O Despertar de uma Realidade
O sol dourado da manhã filtrou-se pelas cortinas de veludo, desenhando linhas de luz quente sobre o rosto de Sophia. Ela pestanejou lentamente, os membros pesados, ainda presa aos resquícios de um sonho que parecia tão vívido... Os lençóis de seda envolveram seu corpo como um abraço suave, mas algo a puxava para a realidade. Com um susprio, sentou-se na cama, os cabelos castanhos desalinhados caindo sobre seus ombros nus.
O quarto era um reflexo de sua posição—grande, opulento, com móveis de mogno escuro adornados com detalhes dourados. A luz da manhã fazia a penteadeira de espelho ovalado reluzir, e o tapete persa amortecia seus passos quando ela desceu da cama. Seus pés descalços tocaram o chão frio, e ela se dirigiu à pequena vasilha de porcelana azul sobre a estante. A água fresca a fez estremecer, mas ela lavou o rosto com cuidado, como se pudesse apagar não só o sono, mas também as memórias da noite anterior. Enxugou-se com uma toalha de linho, pressionando-a contra a pele, tentando afogar o calor que insistia em subir às suas bochechas.
Ao se sentar na penteadeira, seu reflexo a encarou—olhos ainda meio turvos, lábios levemente inchados, como se...
Ela respirou fundo, os dedos tremendo levemente ao pegar a escova de prata. "Foi um sonho. Só mais um daqueles sonhos tolos sobre ele."
Mas então, passos apressados ecoaram pelo corredor. A porta abriu-se com um estrondo, e Aby entrou como um furacão, o rosto rubro de excitação.
— Ah, que bom, Sophia! Você já acordou!
Sophia ergueu uma sobrancelha, mas não pôde evitar um sorriso leve ao ver a empolgação da jovem.
— Bom dia, Aby. O que te deixou tão animada?
— Todos estão falando do quão lindos vocês estiveram ontem à noite! Pareciam personagens saídos de uma peça de Shakespeare!
Sophia congelou. A escuta parou no ar.
— Do que você está falando, Aby?
— Senhorita, você dormiu no jardim de novo. E o Conde Philip estava saindo da residência quando te viu. Ele te carregou nos braços até seu quarto! Todos viram! Até o conde parecia... bem, surpreso.
Sophia sentiu o chão desaparecer sob seus pés.
— E... e então?
— E então, quando ele tentou te deixar na cama, você... bem... você colocou os braços em volta do pescoço dele e não deixou que ele saísse.
O passado retornou em ondas.
De repente, tudo voltou. O cheiro dele—lavanda e algo mais profundo, como madeira queimada. O calor de seu corpo envolvendo-a. E então... o beijo.
"Não foi um sonho."
Seus dedos tocaram os próprios lábios, como se pudessem ainda sentir o gosto dele—quente, levemente salgado, intoxicante.
Ela olhou para o espelho novamente, e desta vez, viu a verdade estampada em seu rosto. As bochechas coradas. Os olhos amendoados, dilatados. Os lábios que, sim, estavam um pouco mais vermelhos que o normal.
— Senhorita, sua mãe está aqui na sala de convidados.
— O que?!?
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O Encontro
Sophia parou diante da porta da sala de convidados, os dedos tremendo levemente sobre o vestido azul. Havia anos desde que vira sua mãe. A última vez fora no porto, quando a Princesa Herdeira Isabella partira para a Europa com um sorriso frio. Agora, ali estava ela—sentada no sofá de veludo carmesim, as mãos envoltas em luvas de renda negra, segurando uma xícara de porcelana com o brasão da família.
— Mãe. — Sophia fez uma reverência perfeita, a voz mais firme do que esperava.
Isabella ergueu os olhos—amendoados como os dela, mas mais frios, mais calculistas.
— Sophia. — Um sorriso breve. — Você cresceu. E, pelo que ouvi, causou um pequeno escândalo ontem à noite.
