Capítulo 5

Felon caminhava silenciosamente pelas ruas agitadas de Zefrenu, os moradores continuavam a reconstruir a cidade após os danos que a Esfinge deixou.

Os pensamentos do jovem estavam enevoados, pensando na forma como a criatura estava sob a pirâmide, de forma imponente e etérea, e nas palavras que direcionou à ele. — A serpente que morde a própria cauda rasteja pela sua estrada, com o morcego pálido seguido pelo luar, terá que quebrar o que outrora sua linhagem não conseguiu, a porcelana que por pouco não se partiu. — Felon sussurrava para si mesmo, tentando entender o que tais palavras significavam, conforme andava, olhando para os seus pés, acabou esbarrando em um homem que grunhiu e se virou para Felon. — Perdão, eu estava distraído. — O jovem falava enquanto levantava a cabeça, e seus olhos arregalaram ao perceber que se tratava de Zahir, que logo sorriu ao reconhecer Felon.

— Olha se não é meu nômade preferido. — O homem arqueou levemente a sobrancelha e coçou com as pontas dos dedos seu cavanhaque.

— Zahir, não imaginava vê-lo tão cedo. — Respirou fundo e sorriu. — Por sinal obrigado pelas roupas. — Felon olhou para a vestimenta marrom que o homem havia lhe dado.

— Não precisa agradecer, espero que agora que agora passe a apreciar o uso de roupas já que estas são mais frescas. — O homem ria e Felon percebeu que ele possuía uma cicatriz pequena no canto inferior de sua boca, e um dente de ouro envelhecido. Zahir se distanciou um pouco do grupo de pessoas que estava conversando e puxou Felon pelo braço até a sombra de uma árvore, o jovem não pode deixar de notar que o homem estava com uma camiseta branca de linha com bordados dourados de cervos e uma calça preta de couro e botas marrons do mesmo material. Zahir percebeu e riu. — Apreciando a vista?

Felon revirou os olhos. — Nunca perde a oportunidade, não é?

Zahir deu os ombros. — Você viu a Esfinge na pirâmide ontem? — Seu sotaque puxava um pouco ao pronunciar o nome da criatura. — Algumas pessoas estão falando que ela apareceu lá com um raio de sol vibrante que se tornou a criatura. — Ele olhou ao redor rapidamente. — Alguns disseram que apareceu na pirâmide para mostrar o poder do Imperador e como ele está próximo aos Deuses, e já outros falaram que se trata de uma mensagem da própria Ísis, como um presságio de algo grande que está por vir. — O sotaque de Zahir puxou novamente ao falar o nome da Deusa. — E por isso teria feito aquele caos na cidade.

Felon desviou o olhar novamente pensando nas palavras da Esfinge e se lembrando nos olhos enormes vermelhos da criatura o encarando intensamente. — Eu não me lembro muito bem do que apareceu, tive um apagão e acabei desmaiando…

Zahir observava atentamente o olhar distante de Felon enquanto encarava alguns homens reconstruindo a fachada de um prédio próximo. — Eu fiquei sabendo que tem mais Povos Nômades aqui em Zefrenu. — O homem cruzou os braços. — Clã Tharim, se eu não me engano. — Ao mencionar o nome do Clã, Felon o olhou diretamente e seus olhos verdes esmeralda pareceram ter brilhado por um breve instante. — Alguns também disseram foi por causa deles que a Esfinge apareceu. — A expressão do homem estava séria, e seus olhos castanhos percorriam todo corpo de Felon, buscando por qualquer coisa que entregasse que ele sabia de alguma coisa.

— Meu Clã não tem nada a ver com a Esfinge, isso eu te garanto. — Respirou fundo. — Aparentemente informação também é uma de suas mercadorias.

O homem riu e deu os ombros. — Um bom mercador percorre os quatro cantos do mundo, e se tiver um bom ouvido pode escutar informações preciosas. — Ele ergueu os braços e apontou com o queixo para suas roupas. — Como espera que eu consiga arcar com meus gostos?

Felon apertou os olhos e suspirou. — Riqueza nunca foi muito importante para o meu povo, nossa cultura nunca foi sobre poder e sim comunidade.

— De fato, os outros Nômades que conheci falaram o mesmo. — Ele desviou o olhar brevemente para olhar um gato amarelado que foi em direção a Felon e se esfregou entre suas pernas. — De qualquer forma eu também não acredito que vocês trariam a Esfinge para Zefrenu, afinal eu vi vários do Clã, inclusive o líder, ajudando os moradores e até mesmo na reconstrução de alguns prédios.

