Capítulo 3
No dia seguinte, Clara acordou bem cedo.

Heitor só acordou por volta das dez.

Ao sair do quarto, viu Clara sentada à mesa, escrevendo algo.

Ainda esfregando os olhos, ele se aproximou.

O caderno estava preenchido com anotações densas.

Ele leu linha por linha e percebeu que era uma lista de tarefas.

Primeiro item: [Voltar para casa, rever os amigos.]

Segundo item: [Ir à praça alimentar os passarinhos.]

Terceiro item: [Ir a um bar e beber até perder a consciência...]

— Clara, por que você está anotando essas coisas?

A mão dela, que segurava a caneta, hesitou por um instante. Ela ergueu o olhar.

— Lista de desejos.

Ao ouvir isso, algo pareceu acender na memória de Heitor.

Um sorriso surgiu em seu rosto.

— Quando você tinha dezessete anos, também fez uma lista de desejos...

Ele interrompeu a frase no meio.

Um traço de arrependimento atravessou sua expressão.

Clara sabia o motivo. Ele acreditava ter tocado em um assunto que a deixaria triste.

Mas agora ela já tinha superado aquilo. Não se importava mais.

Pelo contrário, deu continuidade:

— Sim. Naquela época, escrevi uma lista com cem coisas para fazer antes dos dezoito anos. Queria saltar de bungee jump, esquiar, fazer rafting, surfar... tudo parecia meio insano. Mas você conseguia ser ainda mais. Além de registrar cada experiência, fez tudo aquilo comigo.

Ao ouvir o tom carregado de nostalgia, lembranças antigas vieram à mente de Heitor, e ele sorriu.

— Eu gostava tanto de você... Claro que eu queria participar de tudo. Com você ao meu lado, eu não tinha medo de nada. Fechava os olhos e me jogava de alturas absurdas...

Clara observou em silêncio o entusiasmo dele.

Quando o olhar de Heitor voltou a se fixar nela, ela disse de repente:

— Faz tempo que eu não te vejo sorrir assim.

O sorriso dele congelou.

O ar ficou pesado por alguns segundos.

Então ele mudou de assunto:

— Então... dessa vez, deixa eu realizar esses desejos com você?

Clara balançou a cabeça, com firmeza na voz:

— São desejos meus. Não têm nada a ver com você. Você já é ocupado demais. Não precisa.

Sem saber explicar o motivo, ao ver aquela expressão serena demais, o coração de Heitor deu um salto estranho.

Ele ainda queria insistir, mas o telefone tocou.

Assim que olhou a tela, o sorriso que havia desaparecido voltou imediatamente.

Ele deu mais uma desculpa sobre o trabalho e, sem nem olhar a reação dela, virou e saiu do quarto.

Clara ficou parada, olhando para as costas dele, um pouco atônita.

Antes, ela também já tinha recusado a companhia dele, dizendo que queria cumprir desafios sozinha.

Mas ele nunca aceitava.

Sempre insistia em ficar ao lado dela, acompanhando cada passo.

Agora, tudo tinha mudado.

Ele não insistia mais.

Ele nem sequer dizia palavras simples de preocupação.

As pessoas sempre diziam que o casamento desgasta o amor.

No começo, ela não acreditava.

Agora que tinha vivido isso, entendia perfeitamente.

O sentimento que deveria durar uma vida inteira... acabou antes de chegar ao fim.

Foi sendo consumido aos poucos, até não restar nada além de cansaço.

Clara terminou a lista sozinha, em silêncio.

No topo da página, onde havia deixado espaço, escreveu com cuidado: [Lista de últimos desejos]

Assim que terminou, o celular ao lado acendeu.

Era Júlia.

Dessa vez, a foto mostrava ela sentada no banco do passageiro do carro de Heitor.

Antes, ao ver aquelas mensagens, Clara sentia uma dor insuportável.

Agora, depois de tantas vezes, não sentia mais nada.

Ela pegou o caderno e anotou tudo nele.

Depois, imprimiu tudo e colocou junto com a lista, guardando na gaveta.

Aquela gaveta já estava cheia de registros semelhantes, provocações que Júlia vinha enviando dia após dia.

Para Clara, a morte era uma libertação.

Mas isso não significava que pretendia abençoar o relacionamento entre Heitor e Júlia.

Mesmo que Heitor já não amasse ela, deveria ter sido honesto, em vez de trair ela emocionalmente.

E Júlia... não deveria ter provocado tantas vezes.

Tudo o que vinha fazendo era completamente diferente da imagem gentil e doce descrita no diário.

Clara fazia questão de mostrar a verdadeira face dela para Heitor.
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