O posto de enfermagem ligou para Clarissa, informando que ainda havia alguns pertences de seu pai esquecidos no hospital.
Depois de organizar os desenhos de seus novos projetos, ela foi buscá-los.
Ao voltar a pisar naquele lugar, sentiu o peito apertar de forma incontrolável.
Naquele dia, quando a tentativa de reanimação falhou, foi ela quem limpou o rosto do pai e trocou suas roupas. Desde então, aquele cheiro estranho e inesquecível permanecia preso em sua memória. Bastava entrar na ala de internação para sentir o nariz arder e os olhos marejarem.
Chovia há três dias seguidos. O vento soprava, trazendo um frio úmido, e Clarissa apertou o casaco contra o corpo.
O elevador subiu direto para o sétimo andar, onde ficavam os quartos VIP. Seu pai esteve internado ali por muito tempo, por isso ela conhecia boa parte dos funcionários.
Assim que saiu do elevador, ouviu alguém chamá-la.
— Clarinha, você veio!
Era Estela, uma das funcionárias da limpeza. Tempos atrás, ela havia sido injustiçada no trabalho, e o pai de Clarissa a ajudou a resolver a situação. Desde então, as duas foram se aproximando.
Estela era do interior, calorosa, simples e extremamente afetuosa. Um mês antes, tinha voltado para sua cidade natal porque havia nascido seu netinho. Pelo visto, havia retornado ao trabalho fazia apenas alguns dias.
Clarissa sorriu e a cumprimentou.
— Eu trouxe uns ovos de pato lá da minha terra. Quando eu terminar o serviço, levo alguns para você. — Estela apoiou o esfregão no carrinho de limpeza e disse, sorrindo com gentileza.
Ela sempre fazia isso. Toda vez que voltava da cidade natal, trazia alimentos típicos de lá para Clarissa e seu pai. Dizia que vivia sozinha em Altânia, sem muitos conhecidos, e que conhecer alguém era uma questão de destino.
Como não tinha uma filha, e Clarissa era bonita e educada, a senhora gostava dela genuinamente.
Então pareceu lembrar-se de algo.
— Mas me diga uma coisa... — Disse ela, intrigada. — Hoje cedo vi que o quarto 202 estava vazio. Não conhecia bem a nova enfermeira do posto para perguntar, mas seu pai foi transferido de quarto?
A pergunta, cheia de preocupação e boa vontade, fez o sorriso de Clarissa congelar. A mão que segurava a alça da bolsa ficou gelada.
— Não me diga que ele já recebeu alta? — Ao vê-la em silêncio, os olhos de Estela se iluminaram de esperança. — Lembro que você comentou que um amigo conseguiu marcar um médico muito famoso. A cirurgia foi um sucesso?
Clarissa hesitou, olhou para o rosto sorridente daquela senhora idosa e sentiu um nó prender sua garganta. Depois de pensar por alguns instantes, assentiu.
Estela imediatamente ficou com os olhos vermelhos. Deu alguns tapinhas no braço de Clarissa e sorriu emocionada.
— Que maravilha! Que maravilha! Finalmente ficou tudo bem. Depois de tanto tempo internado, valeu a pena. — Enquanto falava, juntou as mãos em sinal de agradecimento aos céus, agradecendo a Deus por sua bondade e por proteger Hernandes.
Depois a segurou pelo braço e começou a lhe dar recomendações sobre como cuidar dele, quais cuidados tomar durante a recuperação, o que ajudaria na reabilitação. Só interrompeu quando alguém apareceu no corredor.
Ao ir embora, os passos de Estela pareciam muito mais leves.
Clarissa observou sua silhueta desaparecer ao longe e baixou os olhos. Era melhor que ela nunca soubesse. Ela não queria que a própria tragédia trouxesse tristeza desnecessária para outra pessoa.
Depois de explicar o motivo de sua visita no posto de enfermagem, a enfermeira de plantão entendeu imediatamente e entrou no depósito para buscar os objetos.
Clarissa aguardava em silêncio. Nunca foi uma pessoa fofoqueira, mas o assunto que as enfermeiras comentavam era impossível de ignorar.
— É o Eduardo Alcântara. Eu já vi ele na televisão.
— Então, será que a moça que estava ao lado dele agora há pouco é a esposa dele?
— Acho que sim. Dizem que o Sr. Eduardo se casou há três anos. Não imaginava que a esposa dele fosse tão bonita.
— Ele mesmo veio internar o sogro. Além de bonito, ainda é atencioso.
A esposa dele, de quem falavam, Clarissa imaginou que só podia ser Jordana. Além dela, ninguém faria Eduardo ir pessoalmente até lá;
Será que, depois da cirurgia do pai de Jordana, ele teve medo de deixá-la sozinha cuidando do pai e, por isso, providenciou a internação dele ali?
Os cílios de Clarissa tremeram levemente, seu rosto permanecia desprovido de emoção.
De qualquer forma, eles estavam prestes a se divorciar. Com quem ele estivesse ou o que estivesse fazendo, já não dizia mais respeito a ela.
A enfermeira voltou e lhe entregou uma sacola. Clarissa agradeceu e se virou para sair, quando deu de cara com Wilson, que acabava de sair de um dos quartos.
Ao vê-la, um lampejo de nervosismo passou pelos olhos dele. Embora tivesse fechado a porta rapidamente, Clarissa ainda conseguiu enxergar parte da cena lá dentro.
Eduardo tinha acabado de cortar uma maçã em duas metades. Entregou uma ao pai de Jordana e outra à própria Jordana.
