Capítulo 4

As ruas agitadas faziam os ouvidos de Felon arderem após silêncio confortante do Templo de Ísis, e as palavras da sacerdotisa ainda ecoavam no âmago de sua alma. Sua mente vagava novamente para sua iniciação no oásis, e especialmente a invocação da Senhora dos Mistérios que sua ancestral havia feito. — Sempre me chame quando precisar de ajuda, da mesma forma que sua mãe o fazia. — Ela havia dito e a frase ecoava em sua mente, fazendo com que dos comerciantes anunciando suas mercadorias fossem ecos distantes de um tempo que já havia passado há muito tempo.

— Felon! — chamou uma voz masculina um pouco mais rouca e firme que a de Felon, fazendo com que o mesmo saísse subitamente de seus devaneios e buscando de onde vinha o chamado, e então se deparou com um homem alto, com pele morena e olhos castanhos escuro, barba feita, usando roupas pretas bem fechadas com uma capa e botas de couro marrom. Os cabelo castanho

escuro com alguns fios grisalhos estavam levemente bagunçados. O homem sorria para Felon, seu olhar era profundo e acolhedor, mal dava para perceber as olheiras que se formavam abaixo dos olhos.

O jovem atravessou a rua após algumas carroças e cavalos passarem. — Pai! — O homem ergueu os braços e Felon o abraçou. — Vamos para um lugar mais privado. — O pai de Felon o guiou até uma rua mais tranquila, havia alguns caixotes empilhados encostados em uma parede alta e um gato amarelado dormindo em um galho de uma árvore.

O homem olhou ao redor procurando por qualquer um que poderia escutar a conversa, quando não encontrou ninguém olhou profundamente nos olhos verdes esmeraldas de Felon os mesmos olhos que sua esposa tinha e por um breve momento sentiu como se ela o estivesse vendo através de seu filho.

Ele segurou os braços de Felon e respirou fundo.

— Como foi a viagem? — O corpo do pai parecia rígido e as palavras saíram devagar da sua boca, com certo peso e tensão que não pertenciam ao homem.

— Tudo ocorreu bem. — Felon respirou fundo e piscou os olhos, e por um breve instante foi como se estivesse novamente diante da fogueira no oásis, até mesmo sentiu o cheiro das ervas queimando no fogo. — A iniciação foi concluída. — O Jovem puxou a camisa para cima e seu pai viu as tatuagens, dois círculo perfeitos no centro do peitoral, um completamente vermelho ao lado do outro totalmente amarelo.

A tensão aos poucos deixou os ombros do pai, e ele respirou fundo e soltou os braços do filho.

— É apenas o início, não é? — Felon perguntou suavemente, e seus olhos brilharam rapidamente, buscando confirmação de algo que em seu íntimo já sabia.

— Sim, meu filho, mas você não deve temer, nossos ancestrais irão te guiar em cada passo da caminhada — Ele segurou a mão esquerda de Felon com as suas duas mãos e apertou. —, para onde essa estrada te levar eles já estarão lá, jamais esqueça disso. — E então soltou aos poucos as mãos do filho.

— Pai, o que eles querem comigo? — Seus olhos percorriam a expressão do pai em busca de qualquer resquício de resposta.

O homem apenas sorriu de canto de rosto e acariciou o rosto do jovem.

— Apenas reparar erros do passado.

Quando Felon iria abrir a boca os dois ouviram vários gritos vindo da avenida principal. Ambos se olharam brevemente e correram para ver o que estava acontecendo.

As ruas estavam um completo caos, comerciantes correndo e deixando suas mercadorias para trás, os animais corriam desgovernados, as mulheres tentando proteger seus filhos, estavam chorando desesperados, os sacerdotes estavam subindo a avenida carregando pergaminhos grossos de papiro, já as sacerdotisas tentavam acalmar os cidadãos sem muito sucesso.

Os ouvidos de Felon estavam zumbindo alto e doíam, já seu pai havia corrido para o meio da multidão para ajudar uma mãe que caiu no chão com duas crianças pequenas. Felon estava prestes à ir atrás quando escutou um rugido alto, trazendo consigo uma ventania que fazia as árvores balançarem e várias pessoas caírem, até mesmo algumas cestas voaram e barracas tremeram, quando o jovem virou seu olhar em meio ao caos para a origem do som seu coração começou a pulsar freneticamente, e suas mãos tremeram e esfregou seus olhos com força três vezes, respirou fundo e seu corpo todo estava arrepiado quando encarou no alto da pirâmide e viu se erguer a figura imponente da esfinge, suas presas eram afiadas como lâminas e brancas como mármore, penas douradas coroavam sua cabeça, como se a criatura irradiasse o próprio sol. A graça de Ísis caiu sob aquela criatura, que mesmo a distância qualquer um poderia sentir a sua força, e aqueles mais sensíveis ficavam paralisados com seu poder e desmaiavam com tamanha magnificência, os deuses haviam sorrido para aquela criatura e nem mesmo os sacerdotes e sacerdotisas conseguiam acreditar no que estava diante dos seus olhos.

A pele morena de Felon começou a brilhar, como se em meio a população seu corpo e alma respondesse o chamado da Esfinge, e os olhos do jovem reluziam como esmeraldas incandescentes, seu corpo vibrava e quando sua visão começou a turvar a criatura abriu suas enormes asas douradas, fazendo com que um vendaval percorrer todos os arredores, o capuz que cobria a cabeça de Felon caiu para trás e seu lenço quase voou para longe, junto com as cestas de mercadorias da rua, assim como os chapéus e lenços das pessoas, o vento era tão forte que levou algumas crianças junto e até mesmo algumas árvores.

