Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu estava preparada para ouvir explicações sobre clínicas, médicos e contratos frios. Mas o que saiu da boca dele me desarmou de um jeito que nenhum mármore daquela mansão conseguiria.
Ele se aproximou, não como o patrão ou o herdeiro, mas como o homem que eu conhecia nos pequenos gestos. Ele me explicou, com a voz embargada, que a vida dele não era uma caixa fechada. Sim, ele amava homens, mas o coração dele não seguia regras tão rígidas. Ele me confessou que sempre sentiu algo por mim — um encanto pela minha força, pelo meu sorriso, pela minha verdade. — Lena — ele disse, e eu pude sentir o calor das suas palavras — eu não quero que você seja uma máquina ou um objeto de contrato. Eu sempre me senti atraído por você. O segredo que eu escondo da minha mãe é uma parte de mim, mas o que eu sinto por você também é real. Ter um filho com você... não seria um sacrifício. Não seria apenas um papel assinado. Meu mundo girou. Olhei para a Dona Guiomar, que nos observava com um olhar de quem já sabia de tudo. Então, o casamento não seria apenas uma fachada para o mundo, mas poderia ser um encontro de verdade entre nós dois? A ideia de ser a 'barriga de aluguel' sumiu, dando lugar a algo muito mais assustador e, ao mesmo tempo, fascinante: a possibilidade de ser amada por quem ele é, e de ele me amar por quem eu sou. — Então... — comecei, com o coração batendo na garganta — não seria um teatro o tempo todo? Você está me dizendo que, entre quatro paredes, nós seríamos um casal de verdade As palavras dele me atingiram como um soco no peito. O que antes parecia um plano arriscado, agora parecia um abismo. Eu dei dois passos para trás, sentindo o ar da biblioteca ficar pesado demais para respirar. Olhei para o rapaz, depois para a Dona Guiomar, e balancei a cabeça negativamente, com as mãos trêmulas. — Não. Parem. Chega! — minha voz saiu mais alta do que eu pretendia. — Isso não está certo. Eu aceitei ajudar a esconder um segredo, aceitei ser um escudo... mas isso? Envolver sentimentos, atração, filhos de verdade? Isso é brincar com a vida, é brincar com a minha alma! O medo tomou conta de mim. Eu não conseguia mais ver o herdeiro gentil ou a patroa carinhosa; eu via uma teia que estava se fechando ao meu redor. — Esqueçam tudo o que eu disse. Vamos cancelar esse acordo. Eu não posso me casar com alguém que vive uma vida dupla, e não posso ser a esposa de alguém que, no fundo, eu não sei se me ama ou se está apenas tentando se salvar da mãe. Eu sou uma moça simples, mas meu coração não está à venda e nem para jogo. É melhor eu ir embora, sair desta casa... é o único jeito de manter o que me resta de paz. Me virei para a porta, sentindo as lágrimas transbordarem. O peso de saber demais e o medo de sentir demais eram um fardo que eu não estava pronta para carregar.