Felon se agachou para fazer carinho no gato, que começou a ronronar. — E você não vai ajudar?

— Infelizmente vou partir para mais uma viagem no final do dia. — Ele sorriu. — E você para onde está indo?

O gato foi embora e Felon se levantou, sua expressão estava leve, tentando não deixar transmitir o assombro das palavras da Esfinge transparecer. — Indo até o Templo de Ísis.

— Um homem religioso no final das contas. — Zahir riu. — Aparentemente desfilar pelado no deserto não é a única coisa que faz para se divertir.

Felon arqueou a sobrancelha e cruzou os braços. — Ria havia lhe dito quando nos conhecemos que tive uma noite intensa. — Felon olhou para o céu, que aos poucos deixava o azul claro, deixando os tons alaranjados mais evidentes. — Preciso ir. — Felon olhou pela última vez para Zahir, os olhos castanhos do homem estava com um tom intenso, quase como se pudesse acender labaredas com eles. — Foi um prazer revê-lo. — O jovem então deixou o homem para trás e continuou sua caminhada.

— Adeus, pelado do deserto! — Zahir gritou rindo, fazendo com que algumas pessoas encararem por alguns segundos.

Após andar por mais algumas ruas Felon chegou até o Templo de Ísis, e olhou ao redor surpreso para todo quarteirão ao redor percebendo que estava completamente intacto, incluindo o Templo, sentiu um breve arrepio percorrer seu corpo, como se a própria Deusa tivesse protegido toda aquela área.

Com passos lentos, quase calculados o jovem adentrou no local sagrado, e encontrou várias sacerdotisas ao redor da estátua de Ísis, estavam entoando seus cânticos em uníssono e de olhos fechados, todas em pé e com os braços parcialmente erguidos em completa devoção, e por um breve momento Felon pensou que talvez veria Dália, mas a multidão estava bem amontoada ao redor da Deusa.

Felon fechou os olhos e sentiu mais um arrepio percorrer seu corpo, como se ondas sutis e invisíveis atravessassem seu corpo, o cântico suave das sacerdotisas o começou a deixar sonolento, seus olhos ficaram parcialmente fechados e seus pés começaram a se mover sozinhos pelo chão do templo, passando pela estátua de Ísis e se dirigindo até um grande arco de pedra no fundo, com um desenho de Ísis com suas asas abertas no relevo, que levava até um grande jardim murado dos lados, e com outro arco de pedra amarelada no fundo, coberto por relevos e desenhos de sete escorpiões, que levava até uma rua de Zefrenu, ao longe a muralha da cidade se erguia e o céu tingindo em tons de âmbar, cobre e violeta misturados ao azulado profundo anunciava a chegada da noite, como um véu sagrado sendo colocado sobre o mundo.

Uma árvore acácia se erguia no coração do jardim sagrado como uma rainha antiga, vasta e silenciosa, com os galhos abertos como braços acolhendo o céu do entardecer. Suas flores douradas cintilavam sob a última luz do sol e das tochas presas às paredes laterais. as sombras começavam a se alongar sobre o chão de pedra quente, enquanto Felon se aproximava cada vez mais da árvore, e se ajoelhava diante do arco de pedra, que cercava completamente a árvore e ao longe o jovem continuava a escutar o cântico constante das sacerdotisas.

O vento atravessava o jardim com suavidade ritualística, fazendo as folhas da acácia estremecerem num murmúrio quase sagrado, como uma oração antiga pronunciada pela própria natureza em meio ao tumulto da cidade que aos poucos cessava. Quando a brisa atingiu Felon seus olhos se abriram novamente e olhou ao redor, de forma lenta, como se estivesse despertando de um sono profundo. Ao encarar a acácia diante de si percebeu que as mesmas ondas invisíveis das sacerdotisas emanava da árvore, e entre o relevo da casca o rosto da anciã se formava, a pele enrugada com traços fortes e levemente pontiagudo, nariz aquilino, boca fina e seus olhos verdes esmeraldas encaravam o jovem, que se curvou em reverência. — Felon, dos Povos Nômades, o Grande Mistério por fim lhe entregou a mensagem. — A voz áspera da Anciã ecoou por todo jardim.

— Sim, e levando consigo grande parte da cidade. — Felon arqueou a sobrancelha, e se arrepiou novamente ao se lembrar da Esfinge.

