Clara também não esperava encontrar ele ali.
Em vez de responder, devolveu a pergunta:
— E você, veio fazer o quê aqui?
A expressão de Heitor mudou levemente. Um traço de nervosismo atravessou seu olhar.
— Vim comer com um amigo aqui perto… te vi e desci para dar uma olhada.
Assim que terminou de falar, a porta do carro se abriu.
Júlia saiu sorrindo e se colocou entre os dois.
— Heitor, essa é a sua esposa, né?
Ele não esperava que ela descesse. Ficou ainda mais tenso, mas tentou manter a naturalidade ao apresentar:
— Clara, essa é... uma amiga minha, Júlia.
Júlia estendeu a mão com educação.
— Prazer. Você veio até aqui por algum motivo especial?
Clara fingiu não ver o gesto. Baixou o olhar e respondeu com suavidade:
— Estou cumprindo um desejo de aniversário. Vim tirar algumas fotos.
Ao ouvir isso, os olhos de Júlia brilharam imediatamente.
— Posso ir com você? Tenho um ótimo gosto, posso ajudar a escolher tudo.
Clara olhou para Heitor.
Como ele permaneceu em silêncio, ela não recusou.
Os três entraram no carro.
Clara ficou sozinha no banco de trás, olhando a paisagem pela janela.
No início, o silêncio dominava o ambiente.
Heitor parecia contido, evitando falar demais.
Pouco depois, Júlia puxou assunto, comentando sobre um filme que tinha acabado de estrear.
Por educação, Heitor respondeu algumas vezes.
Mas, por coincidência, o tema despertou o interesse dele.
Aos poucos, ele se deixou levar pela conversa... e acabou esquecendo completamente que Clara estava ali atrás.
Quando chegaram, desceu do carro e saiu andando ao lado de Júlia sem sequer olhar para trás.
Clara observou os dois se afastando.
Sozinha, ela tirou a cadeira de rodas do carro, conseguiu se acomodar com dificuldade e começou a seguir os dois.
Assim que os três chegaram à entrada, a recepcionista se aproximou sorrindo de Heitor e Júlia.
— Vocês vieram fazer fotos de casamento, certo? Vocês combinam muito bem, ficam ótimos juntos...
Ao ouvir aquilo, Heitor franziu a testa por reflexo.
— O que você está dizendo? Minha esposa está ali atrás.
A recepcionista ficou constrangida e se apressou em se desculpar:
— Me desculpe, por favor. Vocês pareciam tão compatíveis... e estavam conversando o tempo todo, então acabei entendendo errado.
Só então Heitor percebeu a situação.
Ele se aproximou rapidamente de Clara, com o rosto carregado de culpa.
Júlia também voltou, com uma expressão de arrependimento.
— Desculpa... a gente se envolveu tanto na conversa que acabou esquecendo de você. Por que você não chamou a gente?
Clara olhou para os dois e, diante daquele jogo de palavras, sentiu apenas cansaço.
Não disse nada.
Na juventude, ela e Heitor também conversavam sem parar, sobre tudo e qualquer coisa.
Falavam do futuro, dos sonhos...
Agora, restava apenas o silêncio.
O clima ficou estranho.
Percebendo isso, a recepcionista se adiantou para aliviar a situação:
— Que tipo de ensaio vocês querem fazer?
Os olhares de Heitor e Júlia se voltaram para Clara.
Ela respondeu com naturalidade:
— Fotos do cotidiano.
Júlia girou os olhos, já elaborando algo.
— Então você escolhe a roupa primeiro. Como é difícil para você se locomover, eu e o Heitor podemos tirar algumas fotos antes, testar as poses. Depois você repete, vai ser mais fácil.
Sem esperar resposta, puxou Heitor para o estúdio.
No começo, ele ainda demonstrava certa hesitação.
Mas, sob a orientação constante de Júlia, foi se soltando aos poucos.
Os dois tiraram algumas fotos juntos... e acabaram se empolgando.
Júlia ficou na ponta dos pés e apertou de leve o rosto dele, pedindo, em tom brincalhão, que ele sorrisse.
Ao ver o brilho nos olhos dela, Heitor respondeu com um sorriso cheio de carinho.