Sussurro da Serpente
Sussurro da Serpente
Por: Gabriel Assis
Capítulo 1

A paisagem amarelada deixava os olhos de Felon cansados, para onde quer sua vista alcançava era uma grande imensidão de areia.

Seus pés doíam enquanto caminhava, e mesmo protegendo sua pele com suas roupas e os lenços de cores claras sob a cabeça, ainda sim o sol queimava.

Não havia qualquer nuvem em meio ao céu azul, Felon tentava examinar a paisagem, pegou seu cantil amarrado na cintura e tomou os últimos goles de água, o líquido descia gelado em sua garganta e aos poucos revigorava seu corpo, para dar continuidade a caminhada.

Passou mais algumas horas subindo e descendo entre as dunas, vez o outra seus pés afundavam, fazendo com aquela areia fina e quente entrasse em suas botas e queimava levemente seus pés até esfriar aos poucos.

O jovem estava quase perdendo a esperança de que iria encontrar um lugar para montar acampamento, quando encarou o sol novamente, pela sua posição Felon supôs que era quase três horas da tarde, e nesse momento sentiu a atmosfera abafada se dissipar um pouco para dar espaço à uma brisa fresca, e então tornou a caminhar e quando subiu mais uma duna seus olhos se encheram de lágrimas ao se deparar com um pequeno oásis à sua frente, correndo e tropeçando entre a areia foi até lá, parando a sombra das palmeiras e se ajoelhando no leito do lago azul esverdeado, tirou o lenço que cobria seu rosto e molhou seus lábios secos na água gelada. O jovem fechou os olhos e permitiu seu corpo ser dominado nesse êxtase, sentiu o frescor percorrer sua pele e sua alma parecia estar viva novamente. Ao abrir os olhos removeu a bolsa pesada das costas e tirou as botas, a areia que saía escorreu formando duas pequenas dunas em meio ao chão terroso e levemente áspero, o jovem então aos poucos removeu o lenço que cobria sua cabeça e sua camisa bege, e olhou seu reflexo na água. Seus olhos verdes cintilavam pelo brilho do sol, assim como sua pele morena, ele percebeu que havia emagrecido um pouco com a caminhada no deserto, seu rosto estava um pouco mais finos e olheiras quase imperceptíveis se formavam abaixo dos olhos, seu cabelo castanho escuro estava mais longo e um pouco desgrenhado.

E tocou a superfície do lago com as mãos e seu corpo todo arrepiou, brincou um pouco com a água até então tirar sua calça preta e deixou na margem, próxima a bolsa e o cantil, entrou na água devagar, permitindo que seus pés aos poucos sentissem o frescor conforme adentrava.

O jovem suspirou profundamente quando a água parou na altura de sua cintura e então mergulhou rapidamente, quando voltou a superfície jogou seu cabelos para trás que caíram em cascata em suas costas, ele sorriu e soltou alguns risos, e então escutou um chamado surrado em seus ouvidos.

— Hoje a noite é lua minguante… — Era uma voz áspera e feminina que falou rapidamente e se dissipou conforme uma brisa quente começou a soprar. Felon respirou fundo e mergulhou mais uma vez e quando voltou a superfície ficou boiando no lago enquanto encarava o céu, seus cabelos dançavam ao redor de sua cabeça, e sua mente estava inquieta. Ele sabia o que precisava fazer durante a noite. — Quando os ancestrais sussurram é necessário escutar. — Ele falou devagar com sua voz levemente rouca, e então fechou os olhos.

Começava a anoitecer aos poucos, e Felon caminhou lentamente até a margem, deixando seu corpo secar naturalmente. Naquele momento não sentiu necessidade ainda de vestir suas roupas, queria que a brisa noturna tocasse cada centímetro de seu corpo, deixando o jovem arrepiado e com uma leve sensação de êxtase.

