O que parece isso?

Acompanhando Ramona para a ala pediátrica do hospital San Joseph, Sofia começará um turno com os bebês, mas sente que algo está errado; ela não queria estar ali e vai a pedido do seu chefe. Ramona é a chefe daquela área e ela dá cirúrgica, então têm que respeitar suas áreas e se darem bem. Sofia e Ramona se conhecem como profissionais há muito tempo, desde a entrada de Sofia como secretária de Franco, mas nunca trabalharam juntas e as regras da UTI pediátrica são estranhas, estranhas demais.

— Sofia, aqui é a minha área e as coisas aqui são diferentes. Você ficará comigo até o horário da noite, depois pode se recolher! Sabe quais são os cuidados de bebês, não? A diferença é que os relatórios, todos eles, eu e minha assistente preenchemos; você apenas passa os dados!

Sofia estranha este comportamento, pois, das medicações que ela fizer, de todos os procedimentos, ela deve anotar, pois, se acontecer algo, como ela pode se responsabilizar? E se anotarem algo que ela não fez, como ela poderá se safar? Ela tenta questionar, mas Ramona dá-lhe uma explicação confusa, mas que ela engole, afinal, não pode fazer nada!

— Sofia, não se preocupe, o que for feito anotarei na sua frente. É que tive uns problemas com umas enfermeiras e elas estavam manipulando medicamentos, colocando dados que não eram. Então, eu farei isso, mas você pode ver, farei na sua frente!

Sofia aceita e concorda com ela, então ela traz uma folha para que Sofia anote com sua letra um termo passando a responsabilidade para ela; assim, ela ficará livre de qualquer acusação! Sofia assina e, com pressa para começar os trabalhos, não lê atentamente o que assinou. Armênia chega uns minutos após Sofia e Ramona; ela chama a sua chefe para falar a sós. Sofia a cumprimenta, mas ela não responde e olha para ela com cara feia todo o momento!

— Ramona, vamos à sala de enfermagem, por favor?

Ramona pede licença a Sofia e vai com a tal Armênia, uma senhora mal-encarada e estranha. Sofia as vê entrando na sala e a porta não fecha totalmente. Como o horário previsto para os partos é em duas horas, Sofia pode comer ou tomar algo. Ela então acomoda suas coisas no armário e vai até a cafeteria, mas, ao passar pela porta, ela ouve vozes alteradas e, encostada na parede, ouve uma discussão!

— Ela não pode trabalhar aqui. Tem certeza de que o Franco sabe dela?

Armênia pergunta para sua chefe, que responde baixo, mas audível.

— Fala baixo, Meni, ela pode ouvir e foi o Franco que a mandou. Ela ficará apenas hoje!

A mulher segue alterada e reclama que, por colocarem pessoas estranhas ali, as coisas estão ficando perigosas. Sofia ouve aquilo e não sabe por que ela diz isso, já que é apenas uma UTI pediátrica, na qual nada de mais passaria. Então, segue ouvindo!

— Meni, você está levando tudo a sério demais. O que fazemos aqui, temos total controle. O que acha que ela pode fazer? Matar os bebês? Não vamos criar pânico!

Ramona tenta acalmar a mulher, mas é evidente que ela não gosta nada do que acontece e está nervosa, e, se tem algo, é melhor que Sofia descubra logo.

— Se ela está aqui, é porque Franco desconfia que não estamos fazendo nosso trabalho. Ela é espiã dele, sabe o que ela pode fazer?

Ramona sorri das palavras de Armênia. Sofia ouve quando ela se levanta da cadeira e se aproxima da mulher. Ela pode ver a sombra de Ramona em pé, tocando o rosto da outra, que esperneia e continua reclamando.

— O que acha que ela pode fazer, nos denunciar? Ela também seria cúmplice, afinal, assinou o papel que entreguei. Franco não pode fazer nada com isso e você está nervosa à toa; ele sabe de tudo o que acontece aqui! Você fechou a porta? Não queremos que ninguém ouça!

Sofia corre da porta e se esconde atrás de uma incubadora. Ela ouve a porta fechar e ser trancada, seu coração dispara, ela se pergunta o que pode acontecer ali de tão grave que elas têm que esconder. Mais uma coisa: o que tinha naquele maldito papel que ela assinou? O pior, o que fazem ali que temem ser descobertas por ela e Franco? Sofia levanta e olha ao redor. Aproximando-se da porta, Sofia ouve que ainda discutem, mas as vozes estão difusas. Ela então procura o papel que Ramona deu para ela assinar, mas já não está ali. Então ela pensa que deverá procurar no horário de descanso delas, pois ali naquela sala está o que ela precisa descobrir e não pode trabalhar para criminosas. Se for assim, ela terá de entregá-las para Franco.

— O que será que escondem? O que elas fazem aqui?

Sofia fala consigo mesma e sai dali, deixando para voltar quando estiver perto do horário das cirurgias. Ela vai para o refeitório, sozinha e pensativa, saindo silenciosa. Ela anda pelos corredores e passa pela sala de pré-parto, vendo várias gestantes em macas. Ela fica preocupada e lembra do que o motorista do táxi lhe perguntara mais cedo.

