Mundo de ficçãoIniciar sessãoA mansão Coppola se ergueu diante de mim como um monumento à opulência e ao poder. Portões de ferro forjado se abriram lentamente, revelando uma fachada imponente de pedra clara, colunas clássicas e janelas altas que refletiam o céu cinzento de Nova York. O jardim era meticulosamente cuidado, com roseiras alinhadas como soldados em formação. Tudo ali gritava tradição, controle e vigilância.
Ao descer da limusine, senti o salto afundar levemente na pedra do caminho. Meu pai caminhava ao meu lado, rígido como sempre, mas queria que ele não estivesse aqui, pois sua companhia sempre me assustava.
Estávamos no hall de entrada quando fomos recepcionados por um homem muito bonito, ele logo se apresentou. Ele vestia uma camiseta branca com jaqueta de couro por cima e calça jeans, contrastando com tudo ali.
—Buona notte, piacere, sou Matteo Coppola, sejam bem-vindos! — O rapaz apertou mão de meu pai e deu um beijo casto em minha mão com um sorriso enorme no rosto.
—Buonasera, il piacere è mio— meu pai respondeu. —Essa é minha filha Isabella Falconi.
—Fiquem à vontade vou avisar meu irmão Enzo que estão aqui.
Matteo logo subiu as escadas e pude ouvir vozes quando ele ia de encontro um homem no topo de uma escadaria enorme com coberta com uma tapeçaria vermelha.
— Quero você longe dessas corridas! Hai capito? —o homem brandava do alto da escada, a voz forte, pareceu ressoar escada abaixo como uma bruma gelada, me fazendo arrepiar.
A luz vinda do baixo lustre dourado não alcançava os últimos degraus e por isso não conseguia ver quem era o homem conversando com Matteo no alto da escada. As sombras iniciavam em seus ombros e escondiam justamente seu rosto. Mas o corpo estava iluminado e consegui analisar bem.
O homem vestia um terno preto, igual a todos da máfia, porém sem o paletó, com as mangas da camisa social branca arregaçadas até o cotovelo, o que deixava suas várias tatuagens a mostra. Ajeitava um grande relógio de ouro no pulso esquerdo enquanto praguejava com o outro.
Os dois desciam e iam conversando algo que não consegui entender, mas pelo que entendi Enzo, meu prometido, estava xingando seu irmão Matteo.
—Enzo,,,,, signore Falconi e sua figlia estão aqui. — Escuto Matteo falar para Enzo, tentando mudar de assunto.
Finalmente eles alcançaram o pé da escadaria e a proximidade permitiu que eu enxergasse o rosto do mio futuro marito. Era mais alto do que eu tinha imaginado, com certeza uns vinte centímetro a mais do que eu e isso considerando que eu não era uma mulher baixa com meus 1,70 de altura. O cabelo era castanho escuro, cortado em um estilo undercut, com a parte de cima mais comprida penteada para trás. Possuía traços marcantes como maxilar bem-marcado e o nariz alto e reto. As linhas fortes do rosto contrastavam com os olhos mais azuis que já tinha visto em toda a minha vida. A camisa branca com os dois primeiros botões abertos me permitiu observar a pele dourada e o início dos traços pretos que se perdiam por baixo do tecido.
Teria ele o tronco coberto por tatuagens? Mas o que eu estou pensando!
O olhar era intenso como se soubesse o que eu estava fazendo ali, como se nada no mundo o surpreendesse. Tinha uma pose relaxada, porém intimidante, como se estivesse a todo tempo diante de um inimigo em potencial.
Madonna mia! Como ele é bonito.
— Boa noite, Don Coppola — murmuro, assim que fico a um passo do homem mais perigoso que conheço. —E arrisco espiar pelo canto do olho se minha demora foi perdoada pela submissão.
Don Enzo Coppolla, fez uma leve menear com a cabeça e não perdeu seu tempo comigo, voltando-se para mio padre que puxou assunto sobre uma das últimas cargas recebida no cais e caminhando até as poltronas próximas à lareira.
Já seu irmão sorri de canto para mim, flagrando-me.
Viro o rosto enrubescido de vergonha, fitando meus pés. Acredito ter ouvido um riso baixo de Matteo.