Seus olhos verdes esmeralda se perderam no crepúsculo com tons de laranja, vermelho e amarelo conforme o céu se tornava púrpura e adiante um azul tão profundo quanto o oceano. Felon aos poucos foi voltando do seu devaneio ao ver aos poucos a lua minguante surgir pequena e próxima à constelação de Órion, o jovem sabia que o momento estava chegando, então vestiu sua calça preta e enrolou seu lenço no pescoço e foi em busca de alguns troncos e pedras para fazer uma fogueira.

Cada vez mais estrelas surgiam no céu, e um ponto vermelho e outro amarelo, de lados opostos, ficavam maiores. A lua estava maior e quase chegava ao centro quando por fim o jovem terminou de montar a fogueira e começou a acender utilizando duas pedras. A brisa soprava suavemente e ficava cada vez mais gélida, Felon tremia levemente, mas procurava se concentrar e não permitia se abalar, pois após as altas temperaturas do deserto um pouco de frio era bem-vindo. Quando conseguiu acender a fogueira todo o oásis se iluminou com as chamas vermelhas e amareladas. O jovem se levantou e foi até a mochila e pegou um pequeno saco preto e retornou para perto do fogo, ele respirou fundo e deixou seu olhar percorrer a fumaça que subia em direção ao céu, e então a lua minguante, junto com o ponto vermelho e o amarelo formavam um perfeito triângulo cósmico, e Felon estava justamente no centro com sua fogueira, ele abriu o saco e tirou uma mistura de ervas com cheiro forte, que causavam até mesmo um certo amargor em sua boca, fechou os olhos e levantou os braços em prece diante das chamas crepitando. Com a voz rouca e firme ele recitou:

— Força Sagrada, força do fogo, e através do vento com esse sopro chamo pelos espíritos dos ancestrais, a Grande Senhora da Lua Minguante e seus saberes abissais, responda o chamado através dos aromas das santas ervas, aquelas que carregam a sabedoria de todas as eras! —Felon juntou as mãos com a mistura de ervas nas suas palmas, respirou fundo, fechou os olhos e franziu o cenho e soprou com a mesma intensidade das brisas gélidas que tocavam seu torso nu. O fogo começou a crepitar e as chamas ficaram mais altas, aos poucos um tom vívido de verde se uniu ao amarelo e cobrindo totalmente o vermelho, uma fumaça esverdeada com cheiro forte subia ao céu, deixando Felon com estômago revirando, ele abriu os olhos suavemente, e então percebeu que em meio às chamas uma sombra começava a ganhar forma de uma silhueta alta, com véu escuro cobrindo parte dos olhos, pele morena e enrugada com rosto com traços fortes e levemente pontiagudo, nariz aquilino e boca fina com lábios roxos. A figura carregava um cajado robusto na mão direita esquelética, que não era queimado nas chamas, e encarava Felon com os mesmos olhos verdes esmeraldas.

O jovem curvou em reverência e olhou diretamente para a mulher e antes que pudesse dizer qualquer coisa ela abriu a boca e sua voz áspera ecoou por todo o oásis:

— A cidade está próxima, Caminhante das Areias, que a força do nosso povo esteja com você. — Sua presença era pesada e deixava o corpo de Felon todo arrepiado. Ela estendeu sua mão esquerda. — O lenço.

Felon tirou cuidadosamente o lenço claro de seu pescoço e o entregou para a mulher, que passava o tecido nas chamas e depois em seu cajado, e por fim passando em seu rosto e o soprou suavemente, com um hálito tão gélido quanto a própria noite e aos poucos a coloração ficou ficando azul e púrpura com pequenos detalhes prateados. A mulher estendeu de volta para o jovem, que pegou logo em seguida. Ela tornou seu olhar sério para o céu e apontou para o ponto vermelho e em seguida para o amarelo. — Você nasceu em uma noite como essa, eu me lembro…— Seus olhos brilhavam conforme falava. —, quando Marte e Vênus se encontram no céu noturno. — A mulher tornou a olhar para Felon. — E nessa noite você renascerá. — Seus lábios curvaram levemente, formando um sorriso torto, que logo desapareceu. —Remova suas roupas.

