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06_O beijo sob o luar

A Profundidade do Instante

A noite envolvia o jardim num manto de seda azul-escuro, pontilhado pelo frio brilho de diamantes distantes. A lua, em sua fase cheia, derramava uma luz prateada que parecia líquida, banhando cada folha, cada pedra, cada curva adormecida de Sophia num banho de pureza etérea. Ela não era apenas iluminada pela lua; parecia parte dela, uma extensão terrena de sua luz suave e melancólica.

Sob a figueira anciã, seu corpo moldava-se às raízes como se as conhecesse intimamente. Os cabelos castanho-escuros—quase negros sob a penumbra—espalhavam-se como um halo desfeito sobre a casca musgosa, alguns fios prateados pela luz lunar como fios de argenta tecidos em ébano. Seu rosto, sereno e pálido, era um estudo de tranquilidade: a testa lisa, os lábios entreabertos como quem sussurra segredos a sonhos invisíveis, os cílios longos projetando sombras delicadas sobre suas maçãs rosadas pelo frio da noite.

O vestido branco de algodão fino, simples e sem adornos, ganhava vida própria sob o luar. O tecido, agora translúcido pela umidade da relva e pelo brilho prateado, colava-se suavemente às suas formas—revelando a curva discreta dos seios, a cintura estreita, a suave elevação dos quadris. Cada respiração sua era um espetáculo de quietude: o torso elevando-se lentamente, sustentando a vida num ritmo tão calmo que parecia hipnótico.

Philip aproximou-se como se caminhasse sobre vidro. Cada passo era calculado, cada respiração contida. A grama úmida sob seus pés emitia um leve chiado, e o aroma da terra molhada e do jasmim noturno enchia o ar—um perfume que mais tarde ele sempre associaria a esse momento. Seu coração não apenas batia forte; ele trovejava dentro de seu peito, um ritmo primal de admiração e de um medo inexplicável—o medo de profanar algo puro.

Ao curvar-se, seu próprio corpo projetou uma sombra sobre o dela, criando um contraste de luz e escuridão que a fez parecer ainda mais frágil. Seus braços deslizaram com uma delicadeza que surpreendeu a si mesmo—um abaixo de seus joelhos dobrados, outro apoiando suas costas através do tecido fino do vestido. O calor dela era quase escaldante contra o frio da noite, e o peso de seu corpo, surpreendentemente leve, parecia carregar uma significância muito maior do que a física permitia.

Foi então que o crack secou o ar.

Um galho seco, escondido sob a grama, partiu-se sob seu peso deslocado. O som ecoou como um suspiro grosseiro na sinfonia silenciosa da noite.

Os olhos de Sophia abriram-se lentamente—não de sobressalto, mas como quem emerge de águas profundas. Seus olhos, cor de âmbar escuro, estavam turvos e sem foco, reflectindo a luz da lua como poças de mel sob a luz de velas. Eles pousaram em seu rosto sem reconhecimento imediato, apenas com a vaga curiosidade de quem ainda habita um mundo onírico.

Philip permaneceu imóvel, paralisado. O vento escolheu aquele momento para brincar com seus cabelos ruivos, fazendo-os dançar como chamas vivas em torno de seu rosto iluminado pela lua. Seus olhos verdes—normalmente tão cheios de confiança e humor—estavam agora arregalados, capturados entre o assombro e a culpa. Ele podia sentir cada ponto onde seu corpo tocava o dela: o calor de suas costas através do tecido de seu casaco, a pressão suave de seus joelhos contra seu braço, o perfume dela—uma mistura de lavanda selvagem e papel antigo—invadindo seus sentidos.

Para Sophia, a visão era demasiado surreal para ser real. Philip—seu Philip—a segurava com uma força que era ao mesmo vez protetora e possessiva. Seus músculos, definidos por anos de treino, eram firmes sob suas costas, e o amplo peito contra o qual seu braço pressionava accidentalmente subia e descia num ritmo acelerado que ela podia sentir através das camadas de tecido. Seu rosto, tão familiar e ainda assim tão estranhamente próximo, estava a apenas um suspiro de distância. "Isto é um sonho," pensou, fechando os olhos por um segundo antes de reabri-los, esperando que a imagem tivesse desaparecido. Mas ele ainda estava lá, e agora seus olhos verdes pareciam escurecer com uma emoção que ela não conseguia decifrar.

