Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu sempre soube que as aparências naquela mansão eram como as porcelanas da cristaleira: bonitas de se ver, mas fáceis de quebrar. O neto da Dona Guiomar, com todo aquele jeito doce e o sorriso que ilumina os corredores, carrega um fardo que não combina com a leveza dele. Eu via as olheiras escondidas, as ligações atendidas em voz baixa e o jeito como ele olhava para a porta, como se esperasse que o seu mundo fosse desabar a qualquer momento.
Quando Dona Guiomar me chamou naquele canto do quarto , o silêncio dela gritava. Ela me olhou com uma súplica que me partiu o coração. Sem dizer uma palavra alta, ela me fez entender que o segredo dele era a coisa mais preciosa e perigosa daquela casa. — Lena, minha querida — ela gesticulou, com as mãos trêmulas — só você pode me ajudar. O resto da família... eles não entenderiam. Eles o destruiriam antes mesmo de ele tentar se explicar. Eu senti um frio na espinha. Eu não sabia se estava pronta para carregar uma verdade que não era minha, mas como dizer não para as duas únicas pessoas que me trataram como gente naquela cidade de muros altos? "O verdadeiro coração daquela casa não é a Dona Guiomar, é a sua nora, a mãe do rapaz. Ela é uma mulher admirável, dessas que entram num cômodo e todos se calam para ouvir. Carinhosa? Sim, à maneira dela. Ela ama o filho com uma força que chega a assustar, mas é um amor que vem com um preço: ele tem que ser exatamente o que ela projetou. Ela costuma dizer, com o queixo erguido e um orgulho que me dá calafrios: 'Criei um homem de verdade, Lena. Um homem que carrega os princípios da nossa família e que nunca me daria desgosto'. Ela fala de 'princípios' como se fossem leis gravadas em pedra, e eu sei bem o que ela pensa de qualquer um que saia dessa linha. Para ela, não existe meio-termo ou aceitação; existe o que ela considera 'certo' e o que ela considera uma abominação. Eu vejo o rapaz murchar toda vez que ela diz isso. Ele a ama tanto que o medo de decepcioná-la é maior do que o medo de ser descoberto. E é aí que eu e a Dona Guiomar entramos. Somos o escudo entre a severidade dela e a verdade dele. Quando ela começa a planejar o futuro dele — os negócios, o casamento, a vida de 'homem de família' que ela desenhou — eu vejo o desespero nos olhos dele e sinto o peso do silêncio que agora eu também sou obrigada a carregar Eu nunca imaginei que meu sorriso e minha discrição me levariam a um papel tão perigoso. Dona Guiomar me chamou em seu quarto, fechou a porta com uma firmeza que me fez prender a respiração e, sem precisar de som, ela me entregou a missão mais difícil da minha vida. Ela segurou minhas mãos e seu olhar era uma mistura de súplica e estratégia. Ela sabia que a nora estava começando a cercar o filho com perguntas, com cobranças sobre o seu futuro e sua falta de pretendentes. O plano da Dona Guiomar era arriscado: ela queria que eu fingisse. Queria que o resto da família pensasse que havia 'algo mais' entre eu e o neto dela. — Helena, minha querida — ela gesticulou, com uma tristeza profunda nos olhos — se eles acharem que o segredo dele é você... eles vão ficar furiosos, vão gritar por causa da diferença de classes, mas ele estará seguro. É melhor que pensem que ele se apaixonou pela moça que trabalha aqui do que descobrirem a verdade que ela não perdoaria. Olhei para o rapaz, que estava encostado na parede, com os olhos vermelhos e o rosto pálido de medo. Ele me olhou como se pedisse perdão por me envolver naquela teia. Eu, a Lena, a moça que só queria trabalhar e mandar dinheiro para casa, agora teria que ser o escudo de um segredo que nem era meu. Aceitei, não pelo emprego, mas porque vi neles a única família que eu realmente tinha ali. O jogo tinha começado.






