O desespero de Sofia!

Sofia ouve os risos e Ramona pergunta se sua assistente trancou a sala da UTI, mas Armênia diz que ela mesma trancou. Então, Ramona pega a chave e a pendura no gancho. As duas saem e Sofia levanta ao ouvir a porta trancar! Ela olha através da janelinha do corredor e vê que está vazio, abre a porta devagar e comprova não haver um ser ali, então olha no relógio, passa das três horas da madrugada. Ela achou que apenas havia cochilado, mas dormiu pesado e nem percebeu. Senta-se novamente na cama e constata que está mais alerta agora; era tudo o que ela precisava.

— Mas que papo é esse de "colheita"? Eu não entendo esses jargões da Ramona e isso está me assustando; tenho que saber o que assinei e pegar as provas!

Sofia suspeita das mulheres ao ouvir as palavras delas e, decidida, pega a chave e vai pelo corredor até a UTI, entra vagarosamente e vê que todos os bebês estão ali, mas olha suas fichas e percebe que os bebês que ela anotou com exames e saúde intactas estão com fichas alteradas. Ela pega então as fichas originais, tira cópias e as coloca no lugar. Então ela vê a sala da enfermagem, precisa do arquivo que ela assinou, então tenta entrar, mas está trancada. Sofia abre com a chave que Ramona deixou no quarto, entra e vai até a mesa dela; lá estão os arquivos do dia! Ela vê a folha que assinou mais cedo na prancheta e a puxa para ler.

— Não pode ser!

No arquivo está escrito que ela assume total comprometimento com os erros médicos, que ela administrou os medicamentos e fez os exames, que os bebês que faleceram estão sob sua total responsabilidade! Ela arregala os olhos e não consegue acreditar no que vê; a data marcada está para dois dias à frente, ainda nem foi carimbada, o que significa que os bebês serão levados até essa data e que ela será responsabilizada!

— Mas, o que significa isso? Não pode ser, e tem a assinatura do Franco. Ele sabe disso; será que forjaram sua assinatura?

Em desespero, Sofia pensa no que poderá ser feito. Então ela pega o papel e guarda em seu bolso. Ela procura por mais provas e encontra vários arquivos de bebês desaparecidos e, por uma coincidência, um deles tem o nome de Luiza, a enfermeira que desapareceu e apenas foi dada como faltosa por doença, e todos levam a assinatura de Franco, do pediatra e das duas enfermeiras que estão agora comemorando mais "colheitas". Ela está indignada e pega alguns arquivos, coloca-os debaixo do braço e tranca tudo como estava antes!

Olhando ao redor, ela vê apenas uma câmera ali e sobe na cadeira, cortando os fios atrás dela. Logo sai da sala e tranca como estava. Ela olha ao redor e não vê ninguém nos corredores, então sai da UTI rapidamente. Ela entende agora o motivo de não ter câmeras ali: não querem registros do que acontece naquele espaço. Ela se dirige para sua sala, que se localiza no oitavo andar. Ela tem um cofre escondido atrás dos seus arquivos. Ela pega os papéis que encontra e os guarda ali, trancando o cofre, mas tirou fotos, pois ela quer saber se o seu chefe sabe de tudo isso ou se apenas o estão utilizando.

Sofia senta-se em sua cadeira e avalia todas as possibilidades; ainda falta um tempo considerável para o horário de retorno para o plantão na pediatria, então ela liga para Franco. Ela sabe que ele não se encontra no hospital, então será mais fácil, pois ela pode mandar as provas e ele pode fazer a denúncia de sua casa mesmo, sem aparecer ali.

— Vamos, Franco, atende!

O telefone dele apenas chama e ela fica agoniada, não consegue falar com ele. De tanto tentar e esperar o retorno, ela acaba adormecendo ali em sua sala, acorda horas depois, com o despertador tocando e o seu comunicador pessoal. Ele indica que está na hora de ela entrar no plantão. Ela respira e lembra o que aconteceu; não sabe se deve voltar à UTI da pediatria, mas sabe que deve fazê-lo, as provas estão lá. Ela manda uma mensagem para Franco, dizendo que algo de muito errado acontece ali naquela ala, e pede para ele retornar assim que possível.

— Eu não vou me deter, também não deixarei que me incriminem, eu não sou tapete de ninguém!

Está determinada a acabar com tudo aquilo que acontece naquele hospital. Ela agora tem provas de que as crianças sumiram, mas esqueceu uma coisa: a câmera pode tê-la filmado. Ela não quer correr riscos e vai até a segurança, mas está tudo fechado; o segurança deve ter saído para comer ou está na troca. Sofia só poderá falar com ele mais tarde. Ainda atordoada, ela pega o elevador e desce para a UTI pediátrica. Ao que parece, ninguém descobriu nada, então ela vai para o quarto onde dormem os plantonistas e pega as suas coisas pessoais, voltando para a UTI. Ela chega devagar, percebe que a porta está entreaberta, vê algo vermelho no chão, não sabe o que é, mas escuta choro de bebê. Os bebês gemem, quase parando. Ela então para na porta e a empurra; a cena que ela vê parece saída de um filme de terror!