"A senhora sabe dos rumores? … dizem que os bebês somem nesse hospital e mulheres morrem…”

Sofia não gosta dessa lembrança; ela trabalha ali há mais de cinco anos e nunca aconteceu nada que lhe chamasse atenção, não dessa magnitude. Então ela pega uma bandeja e vai para a fila pegar seu almoço; ali ela repousa e come, mas o seu pensamento está em descobrir o que se passa naquele lugar, o que acontece de verdade com as crianças? Sofia termina seu almoço e volta para a UTI pediátrica. Ela se depara com Ramona, que a observa entrar e pergunta onde ela estava.

— Sofia, pensei que te encontraria aqui. Estava reunida com Armênia e esqueci de você, perdão!

Sofia disfarça bem; ela balança as mãos, dizendo que não tem problema, e logo explica onde estava.

— Ramona, querida, estava no refeitório, ia te avisar, mas, como estava ocupada com a outra enfermeira, eu apenas saí. Estava com fome e não havia comido nada!

Ramona esboça um suspiro de alívio, ela sorri como se a culpa se dissipasse, então ela segura a mão de Sofia e pede desculpas pela outra enfermeira.

— Querida, desculpa pela grosseria da Armênia. Ela é de outro país, desconfia de tudo e todos. Estava acostumada com outro colega, mas ele foi mandado embora, cometeu alguns erros, sabe? Então, ela não costuma ser amigável com pessoas de primeira, e, como expliquei a ela, você apenas cobre aqui hoje, então, ela está mais calma!

Sofia acha aquela explicação mais tosca ainda. Se ela cobre apenas hoje, por que a mulher surtaria assim? Pior, para que dar essa explicação sem lógica? Sofia não tem outra alternativa, então engole em seco o que ela diz, afinal, não quer alarmá-la de que sabe algo, mesmo que não seja muito, mas promete para si descobrir o que há por trás daquela conversa estranha.

— Não se preocupe, está tudo bem, amanhã voltarei ao meu posto e ela pode ficar tranquila! De onde ela é mesmo?

Ramona sorri e responde.

— Ela é da ilha Mareski, veio recomendada de um médico importante, Doutor Carmelo. Já ouviu falar dele? Um importante pediatra ganhou até prêmios!

Sofia nunca ouviu falar nesse homem, mas, atenta às informações, pode precisar delas um dia!

— Não ouvi falar dele, pelo menos não me recordo, mas da ilha já ouvi falar; dizem ser um lugar lindo!

A conversa das duas é interrompida quando a campainha da UTI é sinalizada; há bebês chegando, e Sofia se surpreende em como as horas passam rápido na UTI, afinal, para atender um bebê, leva-se todo um tempo grande; as avaliações deles são constantes e as gestantes estão entrando em cirurgia em pares. Logo elas são avisadas de que mais duas gestantes entrarão em cirurgia; o trabalho apenas começa.

Sofia faz as anotações dos procedimentos realizados nos bebês e passa para Ramona, como ela mesma pediu que fosse feito. Assim que ela vai à sua sala para atender uma ligação, Sofia pega o celular e tira fotos dos arquivos que ela deixa na mesinha da enfermagem. Os papéis que estão no lixo, ela os guarda e j**a mais uns vazios para substituir; assim, se ela olha no cesto de lixo, não vai notar a falta deles. A tarde segue e Ramona não percebe que Sofia trocou os papéis com as anotações dela na lixeira, pois, ao voltar, Sofia está fazendo as trocas de fraldas e limpeza dos bebês.

— Parabéns por um dia concluído com sucesso, Sofia, a pediatria é isso. Agora vá descansar, te vejo no turno da manhã!

Sofia sorri para ela e pega suas coisas, indo para o quarto de descanso. No meio do caminho, ela topa com Armênia, que vem saindo de um dos quartos de descanso. Ela a olha de cima a baixo, com a cara mais feia que consegue.

— Nossa, essa mulher é muito estranha e essa cara não me agrada!

Ela pensa consigo, olhando para Armênia e sorrindo, dando um boa noite cordial, mas não recebe resposta! Sofia deita na cama e tenta relaxar. O quarto está escuro e, momentos depois, ela cochila pesadamente. Está exausta, mas uma porta abre abruptamente. Ainda com o quarto apagado, apenas a luz do corredor ilumina parte dele. Ela ouve vozes sussurrando; parecem familiares.

— Ótimo, bom serviço. Das seis colheitas, apenas duas vão para casa, e só porque estão morrendo mesmo. Não queremos safra ruim, os pais que se virem! Já as mães, parece que duas delas vão ficar para o programa, serão dadas como mortas hoje, hemorragia interna nunca falha, não é?

Sofia ouve aquilo e tenta fingir que dorme, mas uma das vozes questiona se dorme mesmo!

— Por Deus, Armênia, por que não disse que Sofia estava neste quarto? Será que ela ouviu?

Uma luz é colocada em seu rosto, mas ela não se move e, de tão cansada que está, nem pisca. Então, Armênia confirma que ela dorme pesado e ainda tira uma brincadeira maldosa.

— Essa aí dorme pesado; poderíamos arrastar seu corpo e ela não acordaria. Olha só, acho que realmente ela não é espiã de Franco!

Ambas sorriem e Sofia ouve sons de beijos e alguns cochichos.

— Vamos, gata, nossa janta e depois vamos para outro quarto. Essa aí dorme pesado e a UTI está segura de intrusos! Vamos comemorar mais uma colheita com sucesso!

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