— A humanidade sempre irá sucumbir enquanto o Grande Mistério continuar a se manifestar. — A Anciã respondeu.

— Senhora, o que as palavras significam? — A voz rouca de Felon saiu trêmula, temendo o significado da mensagem.

A Anciã riu com sua voz áspera e algumas flores se desprenderam dos galhos. — É o seu chamado. — Ela suspirou. — A serpente que morde a própria cauda rasteja pela sua estrada, com o morcego pálido seguido pelo luar, terá que quebrar o que outrora sua linhagem não conseguiu, a porcelana que por pouco não se partiu. — Conforme as palavras ásperas eram recitadas no ar, a própria árvore estremeceu brevemente e Felon sentiu todo seu corpo arrepiar. — O Ouroboros, é o Ciclo da Serpente. — A Anciã fez uma breve pausa. — Um erro muito antigo que gerou muito sofrimento, trouxe um mais um mal ao mundo já cruel.

— Um erro dos Tharim? — Felon perguntou ainda arrepiado, sentindo as ondas invisíveis cada vez mais fortes sendo irradiadas da árvore.

— Não. — Os olhos verdes esmeralda escureceram até se tornarem quase pretos. — Um erro meu, quando outrora era chamada pelo nome de Opala Darvek, um clã mais antigo que o seu, do qual sua mãe e você descende. — As palavras da Anciã endureciam conforme ela falava, como se tornassem rochas pesadas demais para carregar e até mesmo Felon sentiu o peso em seus ombros. — Uma mulher veio até mim em busca de ajuda e eu aceitei ajudá-la, e isso trouxe apenas desgraça. — A voz áspera endureceu com a amargura. — Eu jamais deveria ter dado a vingança que a mulher buscava, o feitiço que ela pagou decidiu usar em si mesma, e em vez de matar seu inimigo ela se tornou um verdadeiro perigo. A Primeira Criatura da Noite foi eu quem trouxe ao mundo, uma dívida que jamais pude pagar em vida. — Ela fechou os olhos brevemente e quando se abriram novamente retornaram ao tom verde esmeralda. — Não é possível matar todas as Criaturas da Noite espalhadas pelo mundo, mas o Grande Mistério proporcionou outra alternativa para pagar essa dívida. — A respirou fundo. — Quebrar o Ciclo da Serpente, salvar as duas almas que estão presas há séculos nessa corrente.

O coração de Felon batia freneticamente e seus ombros doíam com o peso das palavras da Anciã, e seus pensamentos estavam turbulentos com as respostas da senhora. — Como farei isso? — Os olhos do jovem estavam arregalados, seu sangue corria rápido pelas veias esquentando o corpo todo arrepiado.

— No meio do Ocidente irá encontrar as almas que precisa ajudar, irá saber quem são apenas com um olhar. — A voz áspera da Anciã ficava cada vez mais longínqua

— Minha mãe recebeu a mesma tarefa e falhou. —

— Agatha Tharim foi aquela que chegou mais próxima de quebrar o ciclo. — A Anciã então curvou seus lábios brevemente em um sorriso. — As estrelas contam histórias de que o Ouroboros está prestes a se partir, será você quem irá destruir? — As últimas palavras da Anciã soaram como um sussurro, e seu rosto foi desaparecendo em meio ao tronco da acácia e a árvore permanecia imóvel no centro de tudo, as ondas que irradiava dela havia parado, deixando um silêncio profundo no jardim com os últimos sussurros da Anciã e o cântico das sacerdotisas havia terminado.

Felon se levantou, o peso dos ombros havia desaparecido também, mas seus joelhos doíam, ele respirou fundo e fechou os olhos enquanto pensava em cada palavra dita pela Anciã. — Foi para isso que fui Iniciado então? — O jovem se queixou em murmúrio, imaginando quantos ancestrais seus haviam recebido a mesma tarefa e morrido tentando. Ele balançou a cabeça para tentar dispensar os vários pensamentos que o atingiram como lâminas, e ao abrir os olhos viu que a noite se erguia cada vez mais rapidamente pelos céus de Zefrenu, deixando a cidade quase desértica, com uma serenidade solene. Felon caminhou até a passagem do arco que levava até a rua e antes de atravessar olhou novamente para a acácia no meio do jardim, seus galhos balançavam suavemente com a brisa noturna, percebeu que a luz das tochas cintilavam nas pequenas flores amarelas como estrelas se fossem pequenas estrelas.

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