— Oh, meu Deus…

Ela fala com dor em seu peito, seus olhos não parecem ver aquela cena indescritível, ela coça os olhos para ver se é um sonho, mas não é, é real e há sangue por todo lado, ela olha para o chão e os seus pés estão quase encostando ali, os pobres bebês, ela olha para um canto da sala e vê Ramona de joelhos, ela entra vagarosamente, é como se ninguém a ouvisse, Armênia está em outro polo da sala, também de joelhos, ela vê a cena mais tenebrosa que poderia presenciar em sua vida. Ela grita e chora, ao mesmo tempo que tenta correr. Ela escorrega no sangue no chão, as enfermeiras com as bocas e roupas sujas, pedaços de carne espalhados pela UTI inteira. Ela tenta levantar, mas algo segura o seu pé!

Ramona a segura e sorri maleficamente; ela vê o sangue escorrer por entre os dentes dela e chuta com desespero, soltando-se. Ela levanta, escorregando naquele lugar, e corre gritando por ajuda; ela já não sabe para onde ir e corre para o elevador, que continua com as portas abertas. Ela entra e desesperadamente tenta fechar a porta, mas o elevador trava. Ela vê ambas as enfermeiras ensanguentadas, correndo até ela, e aperta os botões com ânsia para sair dali e, finalmente, quando pensa não haver escapatória, o elevador fecha as portas e desce para o primeiro andar. Ela desce correndo e gritando, assustada!

— Por favor, me ajudem, os bebês morreram!

Ela grita e pede ajuda, mas não há ninguém ali por perto. Ela corre para uma sala e acaba tombando com alguém, alguém que ela conhece bem! Franco ouve alguém gritar e sai de sua sala. Ele segura Sofia, que chora e está toda ensanguentada; ele pede para ela ter calma e contar o que aconteceu. Ela está nervosa e tremendo, mas alcança dizer o que acontece.

— Eles, Franco, os bebês, eles… oh… meu Deus, eles estão mortos!

Franco arregala os olhos, surpreso com o que passa com ela, se assusta e a leva para o interior de sua sala; ela senta e ele lhe dá um copo com água.

— Calma, Sofia, não entendo nada do que diz. Por que está suja de sangue? O que houve na UTI pediátrica?

Ele olha para ela atento, aguardando que ela conte o que passou, por que está nervosa e suja de sangue!

— Franco, elas matam os bebês, se alimentam deles, por isso eles somem, são elas!

Franco vê que ela está desesperada e liga na UTI; ninguém atende. Ele pergunta mais uma vez o que ela viu; ela agora responde mais clara e objetiva!

— Tenho provas de que elas somem com os bebês, mas, o pior, elas os devoram e a UTI está ensanguentada; os bebês, elas os comeram!

Franco muda sua expressão para puro terror; ele jamais esperava ouvir isso antes. Então, ele pede para ela o levar lá embaixo. Ela pede para ele chamar a segurança. Ele diz que o fará e a chama para acompanhá-lo. Sofia diz que vai com ele, então seguem para o elevador, indo para o primeiro andar. Ao chegar, eles veem a trilha de sangue que segue pelos corredores. Franco pega uma arma e aponta para a frente, chamando as enfermeiras; não há sinal delas. Os dois seguem para a entrada da UTI. Sofia fica do lado de fora. Ele se aproxima e abre a porta; sua expressão é de surpresa, e ele pega o rádio, ligando para os seguranças.

— Podem vir pegá-la, ela está comigo aqui embaixo e estão todos mortos, os bebês estão mortos!

Sofia olha para ele, entrando na sala. Ele fala algo, algo que ela não queria ouvir!

— Quantas vezes falei para vocês? Primeiro eles saem da UTI, depois os comemos! Agora ela sabe e terei de matá-la!

Sofia paralisa, ela não consegue se mover, não pensa, apenas trava ali, ouvindo e vendo como o seu chefe reclama por matarem os bebês ali, mas ele disse que era para matarem em outro lugar. Ela não entende, aproxima-se devagar e, ao chegar à porta, vê a cena mais horripilante de sua vida. Seu chefe segura um bracinho e o come; ela grita e ele olha para ela sorrindo, apontando a arma em sua direção. Ela enfim corre, ele atira e manda que a peguem e não deixem escapar. Ela corre pelos corredores e desce as escadas de incêndio, não para, não olha para trás, apenas corre. Chegando à porta grande, ela abre e para na recepção do hospital. Há pacientes, pessoas ali olhando para ela. A recepcionista e os seguranças a veem e avisam seu chefe, que chega logo atrás dela.

— Para Sofia, precisamos conversar! Olha o que você fez, olha para você!

Ela não o ouve, corre em direção à porta de vidro. Alguém a manda parar, mas ela empurra o homem que está na frente; ele cai no chão e ela enfim consegue sair daquele lugar.

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