Mundo de ficçãoIniciar sessãoFelon deslizava entre as dunas, como se seus pés agora fossem feitos de areia. O calor do sol já não o incomodava como antes, e a cada passo sentia também algumas criaturas do deserto em suas proximidades, serpentes e escorpiões se encontravam na espreita, escondidos entre a areia, mas a medida que o jovem se aproximava eles apenas abriam espaço para a passagem.
Após algumas horas conseguiu avistar ao longe mais viajantes indo em direção à cidade montados em camelos e dromedários, e a vegetação ficava cada vez mais presente, e o céu azul claro aos poucos se tornava alaranjado a medida que o sol se punha nas costas de Felon. Apesar da viagem ter sido mais tranquila ele estava cansado, suas pernas e pés doíam, ele foi então até algumas árvores e tirou o peso da bolsa das costas e se sentou encostado no tronco e ficou observando a brisa noturna soprar a areia suavemente entre as dunas, Felon puxou seu cantil e bebeu a água devagar enquanto via a escuridão engolir o dia, e se perguntou como Rá fazia sempre o mesmo trajeto todos os dias sem nunca se cansar, trazendo a luz para essa terra arenosa e desértica e depois descer ao Submundo e lutar para ter mais uma chance de trazer a esperança de um novo dia para os Povos do Deserto. O jovem tornou seu olhar para a lua minguante, com seu brilho prateado fazendo uma orla ao seu redor, tentou buscar a constelação de Órion, mas apenas conseguiu avistar ao longe a constelação de Aquário, e próximo a lua Vênus se destacava com seu brilho amarelado. Felon passou longos minutos em silêncio apenas encarando o céu e pensando sobre a noite anterior e depois na forma como Zahir o ficava encarando mais cedo, e soltou alguns risos da forma como aquele homem falava com ele, balançou a cabeça levemente e aos poucos voltando do seu devaneio. Felon se levantou e percebeu que entre algumas árvores a sua direita vinha um cheiro de terra e areia molhada, tirou as botas e foi até lá, haviam alguns arbustos um pouco mais verdes que o restante da vegetação e percebeu que corria um rio lá, com algumas vitórias régias pequenas, e o coaxar dos sapos trouxe melodia ao ambiente, como uma pequena orquestra natural. Felon tirou a capa, o lenço e a camisa e os deixou próximo a um arbustos, se ajoelhou na margem e percebeu que um sapinho marrom o encarava de uma vitória régia, o jovem ficou imóvel e observava a pequena criatura com um sorriso suave no rosto, então o sapo coaxou e pulou na água e saiu nadando junto a corrente fraca. Felon soltou um riso e então pegou um pouco de água com as palmas das mãos e molhou o rosto, apesar de não ter sentido calor durante o dia, seu corpo havia transpirado mais que o normal, e o suor fazia com que as duas tatuagens reluzisse um pouco sob o luar, Felon se levantou e tirou sua calça e deixou junto com as outras roupas e entrou no rio, foi abaixando o corpo aos poucos na água, apesar de não ser muito largo era mais profundo que esperava, ele fechou os olhos, respirou fundo e mergulhou, sentindo seus cabelos dançarem em volta de sua cabeça e ao abrir os olhos viu alguns sapos e girinos nadando a sua volta, assim como alguns peixes mais escondidos entre as algas, e foi indo até a superfície, e deparou com Zahir o observando sentado na margem, seus olhos castanhos o encarava, e ele alisava sua coxa enquanto Felon estava perplexo no meio do rio. — Está é a segunda vez no mesmo dia que te encontro pelado. — Zahir sorria de canto de rosto. — Tem algum problema com roupas? Porque se tiver posso sumir com as suas bem rápido. — Deu uma piscadela. Felon corou um pouco, mas não estava envergonhado, apenas perplexo, não esperava encontrar Zahir novamente tão rápido, ficou alguns segundos o encarando de forma séria, mas não aguentou a piscadela e começou a rir. — Acredite em mim, apenas uso roupas por obrigação social. — Felon passou a mão nos cabelos os jogando para trás da cabeça. — Eu acredito sim. — Ele admirava o corpo de Felon, sua pele morena, olhos verdes e acima de tudo as misteriosas tatuagens no peitoral o deixavam fascinado. — Espero que não se importe que eu me banhe no rio também. — Ele arqueou a sobrancelha e sorriu. Felon apenas balançou a cabeça, e então Zahir se levantou e foi tirando suas botas e suas roupas pesadas e as