Capítulo 8
Clara esperou por três horas inteiras... e Heitor não voltou.

À tarde, uma chuva fina começou a cair.

Sem disposição para esperar mais, seguiu sozinha na cadeira de rodas, decidida a descer a colina.

Embora o cemitério tivesse acesso adaptado, a rampa era íngreme.

Sem conseguir controlar a velocidade, a cadeira bateu no corrimão e virou.

Ela rolou ladeira abaixo.

Os braços e o rosto ficaram cobertos de arranhões.

A testa abriu em um corte, e o sangue escorria sem parar, logo sendo levado pela chuva.

Caída no chão, sozinha, sem que ninguém percebesse, só conseguia encarar as gotas que caíam uma após a outra.

O frio da chuva fazia seu corpo tremer sem controle.

Ela cerrava os dentes, suportando a dor que se espalhava por todo o corpo.

Mas o tempo parecia não passar.

Ela já não sabia quanto havia se passado...

Quando começou a acreditar que morreria congelada ali, Heitor finalmente apareceu correndo, com um guarda-chuva na mão.

Desesperado, ele levantou ela nos braços enquanto pedia desculpas sem parar.

Clara o encarou fixamente.

Em seus olhos, restava apenas um vazio entorpecido.

— Se eu tivesse pernas... hoje eu conseguiria sair daqui?

Aquela Clara luminosa tinha morrido de vez aos dezoito anos.

O coração de Heitor estremeceu.

A culpa e o remorso vieram como uma onda, sufocando qualquer coragem de encarar a mulher em seus braços.

Ele ergueu a mão e deu um tapa forte no próprio rosto.

— Clara... me desculpa. Eu prometo que vai ser a última vez. Nunca mais vou deixar isso acontecer.

Nos dias seguintes, tomado pela culpa, passou a permanecer ao lado dela o tempo inteiro.

Se ela saía para tomar sol ou simplesmente ficava em silêncio, ele a acompanhava de perto, atento a cada detalhe.

Qualquer comentário casual dela recebia uma resposta cuidadosa.

A convivência entre os dois parecia voltar ao que era sete anos antes, antes do acidente.

Mas Clara sabia.

A vida não volta atrás.

E tudo aquilo... não passava de uma ilusão passageira.

Por isso, apenas observava em silêncio.

Contava os dias.

Esperava o último.

Na véspera de Natal, os dois desembarcaram em Nordália.

Assim que chegaram ao hotel, Heitor recebeu uma ligação.

Depois de meia hora conversando, saiu do quarto, pegou a bagagem e já se preparava para partir.

Disse apenas que tinha um assunto urgente da empresa.

Clara o observou, tão apressado, e perguntou em voz baixa:

— Você precisa mesmo ir?

Heitor não hesitou.

— É urgente. Fica aqui, aproveita a neve. Amanhã eu volto para te buscar.

Clara não insistiu.

Também não disse que, no dia seguinte, ele não teria mais como encontrar ela.

......

Ela passou a noite inteira sentada diante da janela do hotel.

A neve prevista não veio.

Quando amanheceu, recebeu uma mensagem de Júlia.

Era uma foto no hospital.

Heitor estava sentado ao lado dela, descascando uma maçã com cuidado, o rosto iluminado por um sorriso cheio de carinho.

Clara permaneceu olhando aquela imagem por um longo tempo.

Quando o sol nasceu, ela saiu do hotel na cadeira de rodas e seguiu até a instituição de eutanásia.

Antes de entrar, ergueu os olhos pela última vez para o céu.

A primeira neve que tanto esperava... não caiu.

Tanto Heitor quanto a previsão do tempo enganaram ela.

No último dia de sua vida, ela ainda não conseguiu ver a primeira neve.

Um leve sorriso surgiu em seus lábios.

Então virou o rosto, empurrou a cadeira de rodas... e seguiu, lentamente, em direção ao próprio fim.

Logo, os funcionários a conduziram para dentro.

Ajudaram ela a deitar e, como de costume, fizeram algumas perguntas.

— Srta. Clara, há alguém que você gostaria de ver pela última vez?

— Não...

— Você tem alguma mensagem final que deseja que transmitamos?

— Não...

— Existe algum desejo que não tenha sido realizado?

— Não...

Ela respondeu a tudo com calma.

Sobre Heitor... não deixou nenhuma palavra.

Quando viu o funcionário preparar o medicamento, falou suavemente:

— Depois que eu morrer, por favor... me levem direto para a cremação. Não precisa enterrar as cinzas. Quando a primeira neve cair, escolham um lugar e espalhem... obrigada.

O funcionário assentiu.

O quarto mergulhou em silêncio.

Uma leve picada surgiu em sua mão... e logo desapareceu.

A consciência de Clara começou a se dissipar.

Imagens surgiam em sua mente: um garoto correndo, brincadeiras da infância, o calor das tardes ensolaradas, o som vivo da sala de aula...

Aos poucos, tudo se dissolveu em uma névoa suave e difusa.

Ela se deixou envolver por aquela sensação úmida e irreal.

E, por fim, fechou os olhos.

Sem emitir mais nenhum som.
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