— Me solta.
Clarissa foi praticamente arrastada até o estacionamento subterrâneo. Seu pulso doía tanto que ela franzia a testa sem conseguir esconder o desconforto.
O estacionamento era amplo e vazio, apenas sua voz ecoava pelo espaço.
Quando os dedos de Eduardo roçaram a pele avermelhada que ele mesmo tinha deixado em seu pulso, sua mandíbula se enrijeceu. Seus olhos escureceram e tudo o que conseguia ver era a cena de instantes antes, no corredor, Diogo segurando a mão de Clarissa.
Sem perceber, apertou ainda mais.
O rosto dela corou de raiva e, por fim, sem conseguir suportar mais, ela o empurrou com toda a força.
— Eduardo, já chega! — Sua voz transbordava irritação.
O empurrão o fez perder o equilíbrio por um instante, havia surpresa em seus olhos. Antes, Clarissa costumava chamá-lo de querido. Agora, ao ouvir seu próprio nome sair da boca dela com tanta frieza, Eduardo sentiu que havia algo diferente.
— Como é que você me chamou? — Ele voltou-se para ela.
O tom impaciente dela caiu sobre ele como um balde de água fria, extinguindo o fogo que ardia em seu peito.
Quem tinha sido pega no flagra era ela, então por que era ela quem estava irritada?
Clarissa simplesmente o ignorou e continuou massageando o pulso machucado. Seu peito subia e descia levemente por causa da caminhada apressada.
Depois de recuperar o fôlego, disse calmamente:
— Você já recebeu o acordo. Quando tiver disponibilidade, vamos ao cartório registrar o divórcio. — Sua voz era indiferente, como se estivesse perguntando o que comeriam no jantar, sem qualquer emoção.
Naquele instante, Eduardo lembrou-se do envelope e de Wilson dizendo: "Foi a Sra. Clarissa quem enviou.". Lembrou-se de sequer tê-lo aberto, apenas o tinha largado de lado. Depois vieram as reuniões, os projetos, e, por fim, acabou se esquecendo completamente.
Então, era aquilo. O acordo de divórcio.
Ela já havia decidido se divorciar dele.
Por causa de quem? Diogo?
Seu olhar voltou a percorrer Clarissa. A camisa de cetim, combinada com a calça de alfaiataria, destacava sua silhueta elegante, um cinto metálico marcava delicadamente sua cintura. Os cabelos negros caíam em ondas suaves. Ela usava uma maquiagem leve. Transmitia competência e segurança, parecia uma executiva bem-sucedida.
Ele percebeu que há muito tempo não a observava de verdade. Em casa, ela sempre usava roupas simples e confortáveis, com o rosto limpo, sem maquiagem, e os cabelos soltos sobre os ombros.
Todos os dias, ao chegar do trabalho, encontrava aquela mulher sorrindo com ternura. Ela enterrava o rosto em seu peito e, com a voz suave, perguntava se ele estava cansado ou se algo havia acontecido.
Ele se acostumou tanto com aquela versão gentil dela, que agora, a mulher fria diante dele parecia uma completa desconhecida. Os olhos, antes repletos de carinho, agora pareciam conter apenas decepção.
Ele havia esquecido que ela também era humana e que, depois de ser deixada de lado repetidas vezes, também tinha o direito de sentir raiva.
Eduardo respirou profundamente, reprimindo as emoções que se agitavam em seu peito.
— Nós dois estamos de cabeça quente. — Sua voz era baixa. — Não é um bom momento para falar sobre isso. Vamos para casa primeiro.
Ele estendeu a mão para segurá-la, mas Clarissa deu meio passo para trás e desviou rapidamente.
Aquele gesto atingiu Eduardo em cheio. Sua mão ficou suspensa no ar, imóvel.
— Aquela é a sua casa, não minha. — Ela ergueu os olhos, sentindo o nariz arder de repente, sua voz falhou pela emoção. — Eu já não tenho mais um lar.
Era verdade, ela já não tinha mais um lar. Seu pai havia partido, ela estava completamente sozinha no mundo.
A imensa cidade brilhava sob milhares de luzes. Todos pareciam ter alguém em quem se apoiar, menos ela.
Ela realmente acreditou que seria capaz de conquistar o coração de Eduardo. Por ele, esforçou-se para fazer tudo da melhor maneira, aprendeu regras de etiqueta e como se portar em cerimônias tradicionais. Tudo aquilo em que nunca foi boa. Lapidou a própria personalidade para se tornar exatamente a mulher que ele desejava.
Ela queria proteger o pai, queria proteger aquele casamento. E, no fim, perdeu ambos. Não conseguiu salvar nada. Sentia-se um fracasso.
Reprimindo à força a dor, obrigou as lágrimas a permanecerem dentro dos olhos. Ela não queria que Eduardo a visse daquele jeito. Então, levantou a cabeça e virou-se para ele com firmeza no olhar.
