O Contrato

Cecília

Quando terminei de falar sobre o meu desejo de ter uma profissão, o silêncio voltou a se instalar na biblioteca.

No entanto, o clima parecia ainda mais denso do que antes. Notei imediatamente uma troca de olhares rápida e carregada de significado entre o Sr. Moretti e o Gustavo. Eles pareciam conversar em silêncio, testando uma teoria que eu desconhecia por completo.

Fiquei sem entender absolutamente nada. O mistério ao redor daquela mesa estava começando a me dar nos nervos. Resolvi, então, ser ousada. Afinal, se eu estivesse prestes a ser mandada de volta para a rodoviária, que pelo menos saísse de cabeça erguida.

— Eu imagino que o senhor não tenha me chamado aqui apenas para saber sobre os meus planos para o futuro, Sr. Moretti — disse, cruzando os braços e sustentando o olhar firme de Marcello. — Então, se me permite a audácia... eu posso perguntar o porquê de eu estar aqui? Qual é o real motivo desses questionamentos todos?

Gustavo soltou um riso curto, recostando-se na poltrona com um brilho de admiração nos olhos.

— Ela é bem direta. Gostei dela, Marcello — o advogado comentou, divertido.

— Não começa, Gustavo — Marcello o repreendeu imediatamente, o tom de voz gélido fazendo o amigo morder o lábio para conter o riso.

O Sr. Moretti voltou sua atenção total para mim.

Ele entrelaçou os dedos em cima da mesa de mogno, inclinou-se um pouco para a frente e suspirou. A armadura de chefe autoritário parecia ter uma leve rachadura de preocupação ali.

— A proposta que tenho para fazer é, na verdade, muito simples em sua finalidade, Cecília. Mas antes, preciso contextualizar. Você se lembra da carta que os Gallardini enviaram por você na semana passada?

Senti um arrepio desconfortável e mudei de postura na cadeira.

— Sim, eu me lembro perfeitamente — respondi, o tom de voz caindo para a defensiva. — E, para ser sincera, não gosto nem de tocar nesse assunto. Eu me sinto burra, uma completa ingênua por ter confiado na Sra. Leonor e ter aceitado ser o pombo-correio daquela afronta.

— Não se culpe por isso. Você não sabia — Marcello disse, e por um milésimo de segundo sua voz soou quase terna, antes de voltar à rigidez habitual. — Como você leu a carta naquela noite comigo, sabe que eles estão entrando com um pedido de guarda definitiva dos gêmeos. O problema, Cecília, é que o meu advogado teve acesso às alegações deles. E as chances dos Gallardini são altamente favoráveis.

Prendi a respiração. Meu coração deu um salto doloroso no peito.

— Favoráveis? Mas como? O senhor é o pai deles!

— Eles conseguiram o depoimento formal de mais de vinte babás que trabalharam aqui antes de você — Marcello explicou, os olhos faiscando de uma fúria contida. — Todas elas afirmando que a casa é instável, que eu sou um pai ausente e que os gêmeos não têm controle ou uma figura materna que os estruture. O juiz vai engolir essa história.

Levei a mão ao coração, genuinamente chocada e sentindo o estômago revirar. Pensar em Matteo e Merliah arrancados desta fazenda, longe do pai, trancados naquela mansão na capital, me deu uma sensação horrível de sufocamento.

— Meu Deus... — sussurrei, olhando de Marcello para Gustavo. — E não há nada que possa ser feito para intervir? Não tem algo que o senhor consiga fazer para impedir esse absurdo, Sr. Moretti?

— Há algo que pode ser feito, sim — Gustavo tomou a palavra, a seriedade em seu rosto apagando qualquer traço da diversão de antes. — Na verdade, Cecília, tem algo que você pode fazer para ajudar Marcello a impedir isso.

Pisquei as pálpebras, totalmente confusa. Olhei para as minhas próprias mãos calejadas e depois para os dois homens elegantes à minha frente.

— Eu? Como assim? O que uma órfã sem recursos ou influência conseguiria fazer contra uma família tão poderosa quanto os Gallardini?

Marcello fixou seus olhos nos meus.

A intensidade daquele olhar quase me fez recuar na cadeira. O silêncio que se seguiu durou apenas três segundos, mas pareceu uma eternidade.

— Eu preciso que você se case comigo, Cecília.

O impacto daquelas palavras me fez perder o chão. Levantei-me da cadeira em um sobressalto, empurrando o móvel para trás. Minhas mãos começaram a tremer e eu olhei para Marcello como se ele tivesse acabado de criar uma segunda cabeça.

