Te Encontrei na Primeira Neve
Te Encontrei na Primeira Neve
Por: Juju
Capítulo 1
Heitor se agachou, ergueu a mão e a pousou de leve sobre a panturrilha de Clara, iniciando a massagem enquanto mudava de assunto:

— E hoje, como você está? Sentiu algum desconforto nas pernas?

Por aplicar força demais, aquelas mãos longas ficaram avermelhadas, com as veias do dorso saltando de forma evidente.

A técnica e a pressão eram profissionais, mas Clara não sentia absolutamente nada.

Diante do silêncio, Heitor ergueu o olhar, prestes a insistir, quando o celular no bolso tocou.

Ele pegou o aparelho e, no instante em que viu o nome na tela, um sorriso surgiu de forma involuntária em seu rosto.

As palavras que estavam na ponta da língua desapareceram.

Ele se levantou de imediato, disse apenas:

— Clara, surgiu uma coisa do trabalho. Daqui a pouco eu volto para continuar a massagem.

E seguiu para o escritório.

Clara permaneceu em silêncio, apenas observando enquanto ele se afastava.

Quando Heitor desapareceu completamente além da porta, o sorriso dele, impossível de disfarçar, continuava se repetindo com nitidez na mente dela.

Se fosse trabalho... ele sorriria daquele jeito?

Um sorriso tão espontâneo, tão cheio de felicidade, só aparece quando se está diante de alguém de quem se gosta de verdade.

Afinal, aquele tipo de sorriso ela conhecia bem.

Todas as manhãs, durante o ensino médio, ela descia correndo depois de terminar o leite e, ao erguer o olhar, encontrava Heitor sorrindo exatamente assim.

Ele se aproximava com um leve sorriso nos lábios, pegava sua mochila pesada e a levava junto com ela até a escola.

Naquela época, ambos tinham dezoito anos.

Havia inocência nos traços, juventude transbordando, e os olhos só enxergavam um ao outro.

Cresceram juntos desde pequenos.

Como em tantas histórias, aos poucos foram se apaixonando, até perceberem que o sentimento era mútuo.

Namoraram às escondidas da escola e da família, prometendo que estudariam com dedicação para entrar na mesma universidade e, então, assumiriam o relacionamento sem precisar ocultar nada.

Incentivavam um ao outro, avançavam lado a lado, e, no fim, ambos foram aprovados com notas quase perfeitas na Universidade Celestial Real.

Tudo deveria ter terminado ali, com um desfecho perfeito.

Mas o inesperado aconteceu.

Na véspera do início das aulas, sofreram um acidente de carro.

No instante em que o perigo surgiu, Clara empurrou Heitor para longe sem hesitar.

Naquele dia, Heitor saiu ileso.

As pernas dela estavam paralisadas.

E, como se não bastasse, naquele mesmo ano, os pais dela morreram em um acidente de avião.

Golpe após golpe, ela não conseguiu suportar.

Desde então, passou a sofrer de depressão.

Heitor ficou arrasado.

Assim que se formou na faculdade, pediu Clara em casamento e fez uma promessa solene: disse que jamais a decepcionaria pelo resto da vida.

E, durante três anos de casamento, foi exatamente assim que agiu.

Até quinze dias atrás.

Foi quando Clara encontrou o diário dele.

O homem que todos os dias dizia que amava ela despejava ali toda a sua dor.

Escreveu que pediu Clara em casamento por obrigação moral e que sentia que, se não fizesse aquilo, todos o julgariam.

Escreveu que, toda vez que voltava para casa, a sensação sufocante de obrigação o deixava sem ar, e que cada segundo ao lado de Clara era um tormento.

Escreveu que, se pudesse voltar no tempo, preferiria que Clara não tivesse salvado sua vida, mesmo que isso significasse passar o resto da vida em uma cadeira de rodas, pois assim não carregaria aquele peso esmagador de culpa.

E escreveu que, às escondidas de Clara, havia se apaixonado por outra mulher.

O nome dela era Júlia Lima.

Ela era intensa, radiante, cheia de luz, exatamente como Clara tinha sido antes do acidente.

......

No dia seguinte, Clara recebeu uma mensagem de Júlia.

[Ouvi o Heitor comentar que suas pernas nunca mais vão melhorar. Vocês se conhecem há tantos anos... será que você não pode deixar ele em paz?]

[Você nem imagina, né? Por sua causa, ele sofre todos os dias, a ponto de desejar morrer. Mas não pode. Precisa fingir que está bem para cuidar de você. Que vida miserável.]

[Se ele não tivesse me conhecido, talvez já tivesse enlouquecido. Você não sente nem um pouco de culpa? Eu me preocupo muito com ele. Agora ele gosta de mim. Por favor, para de se agarrar a ele. Se divorcia, deixa a gente ficar junto, pode ser?]

Logo em seguida, chegaram mais de dez fotos, todas centradas em Heitor.

Em uma, ele aparecia sorrindo enquanto preparava café.

Ao perceber que Júlia tirava selfies, se aproximava com intimidade e fazia pose para a câmera.

Em outra, levava até ela um prato cheio de camarões já descascados e ainda limpava, com cuidado, o molho que havia ficado nos dedos dela.

Havia também uma na praia: ele caminhava atrás de Júlia, pisando exatamente nas pegadas dela.

Depois, voltava sorrindo, trazendo um punhado de conchas recolhidas na areia para entregar a ela.

Foto após foto, Clara sentia o peito apertar até quase faltar ar.

Era como se estivesse sendo dilacerada.

Mas seus olhos já não conseguiam mais derramar lágrimas. Restava apenas um vazio absoluto.

Ela não respondeu às mensagens.

Ainda assim, Júlia não a deixou em paz.

A partir daquele dia, passou a enviar, diariamente, novas fotos do cotidiano.

Em cada imagem, havia uma marca d’água indicando a data.

21 de novembro: caminharam juntos pelo parque, sob a luz do pôr do sol.

26 de novembro: foram a um ateliê de cerâmica e moldaram um vaso.

1º de dezembro: assistiram a um concerto e conversaram longamente sobre música e o futuro.

......

Cada uma dessas datas coincidia exatamente com os dias em que Heitor dizia, por telefone, que estava trabalhando até mais tarde.

Inclusive ontem, no aniversário de Clara.

Ela esperou por ele em casa o dia inteiro e a noite inteira... e ele não voltou.

Ele estava com Júlia, assistindo a fogos de artifício.

Ao olhar aquelas fotos, Clara começou a rir.

Riu até que as lágrimas finalmente escorreram.

Aos dezoito anos, Heitor amava Clara com toda a intensidade do mundo.

Aos vinte e cinco... já não a amava mais.

Naquela noite, ela permaneceu sentada diante da janela até o amanhecer.

No dia seguinte, enviou seus documentos para a instituição de eutanásia de Nordália.

Solicitou o fim da própria vida.

“Heitor, eu não tenho mais nada. Só tenho você. Mas, para você, eu sou um peso insuportável.”

“Se é assim... eu escolho te deixar livre. E também me libertar.”
Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
capítulo anteriorpróximo capítulo
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App