— O que é que você está tentando dizer? — Clarissa apoiou-se no aparador, cruzando os braços diante do peito.
Ele claramente já havia investigado tudo, mas ainda fazia rodeios apenas para provocá-la.
Como ela nunca tinha percebido antes que aquele homem conseguia ser tão irritante?
— Se veio aqui para brigar, desculpe, mas não tenho energia para isso. Se veio confirmar alguma coisa, já viu tudo o que queria.
A mão de Eduardo, que segurava o copo d'água, estacou por um instante. Ele não respondeu e, após alguns segundos de silêncio, pousou o copo sobre a mesa.
— Na semana que vem é o aniversário de sessenta anos do meu pai. Vamos à residência da família juntos. — Aquilo era um aviso, não um convite.
— Não vou. — Clarissa recusou sem pensar duas vezes.
O que ela, uma mulher sem família influente e sem qualquer status, iria fazer na festa de aniversário do patriarca da família Alcântara? Ouvir os parentes soltarem comentários venenosos? Ou continuar interpretando o papel de obediente e compreensiva esposa, sempre seguindo Eduardo para todos os lados?
Voltar para ser largada entre as mulheres mais velhas da família, ouvindo tias e primas analisarem sua aparência da cabeça aos pés, para no fim concluírem:
— Não sei o que Eduardo viu nela.
Durante três anos, todas as visitas à casa da família terminavam da mesma maneira. Ela já estava farta. Era melhor aproveitar esse tempo desenhando novos modelos.
— Este ano, o meu tio e a minha tia vão voltar do exterior. O pai fez questão de que todos compareçam.
O tio...
Clarissa arqueou levemente as sobrancelhas. Ela se lembrava daquele casal. Só os tinha visto uma vez, no casamento. Durante toda a cerimônia, permaneceram com o rosto fechado e sequer aceitaram o brinde que ela lhes ofereceu.
Diziam que os dois irmãos nunca haviam se dado bem.
Anos atrás, antes de morrer, o avô de Eduardo deixou o Grupo Alcântara para o seu pai, Renato. Silas, o tio, ficou furioso com a decisão e partiu para o exterior, sem sequer comparecer ao funeral do próprio pai.
Mais tarde, quando Renato sofreu um derrame e a empresa mergulhou no caos, Eduardo, recém-formado, foi empurrado às pressas para a presidência do grupo. Foi então que Silas voltou para disputar o controle da empresa, reunindo um grupo de acionistas para pressioná-lo na sede.
Naquela época, para conseguir as ações deixadas pelo avô, Eduardo acabou se casando com ela às pressas. Então, será que ele queria convencê-la a comparecer apenas porque temia que o divórcio lhe trouxesse problemas desnecessários?
— E o que eu ganho com isso? — Clarissa perguntou sem rodeios.
Eduardo claramente não esperava tamanha franqueza e soltou uma risada baixa.
— O que você quer? Uma casa? Um carro? Recursos?
Então era assim que ele a enxergava. Uma mulher vulgar e interesseira.
— Sua assinatura no acordo de divórcio. — Clarissa encarou-o sem hesitar, cada palavra foi pronunciada com absoluta clareza.
No mesmo instante, os dedos de Eduardo, que tamborilavam no braço do sofá, pararam. Seu pomo de Adão moveu-se discretamente.
Os dois se encararam e a sala mergulhou em silêncio. Só o tic-tac do relógio quebrava a quietude.
Ele voltou a fitá-la, como se ainda esperasse encontrar algum traço de birra em seus olhos. Mas aqueles olhos amendoados continham apenas uma determinação que ele nunca tinha visto antes.
Ela estava tão ansiosa assim para deixá-lo? Não conseguia suportá-lo nem por mais um instante?
Nos últimos dias haviam se encontrado apenas três vezes, e, em todas elas, o assunto era sempre o mesmo.
Divórcio.
Ela o tratava com frieza, respondia de forma cortante, como se entre eles existisse um ódio profundo.
Ele simplesmente não entendia por que ela estava assim.
— Está bem. Quando tudo isso acabar, eu assino. — Eduardo respirou fundo, reprimindo a irritação que crescia em seu peito, e tentou parecer descontraído.
Clarissa ergueu as sobrancelhas. Era evidente que não esperava uma resposta tão direta.
— Para evitar que você volte atrás, assine antes e entregue ao advogado. Depois que eu cumprir minha parte, vou buscá-lo pessoalmente.
— Haha... — Eduardo riu, incrédulo. — Você tem medo de que eu volte atrás na minha palavra?
— Não é impossível. — Clarissa respondeu com toda sinceridade.
Era um assunto importante demais para ficar sem garantias. Se ele mudasse de ideia depois, quem assumiria a responsabilidade?
Ele levantou-se e caminhou até ela. Seus olhos negros prenderam os dela, carregados de um sarcasmo quase de deboche.
— Você realmente acha que eu não consigo viver sem você? — Depois acrescentou, em tom frio. — Fique tranquila. Quando tudo terminar, eu assino.
— Então espero que o senhor cumpra a própria palavra. — A expressão de Clarissa permaneceu impassível e sua voz soou clara e firme.
