David chegou ao apartamento quando a cidade já tinha se entregado à noite. O elevador subiu em silêncio, o reflexo no vidro espelhado mostrando um homem cansado: camisa social amassada, gravata frouxa no pescoço, olheiras sutis sob os olhos verdes. O dia fora exaustivo. No escritório, ele colocara tudo em ordem: assinaturas digitais em contratos urgentes, reuniões remarcadas para a semana seguinte, projetos organizados em pastas por prioridade, relatórios financeiros enviados para a equipe remota. A secretária Clara fora impecável, como sempre — “Tudo pronto para o jatinho, senhor Martel. Se precisar de algo na Itália, é só chamar” —, e ele agradecera com um aceno cansado, o peito apertado de irritação e responsabilidade.
A porta do elevador abriu na cobertura. A casa estava quieta, as luzes baixas, o cheiro de jantar italiano que a mãe amava quando estava ali — manjericão, tomate, queijo derretido — ainda pairando no ar. Ele passou pela sala, ignorando a vista panorâmica da cidade il