413. Eu não conseguia encara-lo
Gabrielle Goldman
Murilo permanecia ali, sentado ao meu lado na cama, com os braços cruzados e as pernas esticadas, relaxado demais para alguém que deveria estar sendo convidado a se retirar. Havia conforto em cada gesto seu, como se aquele espaço lhe pertencesse por direito. Lucas, por outro lado, estava em pé, aos pés da cama, segurando uma bandeja fechada com firmeza excessiva. Seus olhos permaneciam cravados em Murilo, atentos, avaliadores, enquanto um sorriso perigoso ameaçava surgir por baixo da carranca visivelmente forçada.
Mas não foi apenas a cena que chamou minha atenção. Foram as palavras. Era a segunda vez que eu o ouvia me chamar daquela forma — minha mulher. E Murilo, estranhamente, não fez qualquer tentativa de piada, não rebateu, não debochou como costumava fazer. Aquilo se instalou em mim como um alerta silencioso.
— Vai continuar ocupando meu espaço, ou terei que tirá-lo à força? — perguntou Lucas, a voz baixa, controlada demais para ser casual, enqua