Início / Máfia / Sob o Dominio do Don /  Capítulo 5            Enzo Coppola
 Capítulo 5            Enzo Coppola

                                     

O estalar da lareira foi o único som que preencheu o escritório por longos segundos.

O silêncio pesava, e eu o deixei se prolongar de propósito. Era uma velha tática de meu pai — deixar o outro se contorcer no desconforto antes da primeira palavra.

Felippo recostou-se na poltrona de couro, o copo de uísque girando lentamente em sua mão. Matteo, ao lado, observava tudo em silêncio, como sempre fazia.  Don Cesare sentou em uma das poltronas já visivelmente cansado. Eu via o reflexo das chamas dançar nos olhos de ambos — e no cristal âmbar das bebidas que suavizavam a tensão crescente no ar.

Cruzei as pernas e encarei Antônio Falconi à minha frente. O homem mantinha o ar arrogante que exibia à mesa, a postura rígida e o olhar frio de quem acredita controlar cada peça do tabuleiro. Talvez controlasse, em parte. Mas não a mim.

— Vinte e cinco anos — quebrei o silêncio, minha voz baixa, rouca. — E ainda não se casou?

A pergunta soou mais provocação do que curiosidade.

Falconi arqueou uma sobrancelha, desconfiado.

— Isabella sempre foi protegida. Não havia motivo para apressar o destino dela. — Falconi respondeu seco.

Dei um gole no uísque, deixando o líquido queimar a garganta antes de falar.

— As mulheres de honra da máfia costumam se casar aos dezoito. — Apoiei o copo sobre a mesa. — É uma questão de tradição… e de segurança.

O velho sustentou meu olhar.

— Está insinuando algo sobre a honra da minha filha, Don Coppola?

Felippo moveu-se na poltrona, tenso, mas fiz um leve gesto com a mão, pedindo calma.

Aproximei-me da mesa de carvalho e apoiei as mãos sobre ela, olhando-o nos olhos.

— Não insinuo. Eu pergunto. — Minha voz soou como um golpe seco. — Se vou unir meu sangue ao de outra famiglia, quero ter certeza do que estou recebendo.

O ar ficou denso. Felippo soltou um leve suspiro e ergueu o copo, bebendo sem dizer uma palavra. Ele sabia que, quando eu falava nesse tom, não havia espaço para amenidades.

Falconi, no entanto, manteve-se impassível.

— Se tem dúvidas, Don Coppola, podemos providenciar o exame. — A frase veio gelada, carregada de orgulho. — Os Falconi não têm nada a esconder.

Soltei uma risada curta, sem humor, e peguei o isqueiro de prata sobre a mesa. Acendi um charuto, deixando o estalar do fogo preencher o silêncio.

— Não é necessário. — Traguei devagar. — A honra de uma mulher não se mede com papel e tinta.

Ergui o olhar e deixei que minha voz soasse mais grave.

— Mas, como manda a tradição, na manhã seguinte à lua de mel o lençol manchado de sangue deverá ser apresentado ao conselho. Eu mesmo acho essa tradição retrógada, mas meu conselho é formado em grande parte por velhos que cultuam a tradição, sabe como é?

A chama refletiu nos olhos de Antônio Falconi. Ele não vacilou.

— Minha filha é pura. — disse, firme. — Pode seguir com a tradição.

Assenti lentamente, sem quebrar o contato visual.

Mas, por um breve instante, lembrei da mulher sentada à minha mesa há poucos minutos — os cabelos negros caindo em ondas suaves sobre os ombros, pele clara, o olhar cor de avelã que escondia mais do que mostrava, a boca carnuda que tremia sutilmente quando ela tentava manter o controle.

Isabella Falconi.

A filha do homem à minha frente.

Tão bonita quanto misteriosa.

Vinte e cinco anos… protegida demais.

As palavras do pai ecoavam em minha mente, e uma parte de mim duvidava que fosse apenas inocência o que ela escondia por trás daqueles olhos.

Era inteligente, percebi logo. Observava antes de agir. E esse tipo de mulher… era a que mais sabia ferir.

Felippo quebrou o silêncio:

— Então temos um acordo, não é? — Ele pousou o copo e me olhou de lado, tentando aliviar a tensão. — Melhor selar isso antes que o uísque acabe.

Matteo riu baixinho, mas manteve o olhar atento, avaliando cada movimento de Falconi.

Ergui o copo em direção a ele.

— Temos. — disse, com firmeza. — O casamento é bom para ambas as famílias.

Falconi levantou o dele também.

— A aliança trará estabilidade. — Concordou. — E selará nossa confiança.

O som dos copos se chocando ecoou como um brinde pesado, selando algo maior que um acordo. Era uma sentença.

— Em uma semana anunciaremos o noivado — falei, direto. — E dentro de dois meses, o casamento.

Falconi assentiu, satisfeito.

— Assim será.

Terminei meu uísque de um gole e deixei o copo sobre a mesa.

Quando ele e os irmãos se levantaram, eu permaneci sentado por um instante, observando o fogo dançar na lareira.

Naquele reflexo dourado, a imagem dela voltou à minha mente — os traços delicados, a postura elegante, e aquele olhar que parecia dizer mais do que deveria.

