04_chegada do conde

O Peso do Olhar Paterno

Após um silêncio tenso que pareceu ecoar pela eternidade, ficou claro que Philip não me ajudaria. A rigidez em seus ombros, a frieza em seu olhar—era a resposta que eu temia, mas esperava.

— Obrigada pela ajuda, duque — disse, minha voz mais firme do que meu coração.

Virei-me antes que ele pudesse ver a decepção estampada em meu rosto e caminhei para fora do campo de treinamento. O sol agora parecia mais incômodo do que acolhedor. Era exasperante tentar ajudar alguém que se recusava a enxergar a verdade. Alessia era cuidadosa—sempre foi. Ela sabia como esconder suas garras sob luvas de seda.

Precisaria encontrar outra maneira.

Ao chegar em casa, a carruagem oficial do meu pai estava parada na entrada, a poeira da viagem ainda assentando sobre suas rodas. Ele desceu, o rosto marcado pela fadiga e pela tensão habitual—até que Alessia surgiu como um furacão dourado, lançando-se em seus braços com um riso cristalino.

— Você emagreceu, Alessia! Tem se alimentado direito? — perguntou ele, segurando-a com uma suavidade que raramente me era dirigida.

— Como poderia, tio? Estava preocupada com sua viagem desde a última carta. Rezei para que tudo corresse bem!

— Graças a suas orações, cheguei são e salvo — respondeu ele, afagando seu cabelo.

Foi então que Alessia pareceu notar minha presença. Seus olhos azuis brilharam com um prazer perverso—ela adorava esfregar na minha cara cada migalha de afeto que roubava.

— Sophia, onde você estava? Por que está vestida assim? — sua voz era doce como mel envenenado, mas seus olhos eram frios como gelo.

Ela sabia perfeitamente por que eu estava assim—vestida com simplicidade para passar despercebida pelos guardas. Mas adorava fingir surpresa.

Meu pai suspirou, esfregando a têmpora.

— Você deveria se espelhar mais em Alessia. Basta olhar para ela para saber o que é uma verdadeira dama. Se eu tivesse visitas, sua aparência seria constrangedora.

— Tudo bem, tio — interveio Alessia, colocando uma mão consoladora em seu braço. — Não se aborreça com ela. Pode fazer mal à sua saúde. Tenho certeza de que ela não quis magoá-lo.

— Você é sempre tão bondosa com ela. Vá se trocar, Sophia. Vista algo decente. Teremos um almoço em família hoje.

A diferença entre sua voz carinhosa com ela e o tom contido de raiva que usou comigo foi como uma facada. Eles entraram juntos, deixando-me para trás.

Aby correu em minha direção, seus olhos cheios de preocupação.

— Senhorita, sinto muito. Deveria tê-la impedido de sair assim...

— Está tudo bem, Aby. Não é sua culpa — respondi, tocando seu braço para acalmá-la. — Vamos ao meu quarto. Preciso me arrumar para o almoço.

Enrolei-me o máximo possível no banho, submergindo até que a água cobrisse completamente minha cabeça. O silêncio aquático era um alívio temporário—até que o ar faltou e eu emergi, ofegante, com água escorrendo por meu rosto e respingando no mármore do banheiro.

— Senhorita, por favor, apresse-se! — insistiu Aby do lado de fora.

Saí relutantemente. Não queria causar problemas para ela.

Vestida e penteada, desci para a sala de jantar com Aby. O ambiente era opulento e intimidante—um monumento ao poder e ao status da família Von Eldrich. A mesa alongada, coberta por uma toalha branca imaculada, reluzia sob a luz dos lustres de cristal. As cadeiras, pintadas em ouro e estofadas em veludo carmesim, pareciam tronos. No centro, um arranjo exuberante de flores exóticas transbordava de um vaso de porcelana. Tudo sussurrava realeza—e, para mim, solidão.

Minha mãe costumava dizer que decorava a casa assim para se sentir em casa, longe de sua terra natal. Mas para mim, aquele lugar nunca fora um lar.

Meu pai notou minha entrada. Aos quarenta e seis anos, o Conde Marco von Eldrich era a personificação da autoridade. Seus cabelos grisalhos, seu rosto austero e sua postura rígida comandavam respeito—e temor.

— Sophia, sente-se — ordenou, sua voz um comando silencioso que ecoou pela sala.

Sentei-me à distância, afastando minha cadeira da dele—um pequeno ato de rebeldia que ele notou, mas ignorou.

— Estávamos falando do casamento da Alessia com Philip. Em breve marcaremos uma data. Você e Jonas já têm uma?

Era quase cômico—sua tentativa forçada de mostrar interesse, quando sequer sabia que meu noivado havia terminado.

— Não há mais noivado. Rompemos.

— COMO?! — sua voz trovejou, fazendo até os criados estremecerem.

— Ele quis romper. Disse que ama outra pessoa.

Por uma fração de segundo, vi o puro terror nos olhos de Alessia—rapidamente disfarçado por uma expressão de preocupação fingida.

— Aquele cretino! — rosnou meu pai.

— Calma, tio! — interveio Alessia, colocando uma mão sobre a dele. — Eles ainda podem se reconciliar...

— Já está terminado — interrompi, cortando sua performance. — Há muitos homens bonitos e de boa estatura por aí. Não será difícil encontrar outro.

Alessia ergueu a voz, indignada.

— Você poderia não interferir dessa vez!

Todos na mesa pareceram surpresos com minha ousadia. Mas meu pai ergueu a mão, silenciando-a. Seus olhos fixaram-se em mim, avaliando-me como se me visse pela primeira vez.

— Quero que me deixe cuidar disso sozinha. Não preciso de sua ajuda.

Ele observou-me por um momento, e um brilho de curiosidade—quase respeito—surgiu em seus olhos.

— Tudo bem. Faça como quiser. Apenas seja rápida. Não atrase o casamento da Alessia por pirraça.

— Bom almoço — disse, levantando-me antes que pudessem dizer outra coisa.

Deixei-os ali—a família perfeita, em seu almoço perfeito—e subi para meu quarto. Aby me seguiu em silêncio, seus olhos cheios de solidariedade.

A batalha estava apenas começando. E eu, finalmente, estava pronta para lutar.

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