Eduardo lançou-lhe um olhar afiado, cheio de irritação, franziu a sobrancelha, virou-se e foi embora. A porta bateu com tanta força que toda a casa pareceu estremecer.
Clarissa olhou na direção da entrada, com o rosto tomado pela impaciência.
Que sujeito estranho. A vida dele devia estar muito infeliz para dirigir mais de vinte quilômetros só para descontar sua raiva nela.
Está doente.
Mas, no instante seguinte, toda a sua irritação desapareceu. Seu olhar caiu sobre o copo de água que ele tinha deixado pela metade sobre a mesa de centro. E os cantos de seus lábios se curvaram discretamente.
Ela aceitou voltar à residência da família Alcântara por dois motivos. O primeiro era conseguir a assinatura no acordo de divórcio. O segundo era porque o aniversário de sessenta anos de Renato seria um grande evento.
Com a volta de Silas e de sua família, a comemoração certamente seria grandiosa. Muito provavelmente, as esposas das famílias mais influentes de Altânia estariam todas presentes. Seguindo o costume, Eduardo a levaria para cumprimentar os convidados e, depois, a deixaria no meio do grupo de madames.
Clarissa sorriu de forma astuta. Ela estava preocupada por não encontrar uma ocasião adequada para divulgar sua marca, e agora a oportunidade perfeita bateu à sua porta.
Perfeita, natural e absolutamente legítima.
Dentro do carro, reinava o silêncio. A luz interna permanecia acesa, destacando ainda mais os traços bem definidos do rosto de Eduardo. Com as duas mãos apoiadas no volante, ele manteve o olhar fixo através do portão de ferro, na porta da casa.
Não desviou os olhos por muito tempo. Só voltou a si quando a luz do primeiro andar finalmente se apagou. Então estendeu a mão para o envelope pardo que estava no banco do passageiro.
Já fazia uma semana e ele ainda não o havia aberto. Desfez o lacre e retirou os dois documentos de dentro.
"Acordo de Divórcio." Só aquelas palavras já lhe pareciam dolorosamente ofensivas. Jamais imaginou que, um dia, ele quem seria rejeitado.
Na verdade, sua intenção ao ir até ali era conversar calmamente com Clarissa. Ele havia esperado quase duas horas na porta de sua casa até que ela voltasse do trabalho.
E o resultado disso? Antes mesmo de conseguir dizer alguma coisa, aquela mulher já o tinha deixado furioso. Parecia que tinha engolido pólvora.
Franzindo a sobrancelha, ele abriu o documento. Imaginava que ela tinha aproveitado a oportunidade para arrancar dele uma fortuna. Mas cada cláusula, cada item, era absolutamente razoável. Como ela mesma tinha dito, pegaria apenas aquilo que lhe pertencia.
Na última página estava uma delicada assinatura: Clarissa Venâncio.
A tinta já havia secado há muito tempo. Seus dedos deslizaram lentamente sobre aquele nome, enquanto ele mergulhava em pensamentos.
No momento em que assinou, o que estaria passando pela cabeça dela?
Se ele tivesse aberto aquele envelope no dia em que chegou à empresa, se tivesse voltado para casa e conversado com ela, talvez a situação não teria chegado a esse ponto.
Seu olhar pousou na linha que indicava o motivo do divórcio: ruptura irreparável da relação conjugal
"Ruptura irreparável da relação conjugal". Eduardo encarou aquelas cinco palavras como se quisesse atravessá-las com os olhos.
"Ha! Se alguém destruiu esse relacionamento, foi ela. Andando tão próxima de outro homem. Sabe-se lá há quanto tempo já existia algo entre os dois. Pensando bem, esse acordo precisa de mais uma cláusula. A esposa deverá indenizar o marido pelos danos morais causados por sua própria conduta." Eduardo pensou para si mesmo.
Com que direito era ela quem pedia o divórcio?
Se alguém tinha esse direito, era ele, a verdadeira vítima.
Obrigá-lo a assinar já era absurdo, ainda por cima contratar um advogado? Sua credibilidade era tão baixa assim?
Eduardo fechou o acordo de divórcio com força e o jogou no porta-luvas. Ligou o carro e deixou lentamente a rua. Pelo retrovisor, a casa ia ficando cada vez menor.
Então voltou a lembrar da expressão impaciente de Clarissa. Durante toda a conversa, ela não lhe deu sequer um sorriso.
Ele imaginava que ela pediria recursos, que usaria a festa da família Alcântara para negociar alguma divulgação para o pequeno ateliê deixado pelo pai. Mas não. O único pedido dela foi a sua assinatura.
Que mulher impiedosa. Mudou completamente de atitude da noite para o dia.
A iluminação dos postes fazia seu rosto alternar entre luz e sombra. Eduardo apertou o volante com força, seu pomo de Adão moveu-se discretamente.
Era só um divórcio. Ele, Eduardo Alcântara, não precisava se abalar por causa disso.
O semáforo ficou verde, ele pisou fundo no acelerador, e o carro disparou como uma flecha pela avenida.