Sem Perdão: O Recomeço de Clarissa

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Índice

Durante três anos, Clarissa Venâncio foi dócil, atenciosa e impecável em tudo o que fazia. Em troca, recebeu apenas o aviso da morte do próprio pai. Ela conteve todas as arestas de sua personalidade, agiu sempre com discrição, cumpriu cada dever com perfeição e cuidou de tudo nos mínimos detalhes, apenas para conseguir acesso aos recursos médicos que estavam nas mãos dele. No entanto, uma única frase, dita com descaso: "O pai dela precisa mais", esmagou a última esperança que ainda restava em seu coração. Clarissa acreditava que Eduardo Alcântara era sua tábua de salvação. Nunca imaginou que ele seria, na verdade, a sentença que a conduziria à ruína. No dia em que o funeral terminou, ela assinou os papéis do divórcio e foi embora sem olhar para trás. Pela primeira vez, aquele homem sempre arrogante, intocável e acostumado a estar acima de todos apareceu diante dela com os olhos vermelhos, deixando o orgulho de lado para implorar que ficasse. Clarissa soltou uma risada sarcástica. Quando ele entregou aqueles recursos a outra pessoa sem a menor hesitação, será que sequer imaginou que um dia se arrependeria? — Desculpe, Sr. Eduardo, mas, por favor, suma daqui. Você está bloqueando o meu caminho. — Ela disse friamente.

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Capítulo 1

Capítulo 1 — Eduardo, eu quero o divórcio!

Quando os últimos convidados do funeral finalmente foram embora, já passava das dez da noite.

Clarissa voltou para casa arrastando os pés, exausta, e, ao entrar, seus olhos pousaram sobre um par de sapatos no hall de entrada.

Seu marido, incomunicável há sete dias, tinha voltado.

A morte de seu pai tinha sido repentina. Do agravamento do estado de saúde até o falecimento, tudo aconteceu em apenas três dias. Nesse período, Clarissa ligou para Eduardo mais de cinquenta vezes, mas nenhuma chamada foi atendida.

Do hospital ao crematório, e do crematório ao funeral, se não fosse pela ajuda dos parentes e amigos, ela provavelmente teria desabado.

O cheiro das velas do velório ainda estava impregnado em suas roupas, destoando completamente da fragrância de pinheiro que preenchia a casa.

Com o rosto tomado pelo cansaço, ela deixou a bolsa sobre o armário, calçou os chinelos e entrou.

Na sala, o homem estava encostado junto à janela, falando ao telefone.

Clarissa permaneceu imóvel no corredor, observando-o.

A voz dele era baixa, e um leve sorriso repousava no canto dos lábios.

Um sorriso amargo surgiu nos lábios dela. Então o celular funcionava, afinal. Ela chegou a pensar que ele o tinha perdido.

Estava tão cansada que sequer tinha forças para falar, muito menos para perguntar por que ele tinha desaparecido durante toda aquela semana. Já não importava mais.

Ela tinha se casado com Eduardo por causa dos recursos médicos a que ele tinha acesso. Agora que seu pai havia partido, tudo aquilo tinha perdido o sentido. Aquele casamento de aparências, sustentado por três anos, finalmente chegava ao fim.

Tudo o que ela queria era subir, tomar um banho e ter uma boa noite de sono.

Ela começou a subir a escada, mas, assim que pisou no terceiro degrau, ouviu a voz dele às suas costas.

— Onde você esteve? Por que voltou tão tarde? — Havia um tom de reprovação na voz.

Clarissa era sempre uma pessoa regrada. Não gostava de socializar, saía do trabalho e voltava direto para casa, vivendo em função do marido e da casa.

Mesmo quando o pai estava internado, ela fazia questão de terminar tudo antes de Eduardo voltar do trabalho.

Os chinelos sempre alinhados na entrada. As camisas cuidadosamente passadas no armário. O incenso aceso e o chá preparado no escritório, todas as noites, antes das nove.

Ela tinha feito tudo isso para manter vivo o único fio de esperança de salvar o pai.

E qual foi o resultado?

O renomado neurocirurgião, cuja consulta já estava marcada, acabou sendo enviado às pressas para a Alemanha por decisão de Eduardo.

