voz da minha mãe estava embargada pelo choro.

— Ele a rejeitou sem pensar duas vezes — meu pai rosnou baixinho, contendo a fúria letal de um Beta. — Destruiu a minha filha na frente da nossa própria casa.

— Alguma notícia das buscas?

— Nada. Henry está sumido até agora. Cruzou a fronteira leste, pelo que os rastreadores indicam. Mas se ele não voltar logo... e se ela não superar isso... ela pode morrer. O vínculo quebrado é quase sempre fatal.

"Eu vou morrer por alguém que nunca me quis." A constatação ecoava no vazio gelado que agora habitava o meu peito.

Quando finalmente consegui abrir os olhos com clareza, a luz fez minha cabeça latejar. O cheiro de ervas curativas ardia nas minhas narinas. Virei o rosto devagar e encontrei Harry sentado em uma cadeira de madeira ao lado da cama. Ele parecia exausto. O cabelo claro estava bagunçado, e havia olheiras fundas sob seus olhos castanhos.

— Você acordou — ele disse, soltando um suspiro pesado de alívio e surpresa.

— Quanto tempo? — minha voz era um chiado fraco e arranhado.

— Quase uma semana.

Fechei os olhos, absorvendo o impacto. Procurei dentro de mim o fio dourado que antes me ligava a Henry. Não estava mais lá. Havia apenas uma escuridão anestesiada.

— Elise... — Harry se inclinou para frente, segurando minha mão fria. — O conselho está em pânico. Meu pai está furioso com a traição e a fuga de Henry. Mas nós ainda podemos consertar isso.

Abri os olhos e o encarei, a confusão nublando minha mente cansada.

— O que quer dizer?

— Nosso acordo inicial. Nós ainda podemos continuar com ele. Crescemos para isso, lembra? Se eu te marcar como minha agora, a mordida de um Alpha vai substituir esse vazio. Vai te curar. Você ainda seria a minha Luna. Eu cuidaria de você, prometo.

A oferta era sincera e generosa. Era o dever chamando da maneira mais urgente possível. Mas a simples ideia de sentir os dentes de Harry no meu pescoço, de fingir e forçar um vínculo de almas que pertencia a outro homem, revirou meu estômago.

Puxei minha mão da dele, devagar e com firmeza.

— Não, Harry.

— Elise, é para o bem da matilha. E, acima de tudo, para o seu bem. Você não vai sobreviver a essa tristeza sozinha.

— Eu agradeço — sussurrei, sentindo as lágrimas quentes finalmente rolarem pelo meu rosto. — Mas eu não posso. Eu não serei a pessoa que vai ficar no meio de você e da sua verdadeira predestinada quando a hora dela chegar. Você merece o vínculo real, Harry. Não uma sobra quebrada de outra pessoa.

Ele engoliu em seco, derrotado pela verdade implacável nas minhas palavras. Antes que ele pudesse encontrar um argumento, a porta da enfermaria foi empurrada. Meu pai entrou. Ao ver que eu estava acordada e conversando, ele ignorou a hierarquia, correu até a cama e me envolveu em um abraço protetor.

— Minha menina — ele murmurou contra o meu ombro. — Você voltou para nós.

Harry se levantou em silêncio, fez um leve aceno respeitoso com a cabeça e saiu do quarto, deixando-nos a sós com nosso luto.

— Dói tanto, pai — eu confessei, agarrando a camisa grossa dele como se fosse minha única âncora no mundo.

— Eu sei. E continuar aqui, sentindo o cheiro de quem te machucou, ouvindo o conselho exigir que você assuma um posto ao lado de Harry... isso só vai piorar a sua ferida.

Afastei-me o suficiente para encará-lo. Havia uma determinação incomum e sombria no olhar do meu pai.

— O que o senhor está sugerindo?

— Você não é uma ferramenta política do conselho, Elise. Eu sou o Beta desta matilha, mas antes disso, sou seu pai. E eu prefiro ter uma filha longe a ter uma filha morta.

— Eu não tenho para onde ir.

— Você tem uma tia, irmã da sua mãe. Ela vive no mundo dos humanos, na cidade grande. É um ambiente sem lobos, sem disputas territoriais e sem magia. Para nós, é quase um exílio. — Ele segurou meu rosto entre as mãos calejadas. — Mas, talvez, lá no mundo dos humanos, você encontre um lugar seguro para você. Um lugar para se recuperar dessa dor longe de tudo que te lembra ele. Você partirá hoje, assim que a noite cair.

"Hoje." O pensamento me atingiu de sobressalto. Deixar o mundo sobrenatural para trás não era apenas um recomeço. Para uma loba enfraquecida e com o espírito recém-estilhaçado, cruzar aquelas fronteiras escondida na calada da noite e ir em direção ao desconhecido poderia ser o fim definitivo de tudo. E eu, infelizmente, não tinha a menor certeza se sobreviveria à viagem.

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