Depois que voltaram para casa, Heitor cuidou dos ferimentos de Clara com atenção e delicadeza. No rosto dele, o arrependimento e a preocupação eram evidentes.
Nos dias seguintes, não saiu mais. Permaneceu ao lado dela o tempo todo.
Clara, porém, não reagia à culpa que ele demonstrava.
Quando a casa mergulhava no silêncio, ela seguia até o escritório na cadeira de rodas e pegava o diário que Heitor acreditava esconder tão bem.
Ao abrir o objeto, encontrou uma página inteira preenchida com a mesma frase repetida inúmeras vezes: [Heitor, você é um idiota.]
Fechou o caderno.
Assim que saiu do escritório, a porta do quarto se abriu de repente.
Heitor apareceu às pressas, com a roupa desalinhada e descalço.
Ao ver que ela estava intacta, ele soltou um suspiro de alívio.
— A essa hora... o que você está fazendo sozinha?
Clara desviou o olhar e respondeu com naturalidade:
— Fiquei com sede. Fui pegar água.
Heitor foi rapidamente até a cozinha, voltou com um copo e colocou em sua mão.
Ainda parecia abalado.
— Da próxima vez, me chama. Se acontecer alguma coisa com você... eu não ia aguentar.
Ao ouvir isso, Clara levantou o olhar e o encarou.
— Tem alguma coisa que você quer me contar?
Heitor hesitou por um instante e balançou a cabeça.
— Não.
Na verdade, bastava ele dizer a verdade.
Ela teria soltado tudo sem dificuldade.
Mas, mesmo naquele ponto, ele ainda se recusava a ser honesto.
Clara fechou os olhos por um instante, esboçou um leve sorriso e ocultou a decepção.
No dia seguinte, pegou o álbum de fotos.
Sem qualquer hesitação, começou a rasgar todas as fotografias.
Heitor ficou parado, atônito, ao ver os pedaços espalhados pelo chão.
— Essas fotos estavam perfeitas... por que você fez isso?
Clara nem se deu ao trabalho de elaborar uma desculpa melhor.
— Estavam úmidas, já estragadas. Não valia a pena guardar. Depois a gente tira outras.
A tranquilidade com que ela disse aquilo deixou Heitor inquieto.
Ele não sabia se acreditava ou não.
No terceiro dia, ela chamou a empregada.
Mandou separar tudo o que era de casal, canecas, roupas, chaveiros, e pediu que jogassem tudo fora.
Heitor viu e foi questionar.
Ela respondeu da mesma forma, dizendo que tudo estava mofado.
Ele acabou aceitando.
Alguns dias depois, Clara doou todos os presentes que ele havia dado para instituições de caridade.
Disse que estavam fora de moda e pediu que, no futuro, ele comprasse coisas novas.
Os dias foram passando.
Cada vez mais coisas eram retiradas.
Tudo o que era dela foi desaparecendo aos poucos, de um quarto cheio até quase nada.
No fim, não restou mais nada.
E Heitor não percebeu.
No dia do aniversário de morte dos pais de Clara, ele foi com ela ao cemitério.
Mas, ao ouvir o que ela dizia diante do túmulo, algo estranho surgiu dentro dele.
— Pai... mãe... vocês estão bem aí? Não se preocupem comigo... acho que logo a gente se encontra...
Antes, quando vinha ali, ela falava apenas da saudade.
Agora, havia algo diferente.
Um desconforto começou a crescer dentro dele. Já ia perguntar o que estava acontecendo...
Mas uma voz interrompeu:
— Heitor... Clara... que coincidência.
Ele se virou, surpreso.
Júlia estava a poucos passos de distância.
Parecia machucada, o rosto pálido.
Ao notar a forma instável com que ela apoiava o pé esquerdo, Heitor franziu a testa, preocupado.
— O que você está fazendo aqui? Se machucou?
— Vim visitar minha avó... mas começou a chover, eu escorreguei e torci o pé...
A voz dela soava frágil.
Sem pensar, Heitor se aproximou e a amparou.
Júlia ergueu o olhar, com os olhos marejados.
— Você pode me levar ao hospital?
O coração de Heitor apertou.
Ele não hesitou.
— Claro.
Ele virou apenas para dizer a Clara:
— Clara, fica aqui com seus pais. Eu levo ela ao hospital e já volto.
Nenhum dos dois perguntou o que ela achava.
Simplesmente a deixaram sozinha no cemitério.