Clara esperou por três horas inteiras... e Heitor não voltou.
À tarde, uma chuva fina começou a cair.
Sem disposição para esperar mais, seguiu sozinha na cadeira de rodas, decidida a descer a colina.
Embora o cemitério tivesse acesso adaptado, a rampa era íngreme.
Sem conseguir controlar a velocidade, a cadeira bateu no corrimão e virou.
Ela rolou ladeira abaixo.
Os braços e o rosto ficaram cobertos de arranhões.
A testa abriu em um corte, e o sangue escorria sem parar, logo sendo levado pela chuva.
Caída no chão, sozinha, sem que ninguém percebesse, só conseguia encarar as gotas que caíam uma após a outra.
O frio da chuva fazia seu corpo tremer sem controle.
Ela cerrava os dentes, suportando a dor que se espalhava por todo o corpo.
Mas o tempo parecia não passar.
Ela já não sabia quanto havia se passado...
Quando começou a acreditar que morreria congelada ali, Heitor finalmente apareceu correndo, com um guarda-chuva na mão.
Desesperado, ele levantou ela nos braços enquanto pedia desculpas sem parar.
Clara o encarou fixamente.
Em seus olhos, restava apenas um vazio entorpecido.
— Se eu tivesse pernas... hoje eu conseguiria sair daqui?
Aquela Clara luminosa tinha morrido de vez aos dezoito anos.
O coração de Heitor estremeceu.
A culpa e o remorso vieram como uma onda, sufocando qualquer coragem de encarar a mulher em seus braços.
Ele ergueu a mão e deu um tapa forte no próprio rosto.
— Clara... me desculpa. Eu prometo que vai ser a última vez. Nunca mais vou deixar isso acontecer.
Nos dias seguintes, tomado pela culpa, passou a permanecer ao lado dela o tempo inteiro.
Se ela saía para tomar sol ou simplesmente ficava em silêncio, ele a acompanhava de perto, atento a cada detalhe.
Qualquer comentário casual dela recebia uma resposta cuidadosa.
A convivência entre os dois parecia voltar ao que era sete anos antes, antes do acidente.
Mas Clara sabia.
A vida não volta atrás.
E tudo aquilo... não passava de uma ilusão passageira.
Por isso, apenas observava em silêncio.
Contava os dias.
Esperava o último.
Na véspera de Natal, os dois desembarcaram em Nordália.
Assim que chegaram ao hotel, Heitor recebeu uma ligação.
Depois de meia hora conversando, saiu do quarto, pegou a bagagem e já se preparava para partir.
Disse apenas que tinha um assunto urgente da empresa.
Clara o observou, tão apressado, e perguntou em voz baixa:
— Você precisa mesmo ir?
Heitor não hesitou.
— É urgente. Fica aqui, aproveita a neve. Amanhã eu volto para te buscar.
Clara não insistiu.
Também não disse que, no dia seguinte, ele não teria mais como encontrar ela.
......
Ela passou a noite inteira sentada diante da janela do hotel.
A neve prevista não veio.
Quando amanheceu, recebeu uma mensagem de Júlia.
Era uma foto no hospital.
Heitor estava sentado ao lado dela, descascando uma maçã com cuidado, o rosto iluminado por um sorriso cheio de carinho.
Clara permaneceu olhando aquela imagem por um longo tempo.
Quando o sol nasceu, ela saiu do hotel na cadeira de rodas e seguiu até a instituição de eutanásia.
Antes de entrar, ergueu os olhos pela última vez para o céu.
A primeira neve que tanto esperava... não caiu.
Tanto Heitor quanto a previsão do tempo enganaram ela.
No último dia de sua vida, ela ainda não conseguiu ver a primeira neve.
Um leve sorriso surgiu em seus lábios.
Então virou o rosto, empurrou a cadeira de rodas... e seguiu, lentamente, em direção ao próprio fim.
Logo, os funcionários a conduziram para dentro.
Ajudaram ela a deitar e, como de costume, fizeram algumas perguntas.
— Srta. Clara, há alguém que você gostaria de ver pela última vez?
— Não...
— Você tem alguma mensagem final que deseja que transmitamos?
— Não...
— Existe algum desejo que não tenha sido realizado?
— Não...
Ela respondeu a tudo com calma.
Sobre Heitor... não deixou nenhuma palavra.
Quando viu o funcionário preparar o medicamento, falou suavemente:
— Depois que eu morrer, por favor... me levem direto para a cremação. Não precisa enterrar as cinzas. Quando a primeira neve cair, escolham um lugar e espalhem... obrigada.
O funcionário assentiu.
O quarto mergulhou em silêncio.
Uma leve picada surgiu em sua mão... e logo desapareceu.
A consciência de Clara começou a se dissipar.
Imagens surgiam em sua mente: um garoto correndo, brincadeiras da infância, o calor das tardes ensolaradas, o som vivo da sala de aula...
Aos poucos, tudo se dissolveu em uma névoa suave e difusa.
Ela se deixou envolver por aquela sensação úmida e irreal.
E, por fim, fechou os olhos.
Sem emitir mais nenhum som.