Felon entrou em completo transe quando percebeu que os olhos de rubis da esfinge o encaravam de cima da pirâmide, todo calcário começou a escorrer como água da estrutura.

— A serpente que morde a própria cauda rasteja pela sua estrada, com o morcego pálido seguido pelo luar, terá que quebrar o que outrora sua linhagem não conseguiu, a porcelana que por pouco não se partiu. — Felon escutava a voz alta e impotente ecoar atingindo o âmago de sua alma e em seus ouvidos junto ao zumbido. e como em um piscar de olhos a criatura simplesmente desapareceu, deixando todos nos arredores perplexos com o que tinham visto, afinal ninguém conseguia se lembrar como a grande Esfinge apareceu. E Felon após receber a mensagem caiu de joelhos e sua visão foi turvando aos poucos, e como eco distante escutou seu pai o chamando antes de perder a consciência.

— O que aconteceu? — Felon acordou em uma cama com um lenço úmido em sua testa. Estava em um quarto simples, com paredes de terra alaranjada, sendo iluminado pela luz diurna que entrava por uma janela ao lado da cama. Seu olhar percorreu todo o cômodo, a porta estava fechada e havia uma outra cama ao lado, e na parede ao lado da porta de madeira, que estava fechada, havia uma mesa com uma lâmpada de bronze apagada, um jarro e dois copos de barro. Felon olhou para o seu pai, estava sentado em uma cadeira de madeira na ponta da cama.

— Filho! — falou o pai. — Você desmaiou quando a Esfinge sumiu.

Os pensamentos de Felon estavam turbulentos, ele se lembrou da criatura imponente em cima da pirâmide e da mensagem que lhe foi passada. Sua cabeça girava um pouco e lhe causava náuseas. — Sim... —Ele respirou fundo. — Agora me lembro... — O jovem olhou para seu pai preocupado. — A Esfinge falou comigo... Sua voz ecoava forte na minha cabeça, como se eu estivesse ouvindo com minha própria alma e não com meus ouvidos, apesar do zumbido agoniante que ecoava por eles.

As sobrancelhas grossas do pai de Felon se levantaram e o homem arregalou os olhos. — A Esfinge falou com você...? — Ele desviou o olhar brevemente, logo se lembrou da mãe de Felon, e como seu filho estava da mesma forma que ela quando o Grande Mistério lhe deu o chamado. O homem respirou fundo. — O que a criatura lhe disse? — Suas palavras foram pronunciadas lentamente, como se temesse a resposta.

— A serpente que morde a própria cauda rasteja pela sua estrada, com o morcego pálido seguido pelo luar, terá que quebrar o que outrora sua linhagem não conseguiu, a porcelana que por pouco não se partiu. — Felon repetiu cada uma das palavras com cautela, temendo que a figura da Esfinge surgisse diante dos seus olhos.

Seu pai observava atentamente o jovem recitar a profecia.

— Você entendeu o que essas palavras querem dizer? —Felon apenas balançou a cabeça em negação e se sentou na cama, seu pai respirou fundo e sentou ao seu lado. — Sua mãe recebeu o mesmo chamado após seu nascimento... É claro que a profecia era diferente, eram outros tempos de qualquer forma... — O pai coçou a cabeça com a mão direta.

— Do que isso se trata?— Felon perguntou.

O homem respirou fundo e olhou nos olhos do filho, os olhos verdes esmeralda o encararam com a mesma profundidade que o da sua esposa fez outrora. — Reparar um erro que a linhagem cometeu há muito tempo, sua mãe quase conseguiu, mas foi impedida, e isso eventualmente levou ao seu desencarne.

— O que a linhagem dela fez? — Felon perguntou intrigado.

O homem colocou a mão no ombro do filho.

— Apenas a Anciã pode responder essa pergunta. — Ele desviou o olhar. — Nem mesmo sua mãe me revelou muitos detalhes, apenas seguiu a jornada para onde sua tarefa a levava, nas Terras Ocidentais depois do Mar de Jade.

Felon respirou fundo e se levantou, foi até a janela do quarto e encarou os cidadãos de Zefrenu se reerguendo após o caos que a Esfinge trouxe. — Terei de falar com ela então, nessa noite. — Ele se virou para o pai. — Terei de fazer a mesma jornada, não é?

— Quando o Mistério lhe dá uma tarefa a cumprir não se pode fugir. — Ele se levantou e olhou para os olhos verde esmeralda de Felon. — Isso eu aprendi com a sua mãe.

— O oásis está longe, não posso voltar lá. — O jovem respondeu.

— E nem deve. — As palavras do pai eram duras. — O local da iniciação apenas se revela duas vezes, e a segunda vez é para se unir permanente ao Grande Mistério.

— No desencarne… — Felon sussurrou.

O pai concordou com a cabeça.

— Então onde irei falar com a Anciã? — O jovem perguntou arqueando a sobrancelha. — Não posso acender uma fogueira no meio da cidade e chamar a presença da minha ancestral.

O pai não conteve o riso e tirou os cabelos da testa do filho. — Deveria confiar mais em sua intuição, a resposta virá, apenas aguarde.

Felon fechou os olhos e respirou fundo e se lembrou do Templo de Ísis, e abriu os olhos novamente. — Acredito que sei onde posso ir.

O pai sorriu e apertou o ombro do filho. — Vá se banhar e depois desça para refeição. — O homem então se virou, abriu a porta e deixou o quarto fechando a porta atrás de si.

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