Sophia sentiu o rosto queimar.
— Fiquei sabendo que Alessia e Philip logo estarão noivos. — continuou Isabella, o tom suave como a lâmina de um punhal.
Sophia congelou.
— Essa informação ainda não foi anunciada. Como a senhora sabe?
— Tenho meus contatos, meu amor. — Ela inclinou a cabeça para a máquina de escrever em um canto da sala—um presente recente, moderno, perigosamente eficiente. — Aqui, as notícias viajam mais rápido do que os navios.
Sua mãe sempre a presenteara com coisas extravagantes—livros raros, joias, agora uma máquina de escrever. Mas nada disso preenchia as lacunas de sua ausência.
— Seu noivado ainda está de pé? — Isabella perguntou, os olhos escaneando a filha.
— Não. — Sophia respirou fundo. — Alessia tem um caso com Jonas. Por sorte, terminamos antes que fosse difícil voltar atrás.
Um brilho satisfeito cruzou o rosto da princesa.
— Isso é bom. — Sally ergueu-se, aproximando-se da filha. — Tenho alguém que quero que você conheça.
Ela puxou um retrato de seu estojo—um homem jovem, de cabelos escuros e olhos azuis intensos, trajando um uniforme militar impecável.
— Ele é filho de uma sobrinha de Sua Majestade, o rei atual. Meu pai—seu avô—aprova a união.
Sophia arregalou os olhos.
— Isso não faz da gente... parentes?
— Parentes distantes. — Isabella revirou os olhos. — E isso é mais comum do que você imagina. Ele é um bom homem, Sophia. E será o próximo a assumir o trono quando Sua Majestade se for.
O silêncio pesou.
Sophia entendeu imediatamente. O rei não tivera um herdeiro homem. E ela, como neta de sua filha, tinha o sangue mais puro possível. Um casamento com esse homem garantiria a linhagem.
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O Conflito Silencioso
Ela olhou para o retrato novamente. O homem era bonito, sim. Mas não era Philip.
— Mãe, eu...
— Pense nisso. — Isabella cortou, colocando o retrato em suas mãos. — Você sempre foi inteligente, Sophia. Não jogue tudo fora por um capricho.
Capricho.
A palavra doeu mais do que deveria.
O que ela sabia sobre ser caprichosa? Ela era a rainha disso. De qualquer forma, se ela voltasse à realidade, ele seria uma opção melhor. E Philip não parecia querer ajudá-la em sua visita anterior ao campo de treino.
Sophia segurou o retrato com dedos que não tremiam, mas seu coração batia como asas de um pássaro enjaulado.
— Vou conhecê-lo. — disse, a voz mais firme do que sentia. — Mas não prometo nada.
Foi o suficiente.
Princesa Isabella—Sally—sorriu, um brilho triunfante acendendo seus olhos.
— É tudo o que peço, minha pérola. — Ela tocou o rosto da filha, o cheiro de jasmim e poder envolvendo-os.
— Mãe...
Era óbvio como sua filha se sentia, mas para Sally, a verdade era clara. Ela não deixaria sua filha se prender a isso, como ela já havia feito, terminando da maneira mais humilhante possível.
A mão enluvada de Sally pairou no ar após o toque.
— Você acha que não vejo como sua expressão muda toda vez que tocamos no nome dele? — Sally sorriu, um gesto sem calor. — Os mesmos olhos ingênuos com que eu olhava para seu pai.
Seus dedos fecharam-se abruptamente.
— Vinte anos atrás, eu era você. Acreditando que amor bastava. Que ele mudaria. Até o dia em que me encontrou de joelhos, suplicando.
Um tremor quase imperceptível percorreu suas costas retas.
— Não permitirei que façam o mesmo com você. Não quando temos como colocá-la no trono em vez de deixá-la chorando aos pés dele.
O retrato do herdeiro real brilhou à luz do sol como uma sentença.
E ela sabia que sua mãe não estava completamente errada.