Capítulo 3

Um clarão avermelhado de um enorme sol nascendo diante de uma pirâmide branca, Felon andava sob as areias mornas e usava apenas uma túnica branca curta da cintura até os joelhos, caminhava suavemente pois as dunas aparentavam serem feitas de tapetes felpudos, à medida que o sol se erguia vermelho e imponente, o jovem ergueu seus braços ao céu púrpura e alaranjado e passava as mãos por seus cabelos longos com tranças. E então aos poucos a sua visão foi clareando, e ao abrir os olhos Felon estava de volta na margem do rio, e os feixes de luz estavam atravessando as árvores, seus pés estavam submersos e ele sentia cócegas nos dedos, ao se sentar percebeu que alguns peixes os beijavam, ele riu e então e mexeu devagar os dedos fazendo com os peixes fugissem.

Ao olhar para o lado, o jovem percebeu que suas roupas haviam sumido, ele franziu o cenho. — Zahir… — Se levantou então e foi em direção para onde ele andou na noite passada, e o encontrou terminando de arrumar suas coisas em seu camelo.

Zahir ao vê-lo riu entretido, seu olhar percorria todo corpo de Felon, deixando sua pulsação rápida. — Vejo que não encontrou suas roupas.

— Você é alguma criança? — A voz de Felon era áspera, seu cenho continuava franzido.

Zahir levantou as mãos. — Talvez não devesse deixar suas coisas jogadas por aí, aparentemente terá de ir até a cidade sem cumprir obrigação social. — O homem riu enquanto fazia aspas com os dedos com quando falou as duas últimas palavras. Ele então virou de costas e subiu no camelo e olhou para Felon. — Vai aceitar ir comigo agora? — Zahir estendeu a mão para ele subir.

Felon apertou os olhos e virou de costas e foi andando para onde deixou sua bolsa.

— Sempre será uma bela vista, pelado do deserto. — Zahir riu enquanto saia com o camelo em direção às dunas.

Felon não olhou para trás em nenhum momento, ele apertava as mãos com força, fazendo as veias saltarem, sentia seu sangue correr pelas veias e esquentando cada centímetro do seu corpo. Quando chegou na sua bolsa viu que suas botas estavam lá, e ao abrir a bolsa encontrou roupas marrons parecidas com as que Zahir usava, ele pegou elas e sentiu a textura mais firme e macia. — Poderia ter falado… — Felon deu os ombros e vestiu a calça, era mais confortável que a sua anterior, assim como a camisa de linho e a capa de couro. O jovem agachou e buscou na mala por seu cantil e encontrou o lenço que Opala havia dado à ele, e logo o enrolou no pescoço, voltou até o rio para encher o cantil, tomou um pouco da água e amarrou no cinto da calça, puxou o lenço para cobrir sua boca e nariz e vestiu o capuz na cabeça, apenas seus olhos eram visíveis, e foi em direção às dunas.

Ao entrar em contato direto com o sol percebeu que essas roupas eram mais frescas também, e mais confortáveis para andar. Felon continuou a deslizar sob a areia, de duna em duna e após algumas horas conseguiu avistar ao longe a muralha Zefrenu e sua grande pirâmide no centro da cidade.

O sol estava no meio do céu quando o jovem chegou na cidade, a muralha era enorme, feita de blocos grandes de pedras amareladas e com dois guardas, um de cada lado do Arco de entrada, usando botas de couro marrom, kits brancos com um avental triangular e com uma esfinge dourada no centro,da cintura até os joelhos. Eram homens altos e robustos com pele de oliva, com torso nu e braceletes dourados nos pulsos, em volta dos olhos maquiagem preta, que seguiam o contorno dos olhos, sem sobrancelhas e cabelo.

Logo na entrada da cidade havia uma enorme fonte feita de pedras brancas e no centro uma esfinge de mármore, e asas abertas, com as patas dianteiras erguidas e de sua boca aberta jorrava a água da fonte.

As ruas eram lotadas e haviam várias lojas e vendedores ambulantes, passando com camelos, dromedários e até mesmo algumas carroças puxadas por cavalos pretos. A fonte era o centro de uma encruzilhada logo na entrada, com duas ruas que seguiam à muralha, duas ruas diagonais e a avenida principal que seguia em direção à pirâmide branca, com sua ponta de ouro reluzindo no topo.

Haviam muitas crianças correndo e os pais sempre a espreita observando enquanto negociavam com os mercadores locais, haviam algumas barracas com comidas exóticas com cheiro delicioso, e logo os ouvidos de Felon começaram a doer levemente por causa do baralho das pessoas conversando e a movimentação dos veículos.

Enquanto o jovem caminhava pela avenida principal notou várias árvores com folhas de um verde vívido, vários gatos, de diversas cores, se deitavam nas sombras das árvores e nas praças, onde as pessoas deixavam água e alimento. Felon também percebeu vários obeliscos brancos enormes, com desenhos de esfinges iguais à fonte. Também percebeu que apenas os prédios mais sofisticados eram pintados de branco, e a maioria das outras construções seguiam um padrão de cor mais arenoso.

Após andar por algumas quadras viu um grande Templo de arenito dedicado à Ísis, havia algumas sacerdotisas da Deusa andando pela praça ao redor da construção, usavam kilts brancos que cobriam todo corpo com colares de ouro e um cinto preto com detalhes dourados amarrado na cintura, sandálias de papiro e um véu que cobria toda cabeça, deixando apenas os rostos bronzeados à vista. Felon se aproximou do local e viu o pátio aberto, com um belo jardim, onde haviam várias árvores e flores das mais diversas cores e espécies, e no centro havia uma estátua enorme feita de ouro de Ísis, o olhar da Deusa era acolhedor e transmitia força e poder ao mesmo tempo, suas asas estavam abertas e sua coroa solar refletia um tom avermelhado. Haviam alguns sacerdotes com roupas semelhantes às sacerdotisas, porém eles não usavam véu e tinham a cabeça totalmente raspada.