— O quê? — perguntei, a voz subindo uma oitava. — Isso é uma brincadeira? É algum tipo de piada de mau gosto? Eu realmente não estou entendendo!

— Não é piada, Cecília. Por favor, acalme-se e escute — Gustavo pediu, levantando as mãos em um gesto pacificador. — A única maneira jurídica de revertermos o peso devastador dos depoimentos daquelas vinte babás é provando ao juiz que a realidade da fazenda mudou de forma definitiva. Se o Marcello se apresentar no tribunal como um homem casado, estruturado, mostrando que o lar agora tem uma figura materna fixa, o argumento dos Gallardini desmorona.

— E por que eu? — perguntei, sentindo minha cabeça rodar.

— Porque você é a única babá em anos com quem as crianças se adaptaram de verdade — Gustavo continuou, preciso. — É nítido para qualquer um que você conquistou o carinho, a confiança e o respeito deles. Para o assistente social do caso, o casamento parecerá a evolução natural de uma paixão que nasceu da convivência diária.

Apoiei as mãos na mesa, tentando firmar minhas pernas que pareciam feitas de gelatina. Olhei para Marcello, que permanecia sentado, tenso, observando cada uma das minhas reações.

— Eu entendo que a minha relação com os gêmeos melhorou muito, sim — argumentei, a voz trêmula, tentando usar a lógica. — Mas nós ainda precisamos avançar bastante! E além disso... quem acreditaria em uma história dessas? Ninguém vai comprar que, de uma hora para outra, eu deixei de ser a babá contratada para virar a esposa do Sr. Moretti! É um salto absurdo!

— Todo mundo vai comprar a história se vocês parecerem verdadeiramente apaixonados — Gustavo rebateu com uma autoconfiança que me assustou. — Nós já desenhamos o cronograma. O plano é o Marcello anunciar o noivado de vocês amanhã mesmo, durante a festa da roça na vila. Vocês passariam dois, no máximo três meses noivos, planejando os detalhes, enquanto o processo avança. Depois, vocês se casam no papel.

Olhei para Marcello, esperando que ele dissesse que o advogado tinha perdido o juízo. Mas o Sr. Moretti apenas soltou um suspiro pesado e se levantou, contornando a escrivaninha até parar a pouco mais de um metro de mim. O perfume de madeira e couro dele me envolveu, acelerando ainda mais os meus batimentos.

— Cecília... eu não gosto dessa ideia tanto quanto você — ele confessou, a voz grave vibrando bem perto. Seus olhos pareciam ler a minha alma. — Mas eu sou o pai deles. E eu faria absolutamente tudo, me sujeitaria a qualquer teatro, para manter a guarda dos meus filhos. Eu não posso perdê-los. Você... você conseguiria me ajudar a não permitir que tirem as crianças de mim?

Aquela pergunta, dita com uma vulnerabilidade que eu nunca imaginei ver naquele homem tão orgulhoso, pesou toneladas no meu peito. Olhei para o chão, pensando no sorriso banguela de Matteo e no abraço apertado que Merliah me dava antes de dormir. Eu os amava. O pensamento de vê-los sofrer me dilacerava.

Antes que eu pudesse formular uma resposta, Gustavo pigarreou, trazendo de volta o lado prático do acordo.

— E claro, Cecília, nós não estamos pedindo que você faça isso de graça — o advogado ponderou. — Em troca da sua ajuda essencial para salvar esta família, o Marcello se comprometerá, por meio de um contrato confidencial, a arcar com todos os custos da sua faculdade. Qualquer curso que você escolher, em qualquer universidade do mundo. Além disso, ao final de um período de dois anos, quando a guarda estiver definitivamente garantida e nós assinarmos o divórcio, você receberá uma quantia financeira substancial, apropriada por toda a sua contribuição. Você sairá desse casamento com a vida totalmente estabilizada e livre para seguir seus sonhos.

Fiquei estática, processando o tamanho daquela reviravolta. Eu havia entrado naquela sala com medo de ser demitida e estava saindo dali com uma proposta de casamento de fachada, um noivado anunciado para o dia seguinte, a salvação dos gêmeos e a chave para o futuro profissional com o qual eu sempre sonhara, mas que nunca pudera pagar.

Olhei para Marcello.

Ele esperava a minha resposta como um homem que dependia de um veredito para continuar respirando.

Minha mente gritava que aquilo era uma loucura perigosa, mas o meu coração... o meu coração já sabia que eu não conseguiria dar as costas para aquelas duas crianças.

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