Mundo de ficçãoIniciar sessão
A mansão Coppola parecia diferente pela manhã.
A luz atravessava os vitrais altos, banhando o hall com um brilho dourado que suavizava a imponência das colunas e das escadas de mármore. Ainda assim, havia algo de frio naquela beleza perfeita — como se cada detalhe fosse feito para lembrar que ali tudo era poder, não lar.Agora estava selado. Eu me casaria com Don Enzo Coppolla.
Sairia das garras de meu pai para passar para as garras desse homem que nem sei o que é pior.
O som de passos ritmados ecoava nos corredores. Soldados armados, empregados silenciosos, e aquele olhar constante de vigilância. Eu sentia cada um deles sobre mim desde o instante em que pisei ali.
Era como se a casa soubesse que eu não pertencia a ela. Ainda.Vesti um conjunto bege, simples e elegante, e deixei o quarto designado para mim no segundo andar. O cheiro do café fresco vinha da cozinha, misturado ao leve perfume de madeira encerada.
Ao descer, encontrei Matteo no saguão. Ele me cumprimentou com um sorriso fácil, as mãos nos bolsos e um ar de quem não leva nada a sério — o oposto do irmão mais velho.— Buongiorno, Isabella. Dormiu bem?
— O colchão é mais firme do que eu imaginava. — Respondi, com um meio sorriso. — É assim que o Don gosta. — Ele disse, rindo baixo. — Conforto demais faz a gente esquecer o que é viver sob tensão.Não soube se era uma piada ou uma lição, então apenas sorri. Matteo era encantador, mas o olhar dele denunciava o instinto de quem lê intenções — e eu não podia permitir que ninguém desvendasse as minhas.
Felippo surgiu logo depois, vestindo uma camisa branca dobrada até os antebraços, o coldre visível sob o paletó. Diferente do irmão, ele não sorria. Apenas me cumprimentou com um aceno curto e um olhar calculado.
— O Don está no escritório — avisou. — Pediu que se junte a ele quando estiver pronta.A simples menção do nome dele fez meu coração acelerar, embora eu tentasse ignorar o efeito.
Desde o jantar, desde aquele olhar azul frio atravessando o salão, eu sabia que Enzo Coppola não era o tipo de homem fácil de decifrar. E justamente por isso… me atraía de uma forma que não fazia sentido.Atravessei o corredor acompanhada por Felippo. As paredes exibiam retratos antigos, homens de terno, medalhas, brasões. Um império construído com sangue e silêncio.
Antes que eu pudesse bater, a voz dele ecoou do outro lado da porta:— Avanti.
Empurrei a porta, e lá estava ele.
Enzo Coppola, sentado atrás de uma mesa de carvalho maciço, mangas arregaçadas, o relógio de ouro brilhando sob a luz da janela. Tão impecável quanto perigoso.— Buongiorno, Signorina Falconi. — disse, sem erguer o olhar dos papéis.
— Buongiorno, Don Coppola. — Respondi, firme, tentando não demonstrar o desconforto.Ele assinou algo, largou a caneta, e finalmente me encarou.
Os olhos azuis me percorreram com calma — sem pressa, sem pudor. — Dormiu bem? — perguntou, a voz grave, quase rouca. — Sim, obrigada. — Menti.O canto de sua boca se ergueu levemente.
— Espero que tenha se acostumado. Vai ficar aqui por uma semana. — disse, inclinando-se para trás na cadeira. — O tempo suficiente para que Nova York aprenda seu nome.Cruzei as mãos diante do corpo.
— Acredito que o nome Falconi já é bem conhecido.Ele riu, baixo.
— Sim, mas agora será Coppola. E esse nome carrega peso diferente.O silêncio que seguiu foi denso, quase palpável. O ar parecia mais quente do que antes.
Eu podia sentir o cheiro amadeirado do perfume dele, misturado ao leve aroma de charuto. Por um instante, desejei que ele não fosse o homem que meu pai descreveu — porque assim seria mais fácil não sentir nada.— Seu pai me disse que voltará para a Sicília depois do noivado — ele continuou. — E que trará sua prima e sua tia para os preparativos.
— Sim. Francesca e minha tia Luciana. — a ideia de minha prima junto aquecia meu coração, pelo menos não estaria sozinha. — Ótimo. — Ele respondeu. — Quero que tudo esteja perfeito.Assenti, embora soubesse que perfeição era algo inalcançável quando o amor não fazia parte da equação.
Ainda assim, algo naquele homem me fazia duvidar. Estar sozinha e trancada com ele me deixava nervosa Ele não parecia o monstro que meu pai descrevia. Parecia… humano demais para um Don.Enzo se levantou, e quando veio em minha direção, cada passo soou como uma advertência. Meu coração acelerou com a presença sufocante do homem.
