Clarissa escolheu instalar seu novo estúdio na região sul de Jardim Imperial, um bairro conhecido por concentrar moradores de alto poder aquisitivo. O acesso era fácil, mas o ambiente permanecia tranquilo, longe do agito da cidade.
Assim que voltou do hospital, mergulhou de cabeça nos desenhos.
Ela e Diogo já haviam definido a cadeia de fornecimento dos tecidos e estruturado duas linhas de produtos bem distintas. A primeira seria uma linha de alta-costura sob medida, com atendimento exclusivamente mediante agendamento, oferecendo peças únicas e produção extremamente limitada. A segunda seria uma coleção pronta para vestir, inspirada na elegante modelagem tradicional da corte imperial. Destinada apenas a clientes fiéis e mulheres da elite, a coleção não seria produzida em larga escala.
O que é raro tem valor.
As esposas das grandes famílias eram as que mais detestavam encontrar outras pessoas usando a mesma roupa. A alta-costura personalizada atendia perfeitamente a esse desejo de exclusividade.
Tecidos da mais alta qualidade, bordados artesanais feitos por profissionais renomados e uma identificação exclusiva para cada cliente. Uma elegância única e irreplicável, esse tipo de exclusividade era praticamente uma necessidade para aquele círculo social.
Embora o pai de Clarissa sempre tivesse trabalhado com peças de alto padrão, suas criações nunca possuíram esse senso absoluto de raridade.
Seu público-alvo eram mulheres que ocupavam o topo da pirâmide social de Altânia.
De repente, alguém bateu na porta. Clarissa ergueu a cabeça.
— Sra. Clarissa, a peça-piloto ficou pronta.
— Rápido, vamos abrir! — Seus olhos imediatamente se iluminaram e ela levantou-se às pressas.
Era a última criação deixada por Hernandes. Ele tinha passado seis meses revisando o desenho até chegar à versão final. Depois de sua morte, Clarissa acrescentou alguns detalhes inspirados em suas próprias ideias.
A peça havia sido enviada ao ateliê uma semana antes e ficado pronta muito mais rápido do que ela imaginava.
Ela contornou a mesa, retirou cuidadosamente o vestido e o estendeu sobre o sofá.
Em um delicado tom de branco perolado, a peça trazia um bordado de flores de ameixeira que acompanhava a gola e descia pela frente até a cintura. As flores, de uma elegância discreta, contrastavam com os galhos de traços firmes, enquanto pequenas miçangas aplicadas ao centro das pétalas captavam a luz. Entre os ramos, pássaros ricamente bordados repousavam em meio à composição.
O brilho era contido. Toda a peça transmitia uma elegância refinada e nobre. Sob a luz do sol, parecia emitir um suave fulgor.
Era de uma beleza estonteante.
— Tal como eu imaginava, a peça pronta ficou ainda mais bonita do que o esperado. — Clarissa sorriu levemente, seus olhos transbordavam satisfação.
A assistente ao lado assentiu repetidamente.
— Se querem saber o que é verdadeiro luxo, nada supera o que nossos antepassados nos deixaram.
Clarissa dobrou cuidadosamente o vestido e o guardou. Agora que a peça estava pronta, o próximo passo era encontrar a ocasião e o ambiente certos para que ela fosse vista exatamente pelo público que desejava atingir.
Seu celular vibrou e ela recebeu uma mensagem no WhatsApp.
Diogo: [Dê uma olhada neste concurso]
Clarissa abriu o link.
"A Essência da Elegância: Concurso Nacional de Alta Costura"
O evento era organizado conjuntamente pelo Museu Nacional, pelo Instituto de Design e pela Associação de Vestuário de Altânia.
Outra mensagem chegou logo em seguida.
Diogo: [Veja quem está no júri]
Ela deslizou a tela para baixo e um nome imediatamente chamou sua atenção: Carlos Jesuíta.
Seu pai já lhe tinha falado sobre ele.
Professor do Instituto de Design da Universidade de Altânia, tinha sido convidado anos atrás pelo Museu Nacional para participar da restauração e pesquisa dos trajes da corte imperial.
Seu pai o conheceu rapidamente durante um fórum realizado em Valença, e sempre que mencionava aquele encontro, falava dele com enorme respeito. Chegou até mesmo a considerá-lo o grande modelo de toda a sua carreira.
Clarissa acariciou a tela do celular com o polegar.
Se queria reconstruir a marca Elegance, precisava de um marco. Talento e técnica, por si só, não bastavam, era preciso reconhecimento. E aquele concurso era a oportunidade perfeita.
Ela ligou para Diogo. Depois de três toques, ouviu sua voz grave do outro lado.
— Clarinha.
— Você quer que eu participe desse concurso? — Ela foi direto ao ponto.
— Sim. O objetivo oficial é preservar o patrimônio cultural imaterial e divulgar a estética tradicional, mas existe outra intenção por trás.
— Qual?
— O Prof. Carlos pretende aproveitar a competição para escolher seu último aprendiz. — Diogo respondeu calmamente.
