Na manhã seguinte, Eduardo não voltou para casa.
Às nove horas, Clarissa recebeu um documento pelo WhatsApp:
[Srta. Clarissa, o acordo de divórcio já está pronto. Dê uma olhada e veja se há algo que queira acrescentar]
Ela ligou o computador e leu o contrato do início ao fim, linha por linha.
[Está tudo certo. Obrigada, Dr. Alberto]
As folhas foram saindo lentamente da impressora. Ela as organizou, grampeou e assinou cada página em um único movimento, sem a menor hesitação.
No instante em que fechou a tampa da caneta, teve a sensação de que algo dentro dela também havia se fechado para sempre.
Pegou o celular e agendou a entrega. Ao meio-dia em ponto, o acordo seria enviado ao escritório do presidente do Grupo Alcântara, diretamente para Eduardo.
Depois, tomou um banho, trocou de roupa e começou a arrumar seus pertences. Tinha tão poucas coisas que uma única mala foi suficiente para guardar tudo.
Três anos antes, havia chegado ali com aquela mesma mala. Agora ia embora, levando exatamente a mesma. De certa forma, era um ciclo completo.
No espelho, seus olhos ainda estavam marcados pelas olheiras, mas a preocupação que durante anos habitava em seu semblante havia desaparecido. Embora tivesse dormido pouco, seu rosto parecia muito mais leve.
Tudo estava prestes a terminar. Às vezes, é preciso saber a hora de desistir e se afastar. Não importa quanto tempo tenha passado, ainda dá tempo de se salvar.
Às dez e meia da manhã, Clarissa saiu da mansão puxando a mala.
— Senhora, vai viajar a trabalho? — A funcionária da limpeza, que regava as flores do jardim com uma mangueira, sorriu educadamente ao vê-la.
Clarissa apenas sorriu de leve. Sem explicar nada, limitou-se a acenar com a cabeça.
Enquanto observava sua figura se afastar, a funcionária comentou consigo mesma, divertida:
— Que estranho... Toda vez que a patroa me via, passava um tempão dizendo qual ambientador era melhor ou onde cada decoração deveria ficar. Hoje não falou uma única palavra.
Depois de entregar o envelope ao entregador, Clarissa entrou no carro e seguiu para Vila Enseada.
Durante todo o trajeto, não olhou para trás uma única vez.
Enquanto isso, na sede do Grupo Alcântara, Eduardo acabava de encerrar uma videoconferência internacional. Recostado na cadeira, descansava de olhos fechados.
Um problema havia surgido em um projeto no exterior, obrigando-o a retornar imediatamente à empresa e trabalhar desde a madrugada sem parar. Agora sentia a cabeça latejar.
Havia dez horas que não comia nada e seu estômago começava a doer.
A culpa era de Clarissa. Ela tinha o acostumado mal.
Eduardo sempre foi viciado em trabalho e negligenciava a própria saúde. Anos de compromissos sociais, de negócios e refeições irregulares haviam lhe deixado problemas digestivos crônicos.
Quando descobriu isso, Clarissa passou a preparar refeições especialmente pensadas para cuidar da digestão dele. Combinava os pratos com receitas medicinais e nunca falhava. Durante três anos.
Mesmo quando ele fazia hora extra até de madrugada, a sopa que ela deixava na marmita térmica ainda estava quente.
Ultimamente, as frequentes viagens de negócios e a carga de trabalho pesada o faziam reclamar constantemente.
Nesse momento, o assistente, Wilson, bateu à porta.
— Sr. Eduardo, parece que isto foi enviado pela Sra. Clarissa. — Nas mãos, carregava um envelope de papel pardo.
— Deixe aí. — Sem sequer abrir os olhos, Eduardo massageou as têmporas doloridas.
Wilson assentiu, colocou o envelope sobre a mesa e estava prestes a sair quando foi interrompido.
— Espere. — Eduardo abriu lentamente os olhos. A voz estava rouca depois de uma noite inteira sem dormir. — Ligue para Clarissa e peça para ela preparar uma sopa de frutos do mar. — Fez uma pausa, lembrando-se de algo. — Ah, lembre-se de avisar o hospital para que, assim que o Prof. Nelson voltar, organizem imediatamente uma reunião médica. Quero que a cirurgia do Sr. Hernandes seja realizada o quanto antes.
No instante em que terminou a frase, recordou-se do frio "Não será necessário" que Clarissa havia dito na noite anterior, e franziu discretamente a testa. Ele esteve ocupado trabalhando nos últimos dias e, de fato, acabou negligenciando-a.
Depois de pensar um pouco, acrescentou:
— Passe também em uma joalheria e escolha uma peça decente. Vou levar para ela esta noite.
A empresa já estava caótica o suficiente. Ele esperava que, depois disso, ela deixasse de fazer birra.
Wilson ficou um tanto perplexo com aquelas palavras e olhou para Eduardo com evidente confusão.
Reunião médica?
Mas o pai de Clarissa já havia falecido.
— Mas o Sr. Hernandes já... — Antes que pudesse terminar, o telefone sobre a mesa tocou.
Era uma ligação do exterior.
Eduardo atendeu com uma expressão séria e fez um gesto para que Wilson saísse. Então caminhou até a janela panorâmica, passou a conversar em inglês fluente.
— O chefe está tão ocupado que já até perdeu a noção das coisas... — Ao fechar a porta do escritório, Wilson murmurou consigo mesmo.
Lembrando-se das instruções recebidas, ligou para Clarissa. No entanto, a ligação caiu depois de alguns toques.
Em seguida, ele telefonou para a antiga residência. Quem atendeu foi a funcionária da limpeza, e informou a ele que Clarissa estava viajando a negócios.