Isabella Falconi.

Bonita demais para o próprio bem.

E inteligente o bastante para ser perigosa.

Sorri de leve, um sorriso sem calor.

Talvez, afinal, esse casamento fosse mais interessante do que o conselho imaginava.

Depois que o brinde selou o acordo, ficamos alguns minutos em silêncio. O fogo da lareira iluminava as faces dos homens à minha volta, projetando sombras longas pelo escritório. O uísque já não queimava — apenas aquecia como a confirmação de algo inevitável.

Antônio Falconi ajeitou o paletó, satisfeito.

— Então está decidido. Permaneceremos em Nova York até o noivado. — disse, a voz firme. — Assim, os jornais e o conselho poderão anunciar oficialmente a união.

Assenti.

— Em uma semana. — Confirmei. — A cerimônia será aqui, na mansão Coppola.

— Excelente. — Ele ergueu o copo vazio em um gesto de aprovação. — Após isso, Isabella retornará para a Sicília. Precisa resolver alguns assuntos antes do casamento.

Ergui uma sobrancelha.

— Assuntos?

— Ela ainda cursa Direito — explicou, orgulhoso. — Pretende solicitar transferência para a universidade de Nova York.

Felippo soltou um assobio baixo, sarcástico.

— Uma principessa mafiosa estudando Direito? Isso é novo.

— Não vejo mal algum — retruquei, antes que Antônio respondesse.

Meus olhos deslizaram até a porta, onde o vulto de Isabella se moveu discretamente — provavelmente à espera do pai.

— Uma mulher instruída entende melhor o valor da lealdade e das leis… mesmo as que escolhemos quebrar.

Falconi assentiu, satisfeito com a resposta.

— Então está de acordo que ela continue os estudos?

— Sim. — Confirmei, pousando o copo. — Desde que saiba equilibrar seus deveres de esposa e de Coppola.

Ele sorriu, e percebi que aquela aprovação silenciosa valia mais que qualquer contrato assinado.

Matteo se levantou, foi até o bar e serviu mais uísque para todos. O som do líquido âmbar enchendo os copos misturou-se ao crepitar do fogo.

— Então, senhor Falconi, — disse ele com seu jeito leve — teremos visitas femininas em breve?

— Sim. — respondeu Falconi, olhando para mim com aquele ar calculista. — Quando Isabella retornar para Nova York, trará sua prima Francesca e minha irmã, Signora Luciana Rossi, para auxiliá-la nos preparativos do casamento.

Matteo piscou, divertido.

— Parece que a casa vai ficar… mais animada.

Ignorei o tom e apenas soltei um leve sorriso.

— As portas da mansão estarão abertas para as Falconi.

Felippo se inclinou para frente.

— Espero que saiba o que está fazendo, fratello. Essa aliança vai colocar meio conselho de olho em você.

— Que olhem. — Retruquei, a voz baixa. — Deixem que vejam o que acontece quando duas casas aprendem a coexistir sem sangue.

Enquanto Antônio Falconi e meus irmãos conversavam sobre detalhes logísticos — convites, proteção, presença do conselho — minha atenção voltou para o reflexo da porta envidraçada.

Isabella estava ali, parada sob a luz suave do corredor, observando discretamente.

Os cabelos negros caíam como seda sobre os ombros, o vestido colava sutilmente à curva de sua cintura e ao balanço natural do quadril.

Quando nossos olhares se cruzaram, por um instante, ela pareceu hesitar… mas não desviou.

Havia algo perigoso naquela mulher — um tipo de elegância silenciosa que escondia mais do que revelava.

A boca carnuda, o queixo erguido, os olhos cor de avelã que pareciam analisar o mundo antes de reagir.

Ela me lembrava o mar da Sicília: bonito, mas traiçoeiro.

Antônio notou meu olhar e sorriu de canto.

— Uma joia rara, não acha, Don Enzo?

Bebi o resto do uísque antes de responder.

— Sim. — Murmurei. — E toda joia precisa ser bem guardada.

Nos despedimos com o protocolo habitual — um aperto de mãos firme, olhares que diziam mais do que as palavras.

Quando o patriarca Falconi saiu do escritório, levei alguns segundos antes de me mover.

Felippo se levantou e estalou os ombros.

— Parece que teremos uma semana interessante.

Matteo riu.

— Eu diria perigosa. Ela tem aquele olhar… que promete problemas.

—Acredito que não, a garota foi criada para arrumar um bom casamento, só isso, e o pai estava a guardando para selar uma boa aliança. —Felippo continuou.

Fiquei em silêncio, observando pela janela os Falconi subindo para os quartos acompanhados pela empregada.

Eles ficariam hospedados por aqui essa semana, a mansão era segura e devido aos ataques sofridos nos últimos tempos eu e Don Antônio achamos prudente a instalação deles por aqui.

O reflexo do fogo tremulava no vidro, e no meio dele, ainda via o rosto dela — os olhos avelã, o sorriso contido.

Sette giorni.

Sete dias até o noivado.

Dois mês até o casamento.

Sorri de leve, tragando o resto do charuto.

Tempo suficiente para descobrir se Isabella Falconi seria minha aliança benéfica…ou o início da minha ruína.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App