— Eu não vou voltar. Já me mudei. Não levei nada que fosse seu. — Fez uma pausa e acrescentou. — As cláusulas do acordo são justas. Vou ficar apenas com aquilo que me pertence.
Que fosse dele? Apenas o que lhe pertencia?
Eduardo não conseguiu evitar achar graça.
— Então você separou tudo muito bem. — Puxou levemente o canto da boca, dando um sorriso irônico. — Clarissa, para você, esses três anos foram apenas uma transação? Não foram?
— E você se casou comigo apenas por causa das ações que seu avô controlava, não foi? — Ela respondeu imediatamente, como se já tivesse enxergado toda a verdade há muito tempo. — Então não finja que é melhor do que eu. Nenhum de nós tem moral para apontar o dedo para o outro.
O ar congelou instantaneamente.
Passou-se um segundo.
Dois.
Três.
De repente, Eduardo riu e retirou lentamente a mão que permanecia suspensa no ar.
— Muito bem.
Aquelas palavras atravessaram seu orgulho como uma agulha.
Ele deu um passo à frente e sua sombra envolveu completamente o corpo de Clarissa. Toda a suavidade que demonstrava momentos antes desapareceu, como se nunca tivesse existido.
— Eu não vou assinar. Você sabe muito bem por que aceitei me casar com você. — Ele olhou para ela de cima, com o ar de superioridade que sempre carregava. — Nem o começo nem o fim do nosso relacionamento são decisões que cabem a você.
Ali estava.
Aquele era o verdadeiro Eduardo.
A delicadeza e gentileza eram apenas uma máscara. Quando seus interesses eram ameaçados, ele voltava a ser o homem impiedoso que dominava o mundo dos negócios.
Clarissa permaneceu olhando para ele em silêncio por um longo tempo.
— Eduardo, você realmente acredita que eu só consigo viver se for com você? — Perguntou.
Ele não respondeu, mas seus olhos responderam por ele.
— Espero que continue tão confiante assim. — Ela soltou uma risada fria e irônica.
Sem acrescentar mais nada, tirou as chaves da bolsa e caminhou em direção ao próprio carro. Sua calma era quase assustadora.
Eduardo fechou os punhos, finalmente, fazendo a pergunta que o consumia.
— Qual é a sua relação com ele? — Sua voz saiu mais rouca do que imaginava.
— Não é da sua conta. — Clarissa nem sequer diminuiu o passo, afirmando categoricamente.
— Enquanto o divórcio não for finalizado, você ainda faz parte da família Alcântara.
— Não por muito tempo. — Ao tocar a maçaneta do carro, ela falou mais uma vez: — Vou pedir ao advogado que acelere o processo. Vamos nos separar de forma civilizada. Não vale a pena transformar nosso divórcio em um espetáculo.
A porta do carro se fechou, o motor ligou e os faróis iluminaram seu rosto em claros e sombras.
O veículo afastou-se lentamente até desaparecer completamente na curva.
Eduardo permaneceu imóvel, com as mãos frias pendidas ao lado do corpo.
Ao entrar no próprio carro, precisou acionar o isqueiro três vezes antes de conseguir acender o cigarro. A fumaça envolveu seu rosto e, antes mesmo que se dissipasse, seu olhar encontrou o retrovisor. Nele pendia um pequeno amuleto da sorte.
Clarissa tinha ido ao templo especialmente para buscá-lo para ele. Naquele dia, uma tempestade bloqueou a estrada da montanha e ela telefonou pedindo que ele fosse buscá-la.
Quando Eduardo chegou ao pé da montanha, encontrou Clarissa encolhida sob um enorme cogumelo decorativo.
Assim que o viu, ela sorriu, meio sem graça, como uma criança que tinha aprontado alguma coisa, e pediu desculpas. Logo em seguida, tirou do bolso um pequeno amuleto, mostrando-o toda orgulhosa, dizendo que tinha sido confeccionado pessoalmente por um mestre. Entre mais de vinte pessoas do grupo, somente ela teve a sorte de consegui-lo.
A luz interna do carro estava acesa. Ela estava completamente encharcada, com os cabelos grudados na testa, parecia um gatinho abandonado pela chuva. Mesmo assim, seus olhos brilhavam intensamente.
Eduardo quase nunca dirigia. Nas viagens e compromissos, normalmente era Wilson quem conduzia. Além disso, trocava de carro com frequência. Então nunca havia prestado atenção ao que aparecia ou desaparecia dentro deles. Nem sequer sabia quando Clarissa tinha pendurado aquele amuleto. Talvez tenha sido naquela noite, talvez dias depois.
A brasa do cigarro queimou até alcançar seus dedos, somente quando sentiu a dor percebeu e apagou-o no cinzeiro.
Depois de muito tempo em silêncio, ele pegou o celular e fez uma ligação.
— Investigue o Diogo.
Uma forte pontada atravessou novamente seu estômago.
Eduardo abaixou a cabeça sobre o volante e pressionou o abdômen com a mão.
Naquele momento, percebeu que algumas coisas estavam começando a escapar completamente do seu controle.