Mundo ficciónIniciar sesión— Srta. Clara, aqui é da instituição de eutanásia de Nordália. A senhora confirma o procedimento agendado para o dia 25 de dezembro? Os cílios de Clara Ribeiro tremeram de leve, mas a voz saiu firme e serena: — Confirmo. — Seu pedido já foi aprovado. A partir de agora, a senhora tem quinze dias para organizar tudo o que for necessário. Assim que a ligação terminou, a porta do quarto se abriu. Heitor Gomes entrou, trazendo consigo o ar frio que vinha de fora. Ao ver Clara, sorriu e ergueu a mão, mostrando uma caixa de presente elegantemente embalada. — Feliz aniversário. Clara retribuiu com um leve sorriso. — Meu aniversário foi ontem. O gesto de Heitor hesitou por um instante. Um traço de confusão, misturado a certo constrangimento, atravessou o rosto dele. — Desculpa... tenho andado muito ocupado com o trabalho ultimamente.
Leer másO outro lado do rosto de Júlia inchou imediatamente, e ela entendeu que Heitor já não era mais o mesmo, que já não havia razão e que explicar não adiantaria.Mas ela não aceitava.Não aceitava morrer ali, muito menos morrer por alguém que mal conhecia.Diante da ameaça da morte, uma força inesperada surgiu.Ela conseguiu se soltar.E os dois passaram a se debater dentro do carro.Como se tivesse enlouquecido, ela mordeu, arranhou, gritou sem parar:— Ela se matou! Por que eu tenho que morrer também?! Foi ela que não aguentou! Foi ela que escolheu isso! O que eu tenho a ver com isso?!— Eu só contei a verdade! Se não fosse por mim, ela ia viver enganada por você para sempre! Com as pernas destruídas, com a vida acabada e ainda sendo traída pelo próprio marido... que vida miserável!— Eu ajudei ela, entende?! Se não fosse por mim, ela ia continuar sofrendo, continuar ouvindo suas mentiras nojentas! Aquilo sim era pior do que morrer!As palavras atingiram Heitor como flechas.A mente dele
O silêncio dentro do carro se prolongou por muito tempo.Heitor observava enquanto Júlia, nervosa, fechava rapidamente o zíper da pasta e a jogava de volta no banco traseiro.No instante seguinte, ele ergueu a mão e travou todas as portas e janelas.— Reconhece?A voz continuava calma, como se estivesse falando de algo trivial.Mas, ao ouvir o clique das travas, o sangue de Júlia gelou.Um frio ainda mais intenso que o vento lá fora subiu pela coluna, alcançando a nuca.Ela encolheu as pernas, recuando contra a porta.Forçou um sorriso.— Heitor... o que houve? Seus olhos não estavam doendo?Ao ver que ela ainda fingia não entender, Heitor também sorriu.Imitou o tom leve e inocente dela.— Estavam. Depois de ver essas mensagens, meus olhos ficaram bem desconfortáveis.Inclinou levemente a cabeça.— E você? Depois de ler, sentiu alguma coisa? Nos olhos? No coração? Ou em outro lugar?Aquele tom, copiado com perfeição e carregado de frieza, fez Júlia querer gritar.Ela não conseguiu mai
Júlia desceu carregando uma mala grande.Ao ver Heitor já esperando lá embaixo, correu até ele e se jogou em seus braços.— Eu achei que você ainda estivesse bravo comigo... Desculpa, eu errei naquele dia, falei sem pensar. Obrigada por me perdoar.O perfume forte dos cabelos dela invadiu o nariz de Heitor.O estômago dele revirou imediatamente, mas ele não disse nada.Apenas conteve o desconforto que subia pelo corpo.Com uma mão, puxou a mala e, com a outra, envolveu a cintura dela.Caminharam devagar até o carro. Júlia olhou para a mão dele em sua cintura, e uma alegria silenciosa cresceu dentro dela, fazendo seu rosto corar.Desde que se conheceram, há cinco meses, era a primeira vez que Heitor tomava a iniciativa de se aproximar assim.Ela achou que ele já tinha superado a dor.Achou que finalmente tinha decidido ficar com ela.A voz saiu cheia de animação:— Você não está se alimentando direito, né? Está bem mais magro... dá uma dor no coração te ver assim.Heitor apenas assenti
Na manhã do enterro de Clara, Heitor saiu de casa.Fez a barba, cortou o cabelo, tomou banho e vestiu roupas pretas.Ao descer, jogou fora o lixo que havia separado. Em seguida, ergueu o olhar e permaneceu por um longo tempo observando a janela do sétimo andar, onde a cortina azul ainda estava pendurada.Quando o sol da manhã começou a subir, ele se virou, tirou a chave do bolso, arrancou o chaveiro em formato de boneco e jogou a chave no bueiro.Depois entrou na garagem e dirigiu direto para Serra Azul.Ele não sabia onde ficava o túmulo de Clara.Só podia procurar desde a parte mais baixa, passando por cada um.Quando chegou à metade da encosta e viu Maria inclinada diante de um túmulo, o corpo inteiro relaxou.Secou o suor da testa e caminhou até ela, passo a passo.— Mãe...Maria não respondeu.Ela se abaixou, colocou o buquê de crisântemos diante da lápide e tirou um lenço para limpar a terra e a poeira.Somente depois de deixar a lápide impecável se levantou.Olhou para as mãos
Último capítulo