Na verdade, o estado de seu pai não tinha piorado de repente. Ele sempre esteve em estado crítico.

Mesmo assim, Eduardo priorizou o caso na Alemanha. Nem sequer a consultou antes de tomar a decisão.

Clarissa parou, mas permaneceu em silêncio.

Os passos dele se aproximaram e uma figura alta atravessou o corredor e bloqueou seu caminho na escada.

— A cirurgia na Alemanha foi um sucesso. O Prof. Nelson deve voltar em breve e, quando ele retornar, providenciarei a cirurgia do seu pai.

Os dedos de Clarissa se fecharam discretamente ao lado do corpo. A dor escondida entre suas sobrancelhas foi engolida pelas sombras.

— Não será necessário. — Sua voz permaneceu calma.

Eduardo franziu a testa, presumindo que ela ainda estivesse emburrada por causa das ligações ignoradas.

— Passei esses dias todos ao lado de Jojo. O pai dela estava passando por uma cirurgia, e ela ficou muito preocupada. — Ele explicou, com paciência.

A "Jojo" de quem ele falava era Jordana, filha da influente família Gusmão, velha amiga da família Alcântara.

Uma justificativa conveniente.

Clarissa abaixou os olhos, um frio absurdo invadiu seu coração.

Se ela nunca tivesse existido, provavelmente Jordana já estaria, há muito tempo, ao lado dele de forma legítima.

Para acalmar a ansiedade daquela mulher, ele desapareceu sem deixar notícias durante uma semana.

— Entendi. — Ela respondeu sem ânimo, desviando dele para subir as escadas.

Mas Eduardo bloqueou seu caminho, segurando gentilmente seus ombros.

— Olha, assim que resolvi tudo, voltei para casa o mais rápido possível.

"O mais rápido possível."

— Então eu deveria agradecer? — Clarissa perguntou.

Agradecer por ele ter passado sete dias com Jordana e, ainda assim, se lembrar de voltar para casa para lhe conceder, como um favor, esse "o mais rápido possível"?

Ao vê-la daquele jeito, Eduardo franziu ainda mais a testa. Sua paciência começava a se esgotar.

— O que aconteceu com você hoje? Por que está falando desse jeito? Eu já expliquei tudo. Por que você está criando caso?

"Criando caso"? Clarissa quase riu.

Seu pai havia falecido há três dias. O funeral já tinha ocorrido e os convidados haviam partido. No entanto, em meio a um acontecimento tão importante, ele não fazia a menor ideia.

Além disso, o hospital onde seu pai estava internado pertencia ao Grupo Alcântara.

Embora o casamento deles fosse mantido em segredo, mesmo que Eduardo não soubesse, e o seu assistente? O homem que cuidava de praticamente tudo para ele?

Talvez nem o assistente achasse que os assuntos de Clarissa fossem importantes o suficiente para incomodar Eduardo.

Ela ergueu os olhos, fitou aquele rosto familiar e, de repente, tudo perdeu o sentido.

Seus lábios rosados se entreabriram, e as palavras saíram leves como o vento.

— Eduardo, eu quero o divórcio!

Ela estava cansada daquele casamento em que vivia como se fosse viúva. Cansada de girar sua vida inteira em torno de um homem. Cansada da mulher em que se havia transformado apenas para agradá-lo.

— Só porque eu não atendi o telefone? — Eduardo ficou visivelmente surpreso. Seus olhos profundos, frios como o gelo, pousaram sobre ela com atenção.

— Sim. — Clarissa baixou os olhos, escondendo o último brilho que ainda restava neles. — Só porque você não atendeu o telefone.

Não havia motivo para discutir, explicar seria inútil.

Ela o afastou delicadamente e continuou subindo as escadas.

— Clarissa, você já pensou em como vai viver sem mim? Como pretende pagar as despesas médicas absurdas do seu pai?

Ela parou na curva da escada.

Eduardo permanecia com as mãos nos bolsos, semicerrando os olhos.

— Vou fingir que não ouvi o que você disse. Vá descansar. — Seu tom era grave.

A escada estava mergulhada na penumbra, mas, mesmo assim, Clarissa captou claramente a emoção escondida em seus olhos: desdém. O desprezo natural de alguém acostumado a ocupar uma posição de poder.