— Você está falando sério? — Clarissa apertou o celular com força.
Carlos era uma verdadeira lenda no design tradicional, durante toda a vida, dedicou-se ao estudo e à prática da estética imperial. Se pudesse tornar-se sua última aprendiz, aprenderia com um verdadeiro mestre. Além de aperfeiçoar suas habilidades como designer, isso também daria enorme credibilidade à marca.
— Alguma vez eu menti para você? — A voz do outro lado da linha era gentil. Depois de pensar por um instante, acrescentou. — Eu já encontrei o Sr. Carlos algumas vezes. Se você quiser, posso...
— Não precisa. — Clarissa recusou imediatamente, logo percebendo o que ele pretendia. — Não quero que você me ajude. Quero tentar por mérito próprio.
— Eu sabia que você diria isso. — Diogo riu baixinho.
Um artista daquele nível ser apresentado por terceiros poderia acabar surtindo o efeito contrário. Se queria que Elegance fosse notada, primeiro, ela mesma precisava chamar a atenção.
Clarissa respirou fundo, abriu a página de inscrição e preencheu todos os dados. O cursor permaneceu alguns segundos sobre o botão Enviar antes que Clarissa finalmente clicasse.
Independentemente do resultado, ela daria tudo de si.
Quando voltou para Vila Enseada, já passava das nove da noite. Exausta, estacionou o carro e caminhou até a entrada.
Foi então que avistou uma figura encostada ao lado de um carro. Entre os dedos do homem, a ponta avermelhada de um cigarro brilhava na escuridão. A névoa espalhava-se lentamente ao seu redor, tornando seus traços ainda mais profundos e acrescentando-lhe uma indolência fria.
Ao ouvir seus passos, ele apagou o cigarro sob a sola do sapato, virou-se e seu olhar pousou sobre ela.
— Trabalhando até tão tarde? — Talvez por causa do cigarro, sua voz estava levemente rouca.
Uma mecha de cabelo caía sobre a testa, parecia estar esperando há muito tempo.
Clarissa não perguntou há quanto, apenas disse:
— O que você está fazendo aqui?
— O quê? Eu não posso vir? — Eduardo caminhou em sua direção.
Aquele tom natural, arrogante e cheio de superioridade bastou para acender a irritação que ela tentava conter.
— Já assinou os papéis? — Ela perguntou friamente.
— Não tem mais nada a dizer? — As sobrancelhas dele se franziram.
— O que mais haveria para dizer? — Clarissa soltou uma risada sarcástica.
Em vez de perder tempo ali, ele faria melhor em continuar bajulando Gelson. Por que descarregar sua irritação justamente nela?
Sem esperar resposta, ela tirou as chaves da bolsa e abriu o portão.
Assim que a porta se abriu, Eduardo entrou como se estivesse em sua própria casa, olhando ao redor do jardim florido.
— Parece um lugar agradável. — Disse assentindo.
Clarissa retirou a chave da fechadura e olhou para aquele homem que passeava pelo quintal com uma naturalidade quase irritante.
— Você veio aqui por algum motivo específico?
— Um marido prestes a se divorciar não pode vir verificar onde a esposa mora? — Eduardo perguntou, intrigado.
Verificar onde ela mora?
Na verdade, ele queria ver o quão miserável seria sua vida sem ele. Infelizmente, ele não conseguiu o que queria.
— Fique à vontade.
Ela sequer perguntou como ele havia descoberto seu endereço. Para alguém como Eduardo, conseguir esse tipo de informação exigia apenas um estalar de dedos.
— Não tenho chinelos sobrando. A diarista vem amanhã de qualquer forma, então fique à vontade. — Clarissa passou por ele, abriu a porta principal, acendeu as luzes e pendurou as chaves no móvel da entrada.
— Está bem. — Ele respondeu com um murmúrio.
Quando Clarissa entrou na sala, Eduardo abaixou discretamente os olhos e lançou um olhar para o interior da sapateira. Havia apenas sapatos femininos, e todos do estilo que ela costumava usar.
— Chá ou café? — Perguntou ela.
— Água basta.
A casa seguia um elegante estilo americano clássico. Da ampla janela da sala era possível ver o muro coberto por roseiras no jardim.
Enquanto respondia casualmente, Eduardo percorreu discretamente cada canto da residência. A entrada, a sala, a escada. E confirmou que não havia qualquer vestígio da presença de outro homem. Só então ele se acomodou lentamente no sofá e seus olhos escuros voltaram-se para Clarissa.
— Esta casa... foi você quem comprou? — Em tom aparentemente casual, perguntou.
— Sem contrato assinado, sem divisão de bens, de onde eu tiraria dinheiro para comprar uma casa? — Clarissa colocou o copo de água diante dele, com uma expressão de desagrado.
Diante daquela atitude, Eduardo não demonstrou irritação, pegou o copo de água e lançou-lhe um olhar de soslaio.
— Então foi Diogo quem te deu?