Logo depois, Gelson disse algo, e Jordana abaixou a cabeça sorrindo. Pareciam uma família.
— Sra. Clarissa. — Wilson aproximou-se, visivelmente constrangido.
A culpa estampada em seu rosto fez Clarissa quase rir. O protagonista daquela situação era Eduardo, e, mesmo assim, quem agia como culpado era o assistente.
Ao notar que Wilson ainda segurava alguns exames, Clarissa apenas assentiu educadamente e se preparou para ir embora. No entanto, ele a chamou de volta.
— Sra. Clarissa, bem... — Hesitou por um instante, como se quisesse defender seu chefe. — As famílias Alcântara e Gusmão são amigas há muitos anos. É natural que o Sr. Eduardo venha visitá-los.
Sim, de fato, era natural.
Durante os três anos em que seu pai tinha ficado internado, Eduardo o visitou apenas duas vezes. Uma delas, inclusive, só porque a diretoria da empresa estava inspecionando o hospital, e ela praticamente o arrastou até o quarto.
Eles eram amigos de infância, de famílias tradicionais. Ela e seu pai sempre foram apenas estranhos. Nunca estiveram no mesmo nível. Nem socialmente, nem emocionalmente.
Clarissa assentiu, serena como um lago sem ondas, disse apenas:
— Diga para ele assinar o acordo de divórcio o quanto antes.
Sem esperar resposta, virou-se e foi embora.
Wilson ficou parado, olhando sua figura esguia desaparecer na esquina do corredor. E não conseguiu evitar um suspiro.
Como duas pessoas que pareciam tão bem juntas tinham chegado àquele ponto?
A porta do quarto se abriu e uma figura esguia, vestida de branco, saiu para o corredor.
— Wilson, aconteceu alguma coisa? Houve algum problema com os exames? — Ao ver Wilson parado ali, perguntou sorrindo.
— Não, Srta. Jordana. Vou levá-los ao médico agora mesmo. — Ele voltou a si e respondeu.
— Certo.
Assim que Wilson entrou no elevador, o sorriso gentil de Jordana desapareceu. Ela havia visto a mulher que estava do lado de fora.
Então, aquela era a esposa de Eduardo?
Era realmente muito bonita.
Ela já tinha ouvido a governanta da família Alcântara comentar que, anos atrás, Eduardo aceitou aquele casamento apenas para conseguir os cinco por cento das ações que pertenciam ao avô. E que aquela mulher também aceitou casar-se apenas por causa do poder e da influência da família Alcântara. Jordana também sabia que o pai dela estava gravemente doente e que, mesmo assim, Eduardo deu prioridade ao seu pai.
Isso significava que entre eles não existia amor? Que, desde o princípio, aquele casamento tinha sido apenas uma transação?
"Clarissa..." Jordana repetiu aquele nome silenciosamente.
— O que está olhando?
Ela se virou e viu que Eduardo acabava de sair do quarto.
— Ele acabou de tomar os remédios. Já dormiu.
— Eduardo, muito obrigada. — Jordana ergueu os olhos, sorrindo com delicadeza. — Você anda tão ocupado, e mesmo assim veio pessoalmente cuidar de tudo.
— Não precisa agradecer. Você é importante. — O tom de Eduardo permaneceu tranquilo.
Você é importante.
Jordana apertou discretamente a barra da roupa, ondas de alegria se espalharam por seu coração.
— Eu sei, eu sempre soube. — Ela baixou os olhos, um pouco envergonhada.
Desde o ensino fundamental, no dia em que ele a carregou nos braços até a enfermaria depois que ela se machucou, ela soube. Eduardo sempre a tratou de forma diferente. Mesmo durante todos aqueles anos em que ela morou na Alemanha, os dois jamais perderam o contato. Sempre que ele viajava para lá a trabalho, fazia questão de reservar um tempo para visitá-la e também a seu pai.
E agora que haviam voltado para o país, ele tinha cuidado pessoalmente de toda a internação.
Eduardo apenas abaixou a cabeça e continuou respondendo mensagens de trabalho.
O corredor mergulhou em silêncio.
Pouco depois, Wilson voltou com a prescrição médica e a lista de medicamentos.
— O médico disse que o Sr. Gelson está se recuperando muito bem da cirurgia. Todos os indicadores estão dentro da normalidade.
Jordana recebeu os documentos e sorriu, assentindo.
— Chefe... — Wilson falou em voz baixa, hesitante.
— Vou entrar para ver o soro. — Percebendo que havia algo a ser tratado, Jordana foi sensata e se retirou.
Eduardo assentiu levemente.
— Pegue os remédios no horário certo. Eu também providenciarei alguém para cuidar dele.
— Chefe. — Assim que a porta do quarto se fechou, Wilson baixou ainda mais a voz. — Encontrei a Sra. Clarissa agora há pouco.
Eduardo imaginou que Clarissa tivesse ido visitar o pai e lançou-lhe apenas um olhar, indicando que continuasse.
— Ela disse... — Wilson respirou fundo antes de transmitir o recado. — para o senhor assinar o acordo de divórcio o quanto antes.
O dedo de Eduardo, que deslizava pela tela do celular, parou por um instante. Depois de alguns segundos, respondeu apenas:
— Entendido.
Era impossível saber o que estava sentindo, seu tom era indecifrável.
Do outro lado da porta, encostada na madeira, Jordana apertou lentamente os dedos.
Eles... vão se divorciar?