Nesse momento, o celular de Eduardo voltou a tocar.

Ele olhou para a tela e, ao ver quem ligava, rejeitou a chamada e desceu as escadas.

Clarissa cravou as unhas na palma da mão, observando suas costas se afastarem enquanto reprimia à força o nó que lhe fechava a garganta.

— Vou providenciar o acordo de divórcio o quanto antes. Quando estiver pronto, mandarei entregar no seu escritório. — Ela disse.

Ao ouvir aquilo, Eduardo, que já se afastava, parou por uma fração de segundo antes de continuar. Poucos segundos depois, ouviu-se a porta da entrada se fechar.

A sala mergulhou novamente no silêncio, seguido pelo som do motor do carro dando partida e se afastando.

Sem forças, Clarissa deixou o corpo desabar no chão. O mármore gelado sob ela era frio, mas não tanto quanto seu coração.

De repente, seu celular vibrou.

Era Marina Fonseca, sua melhor amiga. Ela estava no exterior e não tinha conseguido ir ao funeral, mas tinha providenciado pessoas para ajudá-la durante todo o processo.

— Clarinha, já organizei tudo. Quando você pretende falar sobre o divórcio?

Os dedos de Clarissa ainda estavam dormentes.

— Eu já falei. — Depois de um instante de hesitação, respondeu.

Ela percorreu o olhar pela enorme mansão.

Durante três anos, havia limpado cada móvel, cada objeto de decoração daquela casa inúmeras vezes. Eduardo gostava de silêncio, por isso ela tinha dispensado os empregados residentes. Fora a equipe de limpeza que vinha periodicamente, todo o resto era feito por ela.

Um dia acreditou, ingenuamente, que aquele lugar fosse seu lar. Agora, tudo lhe parecia estranho.

No fim das contas, a culpada era ela mesma. Foi ela quem rebaixou a própria dignidade. E ainda esperava que aquele homem a valorizasse?

Do outro lado da linha, Marina ficou surpresa com a rapidez.

— Então... Eduardo concordou? — Ela perguntou, cautelosa.

— A opinião dele não importa. — Clarissa respondeu sem hesitar.

Marina não insistiu. Afinal, havia testemunhado com os próprios olhos toda a humilhação que Clarissa havia suportado nesses três anos. E, depois do que aconteceu com seu pai, aquilo era imperdoável. Ela apoiava o divórcio de todo o coração, mas, ainda assim, tinha a sensação de que Eduardo não a deixaria ir tão facilmente. Afinal, para ele, o divórcio não trazia benefício algum.

— Já que decidiu se divorciar, você precisa sair dessa casa. A chave do apartamento da Vila Enseada está com você. Se for se mudar nos próximos dias, me avise. Vou mandar alguém ajudar.

Um leve sorriso finalmente surgiu nos lábios de Clarissa. Sem perceber, seu nariz ardeu e seus olhos ficaram úmidos.

— Obrigada, Mari.

Marina riu baixinho.

— Não precisa agradecer. Apenas lembre-se de que, enquanto eu estiver aqui, você sempre terá para onde voltar. — Ela suspirou antes de acrescentar, em tom sério. — Não se prenda a um relacionamento que não vale a pena. Ninguém vale o sacrifício do seu orgulho e do seu brilho.

Lágrimas quentes caíram no chão enquanto Clarissa assentia em silêncio.

— Ah, quase me esqueci de contar! Parece que Diogo voltou para o país.

"Diogo!"

Os dedos de Clarissa se fecharam com força ao redor do celular e uma emoção indescritível atravessou seus olhos.

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Capítulo 1 — Eduardo, eu quero o divórcio!
Capítulo 2 — O pai da senhora já faleceu
Capítulo 3 — Clarinha, eu nunca mais vou embora
Capítulo 4 — Ora, ora... quanto tempo, Eduardo
Capítulo 5 — Qual é a sua relação com ele?
Capítulo 6 – Eles vão se divorciar?
Capítulo 7 — Foi o Diogo quem te deu?
Capítulo 8 — Ruptura irreparável da relação conjugal
Capítulo 9 — Essa ainda é a mesma Sra. Clarissa?
Capítulo 10 — Não se empolgue demais, Sr. Eduardo
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