deixando ao lado das de Felon. O corpo do homem era um pouco mais definido que o de Felon, sua pele cor de oliva era um pouco mais escura no rosto e nas mãos, ele foi entrando devagar também no rio, deixando a água tocar aos poucos seu corpo, que se arrepiou ao sentir a água fresca, ele parou na frente de Felon e seu cabelo preto e seu cavanhaque parecia ser feito da própria noite. — Estou começando a achar que me enganou. — Zahir falou baixo ao se inclinar para perto do ouvido de Felon. — É um Tritão e não um nômade, tamanha beleza só pode vir de uma criatura sobrenatural. Felon riu colocando as mãos na nuca e se afastou um pouco. — Está procurando alguma cauda? — E então virou de costas e mergulhou, batendo os pés e espirrando água em Zahir. Zahir riu também e tirou o cabelo do rosto e mergulhou através de Felon, ao abrir os olhos viu o jovem a alguns metros nadando entre as águas, suas pernas eram bem definidas e o ajudavam a nadar bem rápido, Felon então parou e ficou o olhou de lado esperando se aproximar, e se surpreendeu ao perceber que Zahir também conseguia nadar bem rápido, suas braçadas na água eram bem ágeis, e quando jovem percebeu que ele estava perto tentou nadar, mas o homem segurou rapidamente suas duas pernas e o puxou para perto e o prendeu entre os braços e ambos subiram até a superfície. — Estou começando a achar que você persegue os Povos Nômades da região. — Felon falou ao tomar fôlego, sua pulsação do coração estava acelerada e a tatuagem de Vênus estava ardendo levemente sob seu peito. — Não sou quem está desfilando pelado no meio do deserto, vai acabar indo trabalhar em um bordel se continuar assim. — Zahir ria de Felon, a expressão ruborizada do jovem o divertia, e os corpos dos dois juntos despertava aos poucos uma sensação de êxtase, deixando os pelos ralos de seu corpo arrepiados. — E você não parece exatamente estar odiando isso. — Zahir apontou com a cabeça para o corpo de Felon também arrepiado, e trançou as pernas dos dois. — Parece que eu peguei sua cauda. — O homem sussurrou no ouvido de Felon. — Está tão desesperado para dormir comigo que precisa me segurar? — Felon perguntou rindo, sua voz era suave e firme, seus olhos verdes brilhavam, e sentia seu sangue quente percorrer as veias de todo corpo e percebeu que o corpo de Zahir reagia da mesma forma, e o homem o soltou aos poucos, Felon então se afastou e foi para a margem onde se sentou com as pernas abertas, apenas com os pés submersos na água. Zahir permaneceu no meio do rio o observando, agora seu rosto estava corado, e então ele desviou o olhar para as vitórias régias. — Como chegou aqui tão rápido? De onde estávamos demoraria três dias de viagem à pé. — Sua voz estava baixa e seu sotaque fazia com que as últimas palavras saíssem um pouco emboladas. — Como acha que cheguei até aqui tão rápido? — Felon perguntou enquanto brincava com os pés na água, sem nem ao menos olhar para Zahir, estava tentando se distrair do êxtase que sentiu conforme a tatuagem esquentava seu peito, como se em seu peitoral houvesse um pequeno sol. — Eu já conheci Nômades antes e sei que alguns possuem habilidades. Mas nunca vi acontecer diante dos meus olhos. — Zahir o encarou com olhar curioso. — Acredito que sejam os mistérios do deserto. Felon arregalou os olhos e encarou Zahir rapidamente e parou de brincar com a água. — O que você sabe sobre Mistérios? Zahir recuou, e abraçou seus braços e seu rosto corou, e então coçou a garganta. — Você é um mistério, Felon, é apenas isso que eu sei. — E então nadou para perto do jovem. — Assim como todo seu povo, todos acreditam que sabem o que vocês são e o que fazem, mas ninguém faz a menor ideia. Felon desviou o olhar. — Nisso está certo. — Falou baixo. Zahir então saiu do rio e vestiu a calça. — Boa noite. — Ela pegou o restante das roupas e os sapatos e saiu com passos leves em direção à algumas árvores a sua frente e desapareceu entre elas. Felon deitou com a cabeça na margem mais seca do rio e ficou encarando o céu e percebeu que Vênus já não estava brilhando ao lado da lua, havia desaparecido, assim como o calor que irradiava de sua tatuagem agora era inexistente. O jovem percebeu também que até mesmo a lua estava quase desaparecendo em meio a escuridão da noite e ali mesmo adormeceu.