Seu olhar deslizou para seus lábios—aqueles lábios que ela observara tantas vezes de longe, que sorriram para outras, que pronunciaram palavras que a magoaram e a curaram. No seu estado de sonho, não havia inibições, não havia medo de rejeição. Havia apenas o desejo primal, cru e puro, que sempre enterrara profundamente.

Num movimento que pareceu durar uma eternidade, ela inclinou a cabeça para a frente e os lábios dela encontraram os seus.

O toque foi inicialmente suave—um pressão leve, quase interrogativa. Os lábios dele estavam mais firmes do que imaginara, mas incrivelmente macios, e ligeiramente frios pela noite. Então, como se confirmasse que era real, ela aumentou a pressão, movendo os lábios contra os dele com uma languidez sonâmbula que fez com que todo o corpo de Philip reagisse violentamente.

Um choque eléctrico percorreu sua espinha. Seus músculos contraíram-se involuntariamente, e suas mãos tremeram levemente contra suas costas. O sabor dela era intoxicante—um mistura doce de chá de ervas e algo uniquely dela—que encheu sua boca e sua mente. Seus instintos gritavam para responder, para aprofundar o beijo, para envolver aquela mulher que sempre estivera ali mas que nunca realmente vira. Mas o choque manteve-o paralisado, seu cérebro lutando para processar a realidade do que estava a acontecer.

Quando ela se afastou, foi apenas o suficiente para que seus lábios se separassem com um som suave e úmido que pareceu amplificado na quietude da noite. Seus olhos estavam semiabertos, pesados de sono e de satisfação.

— Tão bom... — sussurrou, sua voz rouca pelo sono, carregada de uma candura que o atingiu como um soco no estômago. — Melhor do que eu havia imaginado.

Um sorriso pequeno e travesso curvou seus lábios—um sorriso de segredo compartilhado consigo mesma—antes que ela reclinasse a cabeça em seu ombro num movimento de completa entrega. Seu corpo relaxou completamente contra o dele, sua respiração tornando-se regular e profunda mais uma vez, como se tivesse finalmente encontrado paz.

Philip ficou ali, parado no meio do jardim, com a mulher que amara em silêncio por anos adormecida em seus braços, seus próprios lábios ainda ardendo com o fantasma do seu beijo. Sua mente estava um turbilhão de emoções contraditórias—confusão, desejo, culpa, admiração, e uma esmagadora onda de protectividade.

— Deus... — a palavra escapou de seus lábios como um suspiro rouco, carregada de uma reverência que não sabia possuir. — Ela realmente fez isso.

Mas mesmo na sua confusão, seus braços não a soltaram. Pelo contrário, eles ajustaram-se instintivamente, puxando-a mais perto contra seu peito, como se seu calor pudesse protegê-la não apenas do frio da noite, mas de todo o mal do mundo. Seu corpo, agora totalmente consciente dela, registrou cada detalhe—a suave pressão de seus seios contra seu torso, o calor de seu hálito contra seu pescoço, o peso confiante de sua cabeça no seu ombro.

Ele olhou para baixo para seu rosto, agora sereno e satisfeito, e algo dentro dele deslocou-se—uma peça de um puzzle que ele nem sabia estar incompleta encaixando-se finalmente no lugar.

Com passos que eram agora mais firmes do que cautelosos, ele continuou em direção à casa, carregando não apenas o peso físico de Sophia, mas o peso monumental de um momento que sabia, com uma certeza que vinha das profundezas de sua alma, que nada jamais seria o mesmo. O jardim, a lua, o beijo—tudo ficaria para sempre gravado em sua memória como o momento em que ele finalmente viu a mulher que sempre estivera diante dele, e em que ela, mesmo adormecida, o reclamou como seu.

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