Nos dias seguintes, Heitor não voltou para casa.
Apenas enviou uma mensagem dizendo que estava em viagem de trabalho.
Júlia, no entanto, expunha cada passo dele.
Clara continuou sem responder. Apenas imprimia tudo e guardava.
Nos momentos livres, seguia a lista, realizando um desejo de cada vez, sempre sozinha.
Quando chegou ao décimo item, viu que era sair para apreciar flores.
Pegou o celular, pesquisou um pouco e decidiu ir a um parque bastante popular.
Durante o horário de trabalho, o parque estava tranquilo.
Ela avançava devagar pela alameda, em uma cadeira de rodas.
Por volta das três ou quatro da tarde, começaram a aparecer músicos de rua.
Tocavam violão e cantavam músicas românticas, suaves.
Clara voltou o olhar na direção do som.
E, de imediato, viu Heitor, não muito longe, ao lado de Júlia.
Os dois dividiam um lanche, comiam e conversavam.
Júlia pegou um pedaço e ofereceu a ele.
Heitor aceitou com naturalidade e comeu.
Ao notar o sorriso leve no rosto dele, Clara ficou imóvel por um instante.
Não imaginava que encontraria os dois ali.
Permaneceu observando em silêncio por um tempo.
Até ver Heitor se levantar de repente e caminhar até o músico.
Ele se abaixou, disse algo, e o cantor cedeu o lugar.
Heitor ajustou o microfone e, sob os olhares curiosos ao redor, começou a tocar violão.
— Essa música é para Júlia... a garota que eu mais amo.
Assim que terminou de falar, a melodia suave se espalhou pelo ar, acompanhada de uma voz clara e delicada.
Tudo ao redor silenciou.
Todos ouviram aquela canção carregada de sentimento.
Algumas garotas próximas arregalaram os olhos, encantadas, e começaram a comentar em voz baixa:
— Que lindo... Queria que meu namorado fosse assim.
— Essa música é maravilhosa. Nunca ouvi antes... será que é original?
— É, sim.
Clara respondeu quase sem perceber, sem saber se falava com elas ou consigo mesma.
Ela já tinha ouvido aquela música aos dezesseis anos, em um evento escolar.
Heitor havia composto a letra e a melodia. Subiu ao palco como atração principal e, diante de todos, disse exatamente a mesma frase.
Naquela época... a pessoa era ela.
O auditório inteiro entrou em alvoroço.
Os estudantes assobiavam, gritavam sem parar.
Alguns dias depois, ele entrou para a rádio da escola.
Desde então, todos os dias, no intervalo, Clara ouvia aquela música.
Naquele tempo... tudo era tão bonito.
Mas agora, tudo tinha mudado.
Aquela música já não era só dela.
E a pessoa no coração dele... também não era mais ela.
As garotas perceberam algo e olharam para ela.
Ao verem seu rosto, se surpreenderam e logo ofereceram lenços.
— Você está chorando... essa música é tão emocionante assim?
Só então Clara percebeu.
Em algum momento, as lágrimas já escorriam sem parar.
Pegou os lenços, enxugou o rosto, balançou a cabeça devagar e seguiu em frente na cadeira de rodas.
O décimo nono item da lista era voltar à escola onde estudou.
Com a antiga carteirinha de estudante em mãos, Clara entrou no campus que lhe era tão familiar.
O campo onde Heitor corria puxando sua mão.
A biblioteca onde estudaram juntos.
O prédio onde ele a carregou nas costas quando ela torceu o tornozelo...
Cada canto guardava marcas dos dois.
Agora, porém, ela não podia mais ficar de pé.
Apenas observava tudo de longe.
Por fim, chegou a um canto do jardim.
Diante de uma árvore quase da sua altura, permaneceu em silêncio, perdida em pensamentos.
Na época, a escola organizou um plantio de árvores.
Aquela árvore tinha sido plantada por Heitor.
As árvores dos outros alunos morreram com o tempo. Ao redor, tudo estava vazio.
Só aquela permanecia.
Não por ser mais resistente...
Mas porque Heitor vinha cuidar dela todos os dias.
Regava, adubava, nunca deixou de vir.
Chovesse ou fizesse sol.
Quando Clara descobriu, perguntou por que ele se dedicava tanto àquela árvore.
Ele a levou até ali e afastou o mato ao redor.
Só então ela viu.
Na raiz, havia uma frase gravada.
Oito anos se passaram.
A árvore cresceu até a altura da cintura dela, ficando alinhada à cadeira de rodas.
Clara tirou do bolso uma pequena faca que havia levado e raspou todas as palavras até apagar tudo por completo.
[Heitor vai amar Clara para sempre.]
Ela ficou olhando a casca exposta por um longo tempo.
E então sorriu... enquanto lágrimas escorriam.
“Heitor, você não conseguiu cumprir aquele para sempre, nem continuar amando. Se era assim, por que mentiu duas vezes?”
Depois de um bom tempo, deixou a escola e pegou um carro até o cartório de registro civil.
Queria deixar encaminhado o processo de baixa no registro civil.
O funcionário franziu a testa:
— Esse procedimento só pode ser feito em caso de óbito.
Clara tirou da bolsa o comprovante de aprovação do procedimento de eutanásia e o laudo de depressão grave. Entregou os documentos com tranquilidade.
— Meus familiares já faleceram. Estou prestes a me divorciar. Quando eu morrer, não vai haver ninguém para cuidar disso por mim. Então resolvi resolver tudo antes... para não dar trabalho a outras pessoas.
O funcionário ouviu, analisou os documentos e pediu autorização ao superior.
No fim, aceitou o pedido em caráter excepcional.
Apenas solicitou que, depois de tudo, o hospital enviasse o atestado de óbito.
Clara anotou a orientação, agradeceu e saiu.
Assim que atravessou a porta, levantou a mão para chamar um carro.
Mas, nesse instante, ouviu uma voz familiar.
Heitor desceu do carro, visivelmente surpreso.
— O que você está fazendo aqui?!