Wilson compreendeu.
Como seu chefe ainda não tinha almoçado e certamente perderia a paciência, tratou de pedir uma sopa de frutos do mar do restaurante Solar Imperial, acompanhada de alguns pratos leves.
Quando Eduardo voltou para casa, já eram nove da noite. A mansão inteira permanecia mergulhada na escuridão, sem uma única luz acesa.
Enquanto caminhava, afrouxou a gravata e deixou o paletó sobre o móvel da entrada.
O silêncio era absoluto, só se ouviam seus próprios passos.
Ele franziu a testa e estendeu a mão para acender a luz.
Aquela sensação de vazio o incomodou profundamente. Mesmo quando Clarissa viajava, ela sempre deixava uma luz acesa. Ela sabia que ele detestava o escuro.
Olhando ao redor, reparou que não havia frutas lavadas na ilha da cozinha. A geladeira também estava completamente vazia.
Ele pegou o celular e abriu a conversa com Clarissa. O apelido dela era apenas seu antigo nome de usuário e, ao lado dele, aparecia o símbolo de notificações silenciadas.
As últimas mensagens eram de três dias atrás. Inúmeras ligações não atendidas, ela perguntando por que ele não atendia o telefone, se ele poderia voltar e por que a cirurgia não havia sido marcada.
Naquela época, o estado de saúde do Sr. Gelson, pai de Jordana, era extremamente delicado. Ele simplesmente não tinha disposição para lidar com o que considerava mais um capricho dela.
Além disso, ele já havia confirmado que Hernandes permanecia estável. Não havia urgência.
Ao deslizar a conversa para cima, ele percebeu que quase todas as mensagens haviam sido enviadas apenas por ela. Ela compartilhava o resultado das entrevistas que fazia, mandava fotos das roseiras floridas no jardim, perguntava qual fruta ele preferia, lembrava-o de se agasalhar durante as viagens, avisava que o remédio para o estômago estava no compartimento interno da mala.
Ele sempre respondia apenas com um simples "Ok" ou simplesmente lia e ignorava. Sentia que eles poderiam se ver todos os dias e que não havia necessidade de gastar energia respondendo a perguntas sem sentido.
Eduardo colocou sobre a mesa a sacola da joalheria, serviu uma xícara de chá e digitou lentamente:
[A viagem está correndo bem? Quando volta? Vou te levar ao seu restaurante favorito]
Ele pensou um pouco, aquilo não soava como ele, então apagou tudo e digitou novamente.
[Como você está? Quantos dias ainda vai ficar fora? Quando volta?]
Ele apagou outra vez. Por fim, escreveu apenas:
[Quando você volta?]
E enviou.
Esperou até o seu chá esfriar completamente, e ainda não havia nenhuma resposta.
Uma sensação estranha começou a crescer dentro dele. Ele pressentiu vagamente que algo estava errado. Então, ligou novamente. Mas, na terceira chamada, a ligação caiu.
Ele tentou novamente.
E outra vez.
O resultado foi exatamente o mesmo.
Eduardo subiu as escadas.
No closet, as roupas, bolsas e joias de Clarissa continuavam organizadas exatamente como antes. Os produtos de cuidados com a pele permaneciam sobre a penteadeira. Com exceção de alguns itens discretos, nada parecia fora do comum.
Só então, ele respirou aliviado.
Pegou o telefone.
— Descubra onde a Clarissa está. — Ele disse, ao telefone.
Ela não atendia, nem respondia às mensagens.
Desde quando as coisas ficaram assim?
— Mas a Sra. Clarissa não tinha viajado? — Do outro lado da linha, Wilson ficou surpreso.
— Quero saber para onde! — A voz de Eduardo tornou-se fria e impaciente.
Pouco depois, Wilson retornou.
— Verifiquei na empresa. Não há nenhuma viagem de trabalho programada para ela. Também consultei os registros de passagem e ela não comprou nenhuma. — Ele fez uma pausa antes de acrescentar. — Talvez ainda esteja muito abalada com a situação do Sr. Hernandes. Talvez tenha ido passar alguns dias na casa de alguma amiga.
Clarissa nunca foi alguém que fizesse escândalo por qualquer coisa, muito menos do tipo que guardava rancor, mas a decisão tomada por Eduardo naquele caso era realmente difícil de defender. A vida de um familiar estava em jogo e ele tinha decidido tudo sozinho. Qualquer pessoa teria motivo para ficar furiosa, até pedir o divórcio seria compreensível.
No entanto, Wilson jamais teria coragem de dizer isso na frente do chefe, a menos que quisesse ser demitido.
— Talvez fosse melhor deixar a senhora se acalmar por alguns dias. — Sem ouvir uma resposta, Wilson continuou. — Quando ela estiver melhor, o senhor pode pedir desculpas...
Eduardo soltou uma risada fria.
— O seu bônus deste mês está cancelado. — Reprimindo a irritação que sentia, respondeu.
Wilson ficou sem palavras.
A ligação foi encerrada abruptamente, e o rosto de Eduardo escureceu.
Ela queria que ele pedisse desculpas? Ela estava viciada em fazer birra?
Ele realmente a tinha mimado demais.
Olhando novamente para a conversa ainda sem resposta, sua raiva aumentou ainda mais.
Tratamento de silêncio?
Muito bem!
Com uma das mãos na cintura e a outra apertando o celular com força, digitou rapidamente:
[Descubra primeiro onde está o seu erro antes de vir me procurar]
Enviou a mensagem, bloqueou a tela, jogou o telefone na cama e foi direto para o banheiro.