Esperamos o irmão do meio, Filippo, e o senhor Cesare Valtieri chegar. Os três tinhas traços bem marcantes, Enzo era o mais alto e misterioso, Felippo tinha um ar de militar e Matteo era o mais simpático deles. Após chegada de Filippo alguns minutos depois o jantar é servido. Aguardamos para que o Don se sente na ponta da mesa como de costume. No entanto apesar da primeira vista ele ser extremante frio comigo, quando me aproximo da mesa, a cadeira que sobra é ao seu lado esquerdo.
Engulo em seco quando o homem de cabelos perfeitos e olhos azuis puxa a cadeira num gesto gentil para mim. Sento-me apressada. Acredito que qualquer uma ficaria desse modo sob o efeito de seu olhar. Sinto o leve ardor em minhas bochechas causado pelo calor que sinto.
Assim que nos acomodamos, procuro analisar minuciosamente a prataria usada para o jantar querendo manter-me ocupada encarando qualquer coisa que não seja Enzo Coppola.
Deveria ser pecado homens tão perigosos serem tão bonitos. Essa combinação não é certa. Coloco uma mão sobre a face, constatando a quentura, prova do meu constrangimento.
Como vou fazer para conquistar esse homem? Se não consigo nem o olhar nos olhos.
Alguns minutos depois, Enzo requer que seja servida a entrada. A conversa cotidiana segue sobre alguns eventos da famiglia, e os negócios lícitos tratados pelo grupo empresarial Coppola.
Meu pai, se mantém cortes, elogiando a decoração da mansão.
— Então, caro Enzo, soube por tuo consigliere, signore Cesare Valtieri, que está à procura de uma moglie, não é mesmo?
Dom Coppola passa o guardanapo demoradamente sobre os lábios, subindo o olhar para encontrar os meus, com uma calmaria incomoda.
— Sim, caro Falconi. Meu conselho está me pressionado a casamento. — Ele sorri educadamente enquanto os irmãos e meu pai riem junto. — Acredito que não dê mais para postergar.
Pego o copo d'água e beberico na tentativa falha de afastar o amargor que surgiu em minha boca. Realmente não tenho saúde para me submeter a este jantar, afinal.
— Todos nós tentamos… não é mesmo? — meu pai emenda diminuindo o riso.
Chega a ser contraditório a forma com a qual segura os talheres delicadamente e o tamanho de suas mãos. Meu cérebro inconsciente analisa cada detalhe do herdeiro ao meu lado, observando as tatuagens.
— Não há o que esperar. Nossos costumes são respeitados há anos. Você como Don, mais do que ninguém, deve mantê-los. — Meu pai afirma.
— Meu concelho acredita que preciso de uma noiva, pois alcancei a idade de nossos costumes, e como assumi a liderança estou disposto a conhecer ragazze com idade suficiente para ser minha moglie. — Enzo continua sua fala, cortando de modo demorado o filé de carneiro.
Quem seria louca em competir para se tornar a moglie de alguém que pode lhe partir ao meio emocionalmente e fisicamente?
— Até onde sei, a sposa precisa ter mais de 18 anos — Enzo conclui. — Acredito que assim, meu leque é vasto. Não seria justo para as outras ragazze ficarem de fora de tão acirrada competição, non pensare?
Bom… fisicamente, não deve ser pior que a dor que tenho sentido. Não contenho o riso de escárnio que me escapa por conta do pensamento, eles tratam de casamento como tratam de negócios.
Arrependo-me no momento seguinte, pois tenho a atenção de todos da mesa, em especial, a dele.
— É engraçada a ideia de ragazze querendo minha atenção, Signorina Falconi? — Não tive intenção alguma de zombar sobre as escolhas do futuro Don, apenas do que tenho passado.
Respiro fundo, tomando coragem para encarar seu olhar fulminante. Enzo me fita com um olhar enigmático. Agora entendo a língua mordaz do Don que meu pai me alertou.
— É engraçado o fato de algumas ragazze sonharem com um casamento por amor, Signore Coppola? — retruco sem pestanejar, tomada da coragem que não sei de onde arrumei.
— Isabella… — meu pai alerta. Dou de ombros, pois refazer minha fala sairia pior. Então, não aguardo a resposta e volto a atenção para o filé de peixe em meu prato.