O rosto de Felon corou levemente enquanto tirava a calça e ficava em pé diante da anciã. — Senhora. — Ele curvou a cabeça em mais uma reverência, em pé a mulher era poucos centímetros mais alta do que ele.

— Felon dos Povos Nômades, está pronto para ser iniciado diante do Grande Mistério? Com os astros do céu como suas testemunhas.

— Estou. — Ele respondeu com a voz firme.

A mulher estendeu a mão e tocou o centro do peito do jovem, o coração dele pulsava rapidamente e todo seu corpo estava arrepiado, sentindo o toque. — O Filho de Marte e Vênus vem até o Grande Mistério, ele o saúda, ele o respeita e agora está pronto para se unir à Ele. — A mulher ergueu seu cajado em direção à lua. — Grande Deusa Anciã, a Senhora que é o próprio Mistério, aquela que conhece o linear entre a vida e a morte, a Guardiã dos Mundos Mortal e Espiritual, eu Opala, que um dia pertenceu aos Povos Nômades clamo à ti como sua Sacerdotisa e peço por sua benção e permissão para esta iniciação, que tua Sabedoria Arcaica seja derramada sobre a alma desse, agora homem, e que ele se lembre do conhecimento ancestral que seu espírito carrega no decorrer de suas encarnações na terra, e que acima de tudo use com sabedoria esses conhecimentos, pois aquele que não honra seu juramento e sua iniciação ao Grande Mistério paga com sua própria vida. Que assim seja! — A mulher tirou sua mão do peito do jovem e abaixou o cajado. — Caminhe na Sombra e na Luz, Felon dos Povos Nômades, use seu lenço para se proteger, pois ele é o símbolo da sua União com o Grande Mistério, que a Grande Deusa e seus ancestrais o abençoe, da mesma forma como eu aqui e agora o abençoo. — A senhora deu uma piscadela e olhou para o triângulo cósmico se desfazendo conforme a lua ia suavemente para o horizonte. — Sempre me chame quando precisar de ajuda, da mesma forma que sua mãe o fazia. — Aos poucos sua figura foi ficando cada vez mais translúcida até se tornar apenas sombras.

As chamas da fogueira diminuíram e voltaram à tonalidade original até se apagarem por completo conforme o sol nascia no leste, iluminando aos poucos as dunas. Felon encarava pacificamente os tons de azul, rosa e amarelo claro que surgiam na paisagem matutina, mas seu coração ainda pulsava rapidamente, a náusea havia passado, mas seu corpo ainda era domado por um frenesi que não conseguia encontrar palavras para descrever. Ele sentia aos poucos sua cabeça começar a pesar conforme lapsos de memórias antigas surgiam em seu cérebro: cidadelas de pedra, palmeiras, algumas pessoas, a constelação da Ursa Maior, florestas vastas, planícies desérticas, e por fim uma enorme Esfinge rugindo em cima de uma pirâmide. As pálpebras de Felon ficavam pesadas e tudo ao redor começou a girar até se desfazer em clarão e ele cair de costas próximo a fogueira apagada.

Quando acordou o sol estava bem alto no céu, e seu corpo nu estava coberto com uma leve camada de areia, seus olhos estavam coçando, havia um homem ajoelhado ao seu lado.

— Amigo, está tudo bem? — Ele tinha sotaque carregado, cabelos negros e pele cor de oliva. — Eu o encontrei aqui há alguns minutos.

Os pensamentos de Felon ainda estavam confusos, sua cabeça ainda girava um pouco. — Eu acho que sim… — Ele sentou e encarou os restos da fogueira. — Apenas tive uma noite intensa. — Nesse momento o jovem escutou os risos ásperos da anciã.

O homem segurava suas costas e seus olhos castanhos encaravam o seu peitoral de Felon, foi quando percebeu que haviam duas tatuagens pequenas marcando sua pele morena, um círculo vermelho e outro amarelo, lado a lado. O homem parecia não conhecer o significado, mas olhava fascinado, mas não o suficiente para perguntar do que se tratava. Ele então sorriu suavemente.