Parou a poucos centímetros, o olhar fixo nos meus olhos. — Espero que saiba se portar, Isabella. Essa casa é um campo de batalha disfarçado de lar. — E eu cresci cercada por guerras. — Retruquei, sem baixar o olhar.Ele sorriu de canto — um sorriso perigoso, quase satisfeito.
— Bene. — Murmurou. — Então talvez sobreviva a mim.Depois da conversa formal que tivemos, passei o dia explorando a mansão, passeie pelo jardim, li meu livro sentada nos bancos rodeados de flores. Não vi mais ninguém na casa sem ser os soldados e empregado.
A noite caiu sobre a mansão Coppola com o mesmo peso de sempre — silenciosa, imponente e quase sufocante.
Da janela do quarto, observei as luzes da cidade cintilando ao longe. Nova York parecia vibrar em outro ritmo, como se o mundo lá fora seguisse respirando, enquanto eu estava presa num tabuleiro de alianças e mentiras.Um vento frio entrou pela fresta da janela e arrepiou minha pele. Fechei os olhos por um instante, tentando acalmar o turbilhão dentro de mim.
O jantar daquela noite havia sido breve, protocolar. Enzo não falou muito, apenas observou. Sempre observava.Tinha algo nele que me deixava inquieta — não pelo medo, mas pela forma como parecia ler tudo sem dizer nada.
Aquele olhar azul me despia de defesas, e por mais que eu tentasse manter o controle, sentia que cada palavra minha era avaliada, medida, pesada.Soltei um suspiro e caminhei até a poltrona próxima à lareira. O fogo crepitava devagar, lançando reflexos alaranjados pelas paredes. Aquele calor suave me envolveu, mas não me impediu de sentir o frio que vinha de dentro.
Peguei o livro que havia trazido — O Príncipe, de Maquiavel. Ironia ou destino, eu não sabia.
A leitura me distraía, mas uma voz abafada do corredor fez meus olhos se erguerem. A curiosidade venceu a prudência. Deixei o livro sobre a mesa e caminhei até a porta entreaberta. O som vinha do corredor lateral, perto do escritório.Eram vozes masculinas. Baixas, firmes. Reconheci de imediato, era Enzo e Matteo
Encostei a testa na moldura de madeira, escutando em silêncio.— Ela é diferente. — disse Matteo, a voz leve, mas atenta. — Não fala muito, mas observa tudo.
Um breve silêncio, depois o timbre grave de Enzo preencheu o ar.
— Isso é o que me preocupa. As mulheres que falam demais se entregam. As que observam… planejam.Meu coração acelerou.
Planejam. Talvez ele soubesse mais do que eu gostaria.Matteo riu baixinho.
— Planejar não é crime. E convenhamos, fratello, ela é… impressionante. — Bonita, sim. — respondeu Enzo, seco. — Inteligente também. E esse é o perigo.A última frase soou como um toque de alerta, e eu o senti pulsar no peito.
Havia algo no modo como ele dizia “perigo”, como se o gosto da palavra fosse familiar demais para ele.— E o casamento? — perguntou Matteo, num tom provocativo. — Vai seguir o plano ou pretende mudar alguma coisa?
Um estalar de gelo em copo. O som do uísque sendo servido.
Depois, a voz de Enzo, mais baixa, rouca: — O plano segue. Mas Isabella Falconi… não será apenas uma esposa de fachada.Matteo soltou uma risada.
— O que isso quer dizer?— Que quero entender quem ela é antes de colocar meu nome no dela. — respondeu Enzo, firme. — E se o que vejo nos olhos dela for mentira, não vai haver aliança capaz de proteger os Falconi.
Fiquei imóvel. O coração martelando contra o peito.
Então era isso. Ele não confiava em mim — e talvez nem devesse.Mas o que me surpreendeu foi a última coisa que ouvi antes do som de passos se afastar:
— E se for verdade? — Matteo perguntou, divertido. — E se ela for tudo isso que parece ser?
Houve uma pausa, longa.
Depois, a voz de Enzo, grave e quase imperceptível: — Então, talvez, ela seja o meu erro preferido.As palavras me atravessaram como uma lâmina.
Recuei devagar, fechando a porta com o máximo de cuidado. O fogo da lareira ainda ardia, lançando luz sobre o livro aberto em O Príncipe. Sentei-me outra vez, mas não consegui ler uma linha sequer.Meus dedos tocaram o colar no pescoço — aquele que Nani me dera antes da viagem — e tentei me convencer de que tudo fazia parte do plano.
Mas como eu iria conquistar esse homem, ele parecia uma rocha de gelo, sem falar que eu nunca estive com um homem antes.
Meu pai me treinou para ser a esposa perfeita, fiz aulas de etiqueta, piano, dança, balé, e tudo que uma boa esposa precisa, mas não sei como me portar na cama. E pelo que escutei Enzo falando não serei apenas uma esposa troféu.
Madonna mia, onde fui me meter.







