Capítulo 6

O vento soprava suavemente, e depois de alguns dias os danos à Zefrenu foram restaurados, Felon andava sozinho em meio a multidão de pessoas no mercado. Passando entre várias tendas, os comerciantes anunciavam suas mercadorias, desde de incensos, roupas, pergaminhos até alimentos.

A vastidão dos moradores fazia os ouvidos de Felon zumbirem, mas ele tentava ignorar, pois era melhor do que se lembrar das revelações da Anciã. — “As estrelas contam histórias de que o Ouroboros está prestes a se partir, será você quem irá destruir.” — Foram as suas últimas palavras, e ainda ecoavam na cabeça de Felon como se acabassem de serem pronunciadas. — Ouroboros… — O jovem sussurrou. — A serpente que morde a própria cauda. — Ele fechou os olhos brevemente e pode visualizar em meio à brumas espessas duas silhuetas, uma garota e um garoto, estavam de costas um para outro, mas tentavam segurar as mãos um do outro, e ao fundo um sibilar incessante de uma serpente, quando Felon abriu os olhos novamente sua visão ficou turva devido a claridade do dia, seu coração pulsava freneticamente e suas mãos tremiam, o jovem retirou o lenço roxo que cobria seu pescoço e o segurou com força. — Se ao menos eu pudesse conversar com minha mãe… — Murmurou, enrolou novamente o lenço no pescoço e aos poucos foi se afastando da multidão, encontrou a sombra de uma árvore em uma praça, onde algumas pessoas estavam sentadas conversando nos bancos ao redor de uma fonte de mármore, com apenas um homem nu segurando um jarro que saia a cascata de água cristalina, e se encostou nela e ficou observando as caravanas dos viajantes e mercadores passando, algumas crianças brincavam em volta da fonte, davam risadas suaves e exibiam seus sorrisos sinceros de alegria para todos ao redor.

— Felon. —Chamou uma voz feminina.

Quando o jovem se virou viu que se tratava de uma mulher um pouco mais baixa que Felon, pele cor de oliva bronzeada, cabelos pretos com mechas brancas trançadas, usava um vestido preto e um manto da mesma cor, com um broche prateado com pedra azul profundo no centro. — Seu pai me falou que poderia estar aqui. — Sua voz era suave e levemente aveludada, estava sorrindo com seus lábios finos e levemente avermelhados, realçando algumas marcas de expressão, mas de certa forma coroando sua beleza natural. A mulher ergueu os braços. — Não vai abraçar a sua tia? — Seus olhos verdes esmeralda brilharam por um breve segundo.

Felon sorriu e por um breve momento pareceu com que suas preocupações se dissiparam no ar, ele foi até a mulher e a abraçou com força. — Tia Zafira. — O jovem beijou sua bochecha esquerda e depois a direita. — Não sabia que a senhora tinha vindo junto com a caravana.

— Não me surpreende que seu pai esqueceu de mencionar. — A mulher bufou e então olhou curiosa para a movimentação da cidade e suspirou enquanto piscou os olhos devagar. — Mas é compreensível devido ao que aconteceu na cidade há alguns dias. — A mulher virou os olhos verdes esmeralda para Felon e o olharam intensamente. — Não foi o único que passou mal naquele dia, alguns do nosso Clã, inclusive eu também…

Os ombros de Felon ficaram rígidos e os tremores aos poucos voltaram, parecia que através dos olhos da tia podia ver o reflexo da esfinge na pirâmide. — A senhora escutou as palavras? — Ele perguntou hesitante.

Zafira observou os tremores e soltou o corpo de Felon e segurou suas mãos e concordou lentamente com a cabeça. — Você é igual à sua mãe, Felon. — A mulher sorriu com uma melancolia suave presente em sua voz. — Agatha era tão sensitiva quanto você… — Apertou as mãos do sobrinho e aos poucos os tremores passaram. — Darion sempre a amou, mas acredito que nunca a tenha compreendido por completo. — Zafira olhou profundamente nos olhos de Felon. — Mas não posso culpá-lo, afinal nunca foi tocado pelo Grande Mistério. — Ela soltou devagar as mãos de Felon. — A Anciã lhe contou sobre a dívida de nosso sangue e por isso está assim. — Seu olhar era franco e misturado à ternura de uma mãe. — Está tudo bem se sentir dessa forma, sua mãe reagiu da mesma maneira e ela fez o melhor que pôde e eu sei que irá fazer o mesmo sem precisar pagar com a própria vida.

— Como tem tanta certeza disso? — Felon apertou os olhos curiosos.

— Não é o único que conversa com os Ancestrais. — Ela sorria. —Você possui a Senhora Opala Darvek como sua Guia e eu o Senhor Turmalino Tharim. — Zafira colocou a mão sobre o broche. — As moedas de prata indicaram um conflito próximo, mas também vitória.

Felon abraçou a tia mais uma vez e uma lágrima desceu pelo rosto do jovem. — Minha caminhada nem ao menos começou e já sinto o peso em meus ombros. — O jovem falou com a voz abafada pelo manto da mulher.

Zafira o abraçou de volta e respirou fundo. — Assim como nossos Ancestrais, eu e seu pai estamos aqui para te dar todo apoio em sua caminhada, não importa para onde está estrada te levar. — A mulher tirou os cabelos pretos da testa de Felon e a beijou suavemente e com a ponta do dedo traçou um símbolo invisível de proteção. — Tens a minha bênção e a do Ancião, e para caminhar essa força eu também lhe dou e enquanto o sol brilhar essa proteção o irá acompanhar.

Felon sentiu um leve formigamento na testa onde sua tia traçou o símbolo e como se um calor envolvesse seu corpo, como que vindo de uma brisa quente, sentiu seus ombros mais leves. — Gratidão, tia.

Zafira acariciou a bochecha de Felon. — Não precisa agradecer. — Ela sorriu novamente. — Quando pretende ir para as Terras Ocidentais?

Enquanto Felon observava o sorriso da mulher imaginou que sua mãe sorria da mesma forma para ele, sorriu da mesma forma. — Na próxima lua.

A mulher assentiu com a cabeça. — Se você assim desejar, posso o acompanhar até chegar ao País do Oeste, depois poderá seguir sua jornada sozinho, também tenho minha própria caminhada naquele lugar.

Felon assentiu com a cabeça. — Ficarei muito feliz em ter sua companhia. — Os olhos verdes esmeralda brilharam rapidamente e o jovem teve um vislumbre de Zefrenu desaparecendo em meio às areias conforme ele e a tia seguiam em uma carroça puxada por dois cavalos em direção ao mar de Jade, e rapidamente um clarão o trouxe de volta de sua visão. — Precisamos nos organizar para a viagem. — Felon continuava com um sorriso suave no rosto.

— Certamente precisamos. —Zafira soltou um riso. — Dizem que sua primeira viagem após a Iniciação é a mais inesquecível.

Os dois então começaram a caminhar em meio a multidão, os zumbidos nos ouvidos de Felon haviam desaparecido por completo, e conforme o sol se erguia cada vez mais no céu a sombra era projetava do jovem tomou rapidamente a forma de uma serpente e então voltou ao normal sem que ele ao menos tivesse percebido.

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