— Consegue levantar sozinho?

— Acho que sim. — O corpo do jovem estava quente, mas não estava incomodando, nem sequer a areia em todo seu corpo estava, Felon se sentia parte daquele oásis, do deserto, de toda aquela paisagem ao seu redor. Ao tentar se levantar quase caiu novamente, e o homem o segurou, eram da mesma altura. — Gratidão. — Ele olhava o homem com um olhar curioso. — O que ele estaria fazendo aqui no meio do desenho? — Pensou. Firmou o equilíbrio. — Preciso me lavar.

O homem o guiou silenciosamente até o lado e deixou com que Felon entrasse sozinho, e ficou observando atentamente enquanto ele mergulhava e se levava nas águas. Seu olhar era curioso.

— O que faz aqui no meio do deserto? — Felon perguntou enquanto esfregava os braços.

— Sou comerciante. — Ele apontou para o camelo amarrado em uma das árvores na sombra, carregava duas bolsas grandes em cada lado. — Estou indo para a Cidade de Zefrenu. E você? — O olhar do homem percorria os olhos verdes de Felon até um pouco mais abaixo de sua cintura na água.

— Estou viajando. — Felon virou de costas e foi um pouco fundo na água.

— E veio de onde? — O homem perguntou enquanto ia mais perto do lago.

— Um pequeno povoado ao norte daqui. — Felon estava ficando com um leve rubor no rosto pela forma que o homem o encarava.

— Você parece muito com alguns Povos Nômades que encontrei em algumas rotas. Mas nunca vi nenhum deles com essas tatuagens. — Ele apontou com o queixo para o peitoral de Felon.

— Já viu muitos sem roupa? — Felon arqueou levemente a sobrancelha enquanto saia da água e logo vestiu sua calça.

— Não. — O homem riu. — Então você é um deles?

— Sim. — Felon vestiu sua camisa clara e enrolou o lenço no pescoço, ainda tinha o cheiro forte das ervas da noite anterior, mas já não deixava tão nauseado.

— Você não me disse seu nome. — O homem fala sorrindo ao se aproximar de Felon, enquanto o terminava de vestir sua capa.

— Você também não me disse o seu, mercador. — O jovem o observa com olhar atento, seu cavanhaque escuro e olhos levemente puxados.

— Sou Zahir. — o homem arqueou a sobrancelha. —, e você, pelado do deserto?

Felon soltou um riso. — Sou Felon. — Ele pegou o cantil e o encheu no lago. — Não precisa me chamar assim.

— Combina com você. — Ele riu junto, e então soltou o camelo para beber água. — Não me falou para onde está indo.

— Também estou indo para Zefrenu.

— Pode ir comigo se quiser.

Felon se aproxima dele, o encarando de cima abaixo, as roupas eram mais grossas e de tonalidade marrom, pareciam proteger bem melhor contra o sol. — É dessa forma que acaba vendo Povos Nômades pelados? — Perguntou rindo.

Zahir respirou fundo tentando controlar o riso, mas não conseguiu. — Existem várias formas de ver alguém pelado. — Ele colocou a mão no ombro do Felon e aproximou o seu rosto dele. — E você parece alguém que gostaria de descobrir.

— Não estou interessado. — Felon desviou o olhar e afastou o rosto — Terá que se contentar com suas memórias do meu banho. — Ele respirou fundo e bebeu um pouco da água do cantil. — Agradeço pela ajuda, mercador. — Felon recolheu a mochila e prendeu o cantil na calça. — Quem sabe nos esbarramos na cidade. — O jovem colocou a mochila nas costas, e piscou para o homem e logo em seguida tampou o rosto com o lenço e saiu andando entre as dunas.

— Espere! — Zahir foi atrás dele, mas quando se deu conta Felon havia desaparecido entre as dunas, como se estivesse se tornando areia. O homem coçou a cabeça sem entender. — Povos Nômades, nunca irei entender…

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