— Pode entrar se quiser, a Grande Deusa acolhe à todos que chegam em seu Templo. — Falou uma voz suave e feminina atrás de Felon.

Ao se virar viu que se tratava de uma jovem sacerdotisa, seus olhos tinham cor de âmbar, e sua maquiagem também seguia o mesmo contorno que os dos guardas, sua pele um pouco mais avermelhada e abaixo do olho esquerdo havia um Ankh preto tatuado. Felon se perdeu na beleza da moça por alguns segundos, nunca havia visto uma mulher tão bela em sua vida. — Perdão, não quis atrapalhar sua passagem.

A sacerdotisa sorriu e seus dentes brancos brilharam brevemente, era um sorriso doce e leve. — Não atrapalhou de forma alguma, o convite foi legítimo. — Ela então seguiu em direção ao pátio. — Muitos viajantes passam no Templo antes de fazerem suas obrigações na cidade. — A sacerdotisa tinha passos leves e suaves, não emitia qualquer som ao andar, parecia que estava flutuando enquanto seguia em direção a estátua no centro do recinto.

Felon a seguiu, mas ficou um passo atrás. — Suponho que venham para agradecer à Deusa por terem chegado na cidade. — Falou quase ofegante com sua voz rouca, a sacerdotisa andava mais rápido do que sua graciosidade deixava transparecer.

A Sacerdotisa olhou para ele e sorriu novamente. — Supôs certo. — Ela falou então parou diante a estátua, ela então abriu um pequeno compartimento abaixo dos pés da Deusa e tirou uma tigela dourada com um pó dentro marrom claro, e fechou a portinhola em seguida. A sua expressão ficou séria e olhava fixamente para o conteúdo da tigela, e então uma pequena chama azul surgiu no centro e começou a queimar o pó, a Sacerdotisa soprou apagando a chama e uma fumaça esbranquiçada começou a subir e perfumar o ambiente com um aroma terroso, amadeirado, quente e ligeiramente adocicado ao mesmo tempo.

— Mirra? — Felon perguntou ficando ao lado da jovem e vendo o incenso queimar.

— É o meu preferido. — Ela sorriu para a imagem da Deusa. — E gosto de pensar que é o Dela também. — Ela repousou a tigela entre os pés da estátua e se virou para Felon. — Sou Dália. — A sua voz era doce e pacífica.

— Felon. — Ele sorriu e estendeu a mão. — É um prazer conhecê-la.

— O prazer é meu, Felon. — Dália olhou para mão de Felon e depois seu olhar subiu para seus olhos verdes esmeraldas. — Não posso tocar em nenhum homem, vai contra meus votos.

— Perdão… — Felon recolheu sua mão, seu rosto corou um pouco, e percebeu que ainda estava com o lenço cobrindo parte de seu rosto e então baixou o capuz e tirou o lenço, na qual a sacerdotisa ficou admirada.

— É um belo lenço, como conseguiu? — Seus olhos âmbar brilhavam conforme Felon erguia o lenço para ela vê-lo melhor.

— Foi um presente. — Felon respondeu ainda envergonhado.

Dália sentiu o aroma forte de ervas queimando na fogueira e percebeu que pequenas ondas invisíveis irradiavam do lenço. — É um presente da sua iniciação. — A Sacerdotisa fechou os olhos suavemente, como se pudesse visualizar o momento em que a Anciã presenteou Felon e todo seu ritual de iniciação. Ela abriu os olhos devagar e olhou fundo nos seus olhos verdes. — Também carrega as marcas, consigo sentir, e são bem recentes. — Ela se aproximou, ficando apenas um passo de distância de Felon e continuava a encarar bem fundo nos seus olhos. — O Mistério ainda há de se revelar a você, Felon dos Povos Nômades. — A voz de Dália saiu diferente, como se tivesse mais alguém falando através de sua boca, com tom forte e hipnótico, então a Sacerdotisa piscou e se afastou devagar e respirou fundo e abaixou o olhar para o piso de pedra pálida. — Perdão, mesmo com os anos de iniciação às vezes as mensagens vêm fora dos rituais.

Felon estava com os olhos arregalados, seu corpo inteiro havia arrepiado desde do momento em que Dália havia ficado tão próximo, e continuava da mesma forma, as tatuagens estavam formigando. O jovem respirou fundo e então olhou para a imagem imponente de Ísis. — Foi por isso que me convidou para entrar aqui?

Dália suspirou e subiu seu olhar para a Deusa também. — Não importa quais sejam as mensagens Dela, minha iniciação instruí que apenas podem ser transmitidas dentro do Templo.

— Por que? — Felon perguntou sem tirar o olhar da estátua.

— Não se sabe quem também pode estar escutando. — A Sacerdotisa olhou novamente para Felon e seus olhares se encontraram, sorriu brevemente com o canto da boca e então se afastou com uma leve reverência, assim como o próprio Felon fez.

O jovem tornou a olhar novamente para a Deusa e um arrepio percorreu seu corpo, as tatuagens ainda estavam formigando.

— O Grande Mistério se apresenta de diversas formas. — A voz áspera da Anciã sussurrou nos ouvidos de Felon como uma brisa gélida. Ele respirou fundo, colocou o lenço em volta do pescoço, vestiu o capuz, e antes de deixar o Templo fez uma reverência à Ísis.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App