— De fato, amor não é algo que pretendo para uma futura esposa, Signorina Falconi. Porém, asseguro que a selecionada terá sorte com minhas outras qualidades.
O silêncio que se seguiu àquela provocação foi cortante. Pude sentir o olhar de meu pai sobre mim, tão frio quanto o aço de uma lâmina. Ele pousou o garfo com firmeza sobre o prato e se inclinou levemente para frente.
— Attento, Don Coppola! — A voz dele soou baixa, mas carregada de veneno. — Em minha casa, jamais trataria uma donna com tamanha grosseria, ainda mais uma convidada.
Enzo ergueu uma sobrancelha, lento, o canto da boca curvando-se em um meio sorriso que, se eu não o conhecesse, chamaria de insolente.
— Com todo respeito, Signore Falconi… — respondeu ele, a voz grave, quase um sussurro que vibrava entre nós —, não foi a sua donna que começou com provocações?Meu coração disparou. Senti o sangue fugir do rosto.
Mio padre se ergueu subitamente, a cadeira arrastando pelo chão com um estalo seco. Matteo e Felippo interromperam o movimento de levar o vinho à boca, atentos. O ar ficou pesado, denso, como se o tempo parasse por alguns segundos.
— Cuide suas palavras. — Meu pai rosnou tentando manter a honra. — Você pode ser um Don em Nova York, mas diante de mim ainda é apenas um homem que precisa provar se merece o respeito do meu sangue.
Enzo levantou-se devagar, imponente, os olhos azuis faiscando sob a luz da lareira.
— E o seu sangue, Signore Falconi, ainda precisa provar se merece sentar-se à minha mesa.A tensão explodiu em um instante. Eu me levantei também, mais por reflexo do que por coragem, e minha respiração parecia não caber no peito. Senhor Cesare Valtieri foi o primeiro a se pronunciar, a voz firme e controlada tentando apaziguar a fúria dos dois homens.
— Signori, per favore... — Ele levantou as mãos, tentando intervir. — Estamos entre aliados, não inimigos. Ainda vão servir a sobremesa, não queremos que o vinho vire sangue, certo?
Matteo soltou um riso nervoso, e foi o suficiente para que a rigidez começasse a se dissipar. Meu pai endireitou o terno e soltou o ar com força pelas narinas, controlando-se. Enzo o fitou por mais um instante, antes de recuar um passo e voltar a se sentar, o olhar cravado na chama da lareira.
O garçom visivelmente desconfortável, entrou com a bandeja de sobremesas — taças delicadas com tiramisù e frutas vermelhas — e o som dos talheres sendo recolocados na mesa quebrou o clima tenso. A conversa voltou aos poucos, como se nada tivesse acontecido, embora o ar ainda estivesse carregado.
Tentei me concentrar no doce, mas o sabor se perdeu entre a lembrança das palavras afiadas e o olhar gelado que Enzo me lançara há instantes. Ainda assim, havia algo nele — algo que me prendia, que fazia o perigo parecer quase… fascinante.
Após a sobremesa, o Don limpou os lábios com o guardanapo, dobrou-o com precisão e pousou sobre a mesa.
— Senhores, — disse, a voz voltando ao tom controlado e autoritário —, convido-os ao meu escritório. Precisamos tratar dos assuntos de negócio antes da noite se encerrar.
Felippo, meu pai e Don Cesare assentiram. Matteo deu um último olhar para mim, como quem pede desculpas silenciosas, e seguiu os demais. As portas pesadas se fecharam logo depois, abafando as vozes graves que começaram a discutir números e territórios.
Fiquei sozinha na sala, com apenas o crepitar do fogo preenchendo o ambiente.
A lareira lançava reflexos dourados nas paredes de pedra e no cristal das taças, e pela primeira vez desde que chegara, me permiti respirar fundo. O calor do fogo contrastava com o frio que eu sentia por dentro.Meus dedos roçaram o colar no pescoço — o presente de minha mãe, o único elo com um passado que ainda parecia humano.
Observei a chama dançar, e um pensamento me atravessou a mente como um sussurro inevitável:Como vou fazer para conquistar esse homem? Se ele me